Desconstruir Duchamp: Arte na hora da revisão
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Sobre este e-book
Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão é, como seu título indica, o corajoso esforço do professor e crítico Affonso Romano de Sant'Anna de questionar o universo da arte contemporânea, mais submisso aos valores econômicos e marqueteiros do que aos artísticos e culturais. Ao discutir ampla e sistematicamente em sua coluna do jornal O Globo a ação nefasta dos oportunistas que invadiram o mercado de arte, Affonso Romano de Sant'Anna provocou enorme e salutar reboliço. Foi intensamente aplaudido por aqueles que ansiavam por um porta-voz com coragem suficiente para revelar que há algo de podre no reino da arte, governado por um rei que está nu. Foi odiado e vilipendiado por aqueles que o consideram um iconoclasta reacionário, que ousou questionar certezas que, para eles, devem ser aceitas como dogmas.
Reacionário ou iluminado? Demolidor ou regenerador? Bem intencionado ou apenas rancoroso? Quem é o Affonso Romano de Sant'Anna de Desconstruir Duchamp? Isso, cabe ao leitor decidir. Mas uma coisa é certa, ele é um crítico destemido, tão questionador e provocativo quanto Marcel Duchamp, a ponto de discutir até mesmo a validade do legado desse deus ex machina da arte. Atrevimento iconoclasta que, com certeza, não iria desagradar ao próprio Duchamp...
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Desconstruir Duchamp - Affonso Romano de Sant'Anna
reproduzidos.
ESTE LIVRO
Diferentemente de obras que tratam de historiar a arte moderna endossando, repetindo lugares-comuns, parafraseando e reorganizando o já dito, esses textos olham a arte dos últimos cento e cinquenta anos não com o olhar saudoso e complacente no retrovisor, mas como um esforço para afastar o entulho e descortinar outros caminhos.
Este livro não é contra a arte moderna, a vanguarda e a arte contemporânea. Isto seria por demais raso e pueril. Também não é contra certos autores e obras. Mas propõe uma inadiável revisão de valores sem medo de enfrentar alguns ícones que estão no altar da modernidade e da pós-modernidade. Aqui em vez de simples opinião, desenvolvem-se estratégias para analisar certas falácias teóricas e práticas de produtos e autores que pretendem ocupar, mesmo negando-o, o espaço da arte.
É preciso tirar as artes do gueto em que as instalaram, como se fossem um produto totalmente solto no tempo e no espaço, e convocar para a análise de obras e autores, de maneira sistêmica, alguns instrumentos críticos das ciências humanas e sociais, contrariando, assim, a estranha afirmação do maior crítico norte-americano do século passado – Clement Greenberg, de que a linguística não tem nenhuma contribuição a dar à crítica de arte. A antropologia, a sociologia, a psicanálise, a semiologia e o estudo da economia e do marketing, entre outras disciplinas, têm muito a esclarecer sobre o imbróglio em que a arte se meteu. Repito: é preciso tirar a questão da arte do gueto em que a instalaram, onde certos curadores, leiloeiros, marchands e galeristas decidem o que antes estava na alçada de críticos, ensaístas, historiadores, professores e colecionadores que não encaravam a arte como pura commodity.
Neste sentido há instrumentos teóricos disponíveis em outras disciplinas capazes de operacionalizar um conhecimento iluminador, o efeito metonímico do deslocamento, a questão do fetiche e da aura, a noção de pacto artístico, os diversos conceitos de história, a mais-valia artística e o marketing, a noção de ruína e logos artístico, a gnose iniciatória, a fragilidade da definição de contemporâneo, o discurso excêntrico e a cidadela das artes, o ilusionismo e o autoengano, a iconofilia e a iconoclastia, a obra de arte e as santas relíquias, o valor estético, o rascunho e o inacabado, o enigma em sociedades arcaicas e modernas, autores sintomáticos, o terceiro olhar, o regozijo no mal-estar, o mito da transgressão etc. É possível fazer um diagnóstico da anomia ética e estética em que vivemos. E para que isto ocorra é necessário reativar a teoria do conhecimento e estratégias epistemológicas.
Este livro surgiu não apenas de uma inquietação pessoal, mas de uma contingência e da perplexidade cultural de muitos. A extraordinária receptividade do artigo Arte: um equívoco alarmante
(O Globo, 29 de dezembro de 2001) desencadeou a escrita de 50 outros. Para minha surpresa (e esperança) constatei que, em vários países, teóricos, críticos e intelectuais estavam também emitindo suas opiniões sobre o atual niilismo pseudocriativo nas artes plásticas. Isto ia de Lévi-Strauss, Eric Hobsbawm, Vargas Llosa, Alain Badiou, Mircea Eliade, Jean Baudrillard, H. Meschonic, Kurt Vonnegut, Tom Wolfe, James Gardner, Pierre Bourdieu, Gilles Dorfles, Fredric Jameson, Nathalie Heinich a alguns ícones da crítica em artes plásticas, seja Robert Hughes, crítico do Times e autor da célebre série da BBC O choque do novo
, seja Jean Clair – comissário da Bienal de Veneza, diretor do Museu Picasso e do Beaubourg, curador da retrospectiva de Duchamp. Até mesmo Clement Greenberg teve iluminações a respeito.
Já não se tratava mais, como nos anos 1960, de discutir as vanguardas como o fizeram Peter Bürger, Octavio Paz, Enzensberger, Gianni Vattimo e dezenas de outros ou, como no Brasil, Ferreira Gullar e eu o fizemos quando delas participamos. Tratava-se de ir além disto, de fazer uma revisão da modernidade e da confusa pós-modernidade e repensar a crítica de arte dentro da crítica da cultura.
Enfim, este livro difere da atitude jubilosa dos que embarcaram acriticamente na modernidade e na pós-modernidade e se contentam, como o disse Suzi Gablik, ao apenas trocar de cadeira no tombadilho do Titanic.
Affonso Romano de Sant’Anna
Julho de 2003
EQUÍVOCO ALARMANTE
A inadiável revisão do que foi a arte no século XX
Sobretudo nas chamadas artes plásticas, nos últimos anos tornou-se evidente um fosso entre o público e as obras apresentadas como artísticas. A rigor, a crise é ainda mais grave, pois muitos artistas que se consideram igualmente modernos, e o são, não reconhecem nas obras de muitos de seus contemporâneos qualquer validade estética. A isto se soma o fato de que não apenas entre os artistas que ocupam espaço na mesma contemporaneidade existe essa negação, mas muitos intelectuais também importantes dentro da chamada modernidade não reconhecem em muitas das obras hoje apresentadas em galerias e museus o caráter de inovação ou de criatividade artística. Portanto, estamos diante de um fenômeno insólito e perturbador dentro das relações socioartísticas.
Não se trata, como no final do século XIX e princípio do século XX, de que alguns artistas estejam trazendo uma linguagem nova, difícil de ser assimilada de imediato, decorrendo daí a sua dificuldade de compreensão. A sensação que se tem hoje é de que muitos autores desses produtos não apenas estão repetindo essencialmente as experiências que vão do impressionismo ao dadaísmo, mas sobretudo são despreparados técnica e intelectualmente para a tarefa que propõem.
A partir sobretudo do romantismo, os artistas adotaram, de maneira radical crescente, o modelo de ruptura dos cânones vigentes como forma de emulação de suas obras. Ao final desse ciclo, o dadaísmo, em 1916, surge então, como o marco no qual a arte encontrou-se e fundiu-se com a Antiarte e a não arte. As rupturas sucessivas criaram o círculo vicioso, e sem saída, das rupturas dentro das próprias rupturas configurando, a exemplo da pintura, a síndrome do branco sobre o branco
– como nos célebres quadros pintados por Malevich. Todas as demais artes, a rigor, conheceram síndrome idêntica: chegou-se à folha em branco, ao concerto silencioso, à escultura que derrete, ao teatro sem atores etc.
O que se propõe aqui é uma indagação, uma reflexão.
O século XX já acabou. Ele foi, para o mundo ocidental, o campo de provas de três teorias formuladas pelo século XIX: o marxismo, a psicanálise, a arte moderna.
Enquanto o marxismo e a psicanálise já entraram em fase de revisão, a arte moderna
preserva seus equívocos. Como o marxismo e a psicanálise, a arte moderna teve um nascimento tortuoso e árduo, mas finalmente impôs-se, ocupou os museus, salas de concerto, antologias e tornou-se norma estética vigente.
Não seria a hora de passarmos a limpo a sua trajetória, tendo em vista que um novo século se inaugura, possibilitando um natural renascimento e uma reanálise de nossas manifestações simbólicas?
Em relação à arte moderna e à necessidade de sua revisão há um problema que precisa ser desentranhado e posto no divã socioestético. Refiro-me a um trauma
, a uma má consciência
que ficou na memória do Ocidente pelo fato de vários artistas recusados em salões oficiais no final do século passado terem, posteriormente, sido aceitos como alguns dos maiores criadores de seu tempo. Desde então, a possibilidade de que nossos conceitos de arte estejam equivocados e que sejamos tidos no futuro como incompetentes e ignorantes para perceber a vanguarda
e o novo
fez com que se abrissem, ou melhor, se escancarassem as portas do julgamento estético. Deste modo, passou-se a aceitar como arte tudo aquilo que o artista (ou alguém por ele) apresenta como obra de arte. Passou-se a valer a assinatura e a intenção. Daí, um silogismo perverso: se tudo é arte, então nada é arte.
Ocorreu, por outro lado, outro fenômeno acoplado ao trauma daquela rejeição histórica. Os artistas, que, por suas propostas perturbadoras e revolucionárias àquela época, enfrentavam o gosto oficial e no princípio foram malsinados e marginalizados, passaram, numa reversão da expectativa, não só a serem canonizados, mas a fazer parte da modernidade
triunfalista.
Portanto, da recusa inicial desses artistas à sua posterior celebração estabeleceu-se um ritual socioestético de entronização. Algo que pode ser melhor explicado pela sociologia e pela antropologia. E da mudança de parâmetros estéticos, que sempre foi um processo renovador da própria história da arte, passou-se a parâmetro nenhum, tanto para a elaboração quanto para o julgamento de uma obra artística
. Não se trata do já estudado fenômeno da perda da aura
artística, mas sim de algo que se poderia denominar de reinvenção de uma nova aura
, resultante tão somente do marketing e do mercado de galerias, de museus, de bienais e exposições congêneres. Uma aura instituída por uma espécie de seita que faz da recusa de um pacto com o público a sua autopropulsão.
A improvisação, a audácia, o arrivismo, a exploração da ingenuidade do público e a esperteza burguesa e mercantilista sustentam um insólito equívoco na história das manifestações simbólicas do homem. O objeto artístico alienou-se do público e de si mesmo.
Portanto, considerando que o século XX foi o espaço em que esse equívoco prosperou, mas considerando que é necessário rever e passar a limpo nossa história, sem o que ela ficará estagnada em seus equívocos, é que se propõe aqui uma ampla discussão em torno da revisão das chamadas artes plásticas.
SUICÍDIO DA ARTE
O rei está nu e há muito rolou as escadas, sem aura e sem vestes
No artigo anterior, Equívoco alarmante
, com reflexões sobre o caos em que andaram as artes plásticas
, sobretudo no século XX, manifestava a esperança de que no século XXI pudéssemos esclarecer este equívoco, porque, entre todas as artes, as artes plásticas
parecem as mais perdidas.
Pela reação veementemente positiva de inúmeros artistas e dos leitores, confirmou-se que aquele texto não era apenas uma opinião pessoal, mas retratava um desconforto generalizado em relação à chamada arte
que anda por aí. Muitos concordaram que é necessário, urgentemente, fazer alguma coisa para mudar esse esquizofrênico panorama.
Isto posto, consideremos:
1. Quantas vezes ao visitar museus nos damos conta de que, ao chegarmos às salas que expõem trabalhos das últimas décadas, apressamos os passos olhando o que está exposto com desinteresse e tédio?
2. Quantas vezes, você que viaja, vai a museus, tem uma certa cultura, ao abrir jornais e revistas não depara com reportagens e críticas sobre certas obras
que parecem puro disparate, e pensa: alguém está brincando comigo?
3. Até que ponto somos coagidos a não dizer o que realmente pensamos e sentimos diante de certas obras para não desagradar amigos e conhecidos, ou temerosos de passar por reacionários
, antigos
e conservadores
?
4. Quantos artistas autênticos estão ilhados em seus ateliês sem conseguir espaço na mídia porque não cedem a essa cultura do espetáculo
vazio?
Enfim, o que fazer, então, diante da anomia estética que se estabeleceu no século passado e que deve ser passada a limpo no atual?
Uma atitude é limitar-se a uma discussão (apenas) teórica. A teoria é necessária, mas a linguagem tem suas teias e acaba falando narcisisticamente sobre si mesma. E um dos equívocos da arte conceitual é achar que todo conceito se equivale em qualidade. Além do mais, sucede os contendores estão mais interessados em defender posições
, exibir saltos mortais de erudição que em aperfeiçoar o conhecimento. Fora o fato de que há interesses econômicos fortíssimos envolvidos na questão.
Por isto, penso que se poderia tentar algo diferente (e complementar) que pudesse radiografar e possibilitar um diagnóstico eficaz da situação. Assim se abalariam os alicerces desse castelo de areia.
A primeira medida é tirar esse debate do gueto em que esteve confinado. A arte é um fenômeno por demais universal para ficar confinada na palavra só de alguns artistas e de alguns críticos.
Em 1999 comecei um projeto que era, para usar expressão que alguns artistas gostam, uma intervenção no circuito ideológico
das artes. A pedido, aliás, de um portal na internet, que lançaria um debate sobre o assunto em cinco línguas diferentes. Numa primeira etapa, um cientista social, um filósofo, um escritor, um artista, um antropólogo, um especialista da área de marketing, um linguista, enfim, uma dezena de expoentes de diversos setores da cultura, escreveriam textos revendo, criticando, analisando os impasses das artes plásticas no século XX, tentando dizer algo que não fossem as platitudes conhecidas. Depois desses textos problematizadores, seriam aplicados questionários em diversos segmentos da sociedade para que o público se expressasse sobre os produtos apresentados como obras de arte
. Seria um efetivo estudo de estética de recepção
, que tem, em geral, se refugiado em cogitações apenas acadêmicas. Mas deveria ser complementado por um estudo da estética da produção
, por isto, esses questionários deveriam ser elaborados de tal forma que os demais artistas, como os diretores de teatro, de cinema, músicos, escritores, bailarinos, enfim, artistas de outras áreas opinassem abertamente sobre as artes plásticas ao lado de representantes de todos os setores sociais, de operários a militares. Dou como certo que teríamos surpresas, pois assim como a maioria dos artistas plásticos é crítica do que se apresenta ostensivamente por aí como arte contemporânea
, também artistas de outros setores e intelectuais de várias áreas exporiam opiniões não menos reveladoras.
Sobretudo, desde os recentes anos 1970, muitos livros e ensaios começaram a surgir denunciando os equívocos (as aporias) em que a arte moderna se meteu no século XX. Alguns fazem análises estéticas e outros elaboram teses várias mostrando como curadores, galerias, museus, partidos políticos e mesmo a CIA interferiram no marketing, no comércio e na exportação de certos produtos artísticos
. Ainda há poucos dias, quando fui participar de um debate sobre crítica no Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires – também chamado de Museu Constantini –, topei nas livrarias da cidade com duas dessas obras: Vanguardia, internacionalismo y política (Ediciones Paidós), de Andréa Giunta, e La CIA y la guerra fria cultural (Debates), de Frances Stonor Saunders. Poderia citar aqui duas dezenas de outras, que igualmente trazem informações esclarecedoras.
Há alguns meses estava na livraria Rizzoli, em Roma, tentando me desasnar mais um pouco. Depois de ter visto várias exposições, que iam do futurismo italiano a Caravaggio, topei com um livro cujo conteúdo era tão intrigante quanto o título: O suicídio da arte, de Pablo Echaurren (Editori Riuniti, 2001), no qual sobressaía um capítulo com este título: O rei está nu e desce a escada.
Com efeito, há muito que em matéria de arte contemporânea o rei não apenas está nu. O novo é verificar que já desceu ou rolou escada abaixo, embora muitos, por insegurança ou cegueira, ainda achem que devem se curvar e elogiar a aura de suas vestes inexistentes.
O ENIGMA VAZIO
Livro de Manguel instiga novos questionamentos sobre arte
Na parede de uma galeria estava exposto um quadro totalmente branco. Embaixo o título da obra: Travessia do Mar Vermelho pelos judeus. Alguém perguntou: Cadê os judeus?
O autor da obra respondeu: Já passaram.
E os egípcios?
, insistiu o espectador. Ainda não chegaram.
Essa piada me vem a propósito do belo livro de Alberto Manguel: Lendo imagens (Companhia das Letras, 2001), no qual, num dos capítulos, ele estuda o tipo de pintura onde o que conta é a imagem como ausência
. Esse livro já foi elogiado mundo afora, e o autor, que antes nos dera A história da leitura, bem merece elogios pela clareza, didatismo e articulação de informações instigantes. No entanto, o capítulo em que estuda as pinturas de Jackson Pollock e Joan Mitchell exige uma reflexão mais acurada. Às vezes é preciso mais que dois olhos para a crítica. É o que chamo o exercício do terceiro olhar.
Manguel faz uma série de conjecturas que nos obrigam a rever, uma vez mais, os equívocos em que se meteram as artes plásticas
no século passado. (Insisto em dizer século passado
, para que alguns vanguardistas retardatários se deem conta que já estão na retaguarda.)
Lá pelas tantas, sobre o quadro de Joan Mitchell chamado Dois pianos, Manguel honestamente diz: "Sob a influência