Territórios e Territorialidades
Territórios e Territorialidades
Territórios e Territorialidades
Resumo
O artigo aborda alguns aspectos da discusso que envolve o conceito de territrio e
territorialidade sob o ponto de vista da cincia Geogrfica. Trata-se de uma interpretao
envolvendo as diferentes abordagens e concepes geogrficas em torno do territrio
configurando aquilo que alguns autores denominam mltiplos territrios e/ou
multiterritorialidades. A anlise foi elaborada com base nos estudos j desenvolvidos por
diversos autores que se propuseram a discutir sobre a temtica. Partimos do pressuposto de
que os estudos territoriais se mostram cada vez mais emergentes frente aos processos de
transformaes do espao geogrfico mundial que refletem diferenciaes no apenas de
carter poltico-econmico, mas, igualmente, de expresso simblico-cultural, manifestadas
nas mais diversas tramas do cotidiano vivido. O artigo est dividido em trs eixos bsicos:
O primeiro eixo busca vislumbrar a polissemia que envolve o conceito de territrio, de
modo particular no mbito da cincia Geogrfica. O segundo diz respeito s discusses
sobre territorialidade enquanto conceito correlato ao territrio. E o terceiro e ltimo eixo
compreende as consideraes finais acerca do tema proposto.
Palavras-chave. Territrio. Territorialidade. Espao. Relaes de poder. Cultura.
Abstract
This article discusses some aspects of the discussion surrounding the concept of territory
and territoriality from the point of view of geographical science. This is an interpretation
involving different approaches and geographical concepts around the territory setting what
some authors call multiple territories and / or multi territorialities. The analysis was
performed based on studies already developed by several authors who proposed to discuss
about the issue. We assumed that the territorial studies increasingly show against emerging
transformation processes of global geographic space that reflect not only differences of
political and economic, but also cultural - symbolic character manifested in several daily
plots lived. The article is divided into three basic areas: The first axis search glimpse the
polysemy involving the concept of territory, particularly in the context of Geographic
Science. The second concerns the discussion of territoriality as a correlate to the territory
concept. And the third and last axle comprehends the final considerations about the
proposed theme.
Keywords: Territory. Territoriality. Space. Power relations. Culture.
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Introduo
Embora o debate em torno do conceito de territrio no se constitua uma
novidade nas discusses geogrficas, tendo sua raz ainda na Geografia Poltica
Clssica, a polissemia que envolve sua definio tem ensejado, nos ltimos anos,
debates profcuos no seio de diversas reas das cincias humanas, particularmente no
campo da cincia geogrfica onde a tradio dos estudos territoriais tem condicionado a
um constante processo de redefinio do conceito valorizando assim uma multiplicidade
de aspectos definidores (como relaes sociais cotidianas, multiescalaridade, poder,
etc.) na interpretao dos fenmenos geogrficos contemporneos.
Apesar de sua tradio no mbito da Geografia, a origem do termo territrio e o
seu emprego nas cincias humanas no advm dos estudos geogrficos (HAESBAERT,
2004; SAQUET, 2010) sendo sua utilizao originria ao campo das cincias da
natureza, em especial da Biologia e da Zoologia, a partir dos estudos ligados Etologia.
Na Geografia Friedrich Ratzel foi um dos precursores da abordagem do territrio
associando-o ideia de espao vital, enquanto elemento fundamental no processo de
desenvolvimento das Naes no contexto do expansionismo imperialista europeu do
final do sculo XIX. Com o passar do tempo, a nfase dada outras categorias de
anlise geogrfica (em particular da categoria espao e regio) de algum modo leva a
um arrefecimento das discusses sobre territrio, que somente ganhar novo impulso a
partir da dcada de 1960-70 (SAQUET, 2007; 2010) em pleno processo de renovao
do pensamento geogrfico. A partir de ento que o conceito de territrio renasce de
forma renovada e sistemtica, contemplando a noo de dinamismo, contradies,
relaes de poder, identidades, redes de circulao e comunicao, etc.
Essa redescoberta para usar a expresso de Saquet (2010) do conceito de
territrio se funda agora em novas e atualizadas leituras encontrando-se desde territrios
como abrigo1 at territrios vinculados ao ciberespao, em que o controle feito
pelos meios informacionais os mais sofisticados (HAESBAERT, 2004). Trata-se de um
desdobramento a partir de sua vinculao em uma perspectiva mais sistematizada da
concepo de mltiplos territrios, e/ou daquilo que Haesbaert (2004; 2007; 2008;
2009) denominou
multiterritorialidade,
conjugando
uma multiplicidade ou
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apenas enquanto conceito puro, mas, da mesma forma, num sentido pragmtico,
compreendendo sua dimenso ontolgica. Alm disso, entendemos que os estudos
territoriais ser importante instrumento de analise visando uma conscincia voltada para
questes sociais e espaciais, das quais a geografia, ao longo do tempo, tem ajudado a
construir.
A
metodologia
complementares.
aqui
utilizada
compreendeu
duas
fases
distintas
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dimenso fsico-natural (solo e seus recursos) e uma dimenso poltica do espao (que
se confunde com o estatal) que o territrio se define. Dizia ele:
(...) fcil convencer-se de que do mesmo modo como no se pode
considerar mesmo o Estado mais simples sem o seu territrio, assim tambm
a sociedade mais simples s pode ser concebida junto com o territrio que lhe
pertence (RATZEL, 1990. p. 73).
E continua...
(...) os organismos que fazem parte da tribo, da comuna, da famlia, s podem
ser concebidos junto com seu territrio. Sem isso no possvel o seu
desenvolvimento, assim como sem territrio no se poderia compreender o
incremento da potncia e da solidez do Estado (idem, p. 74).
Desse modo pode-se dizer que o territrio referido por Ratzel tem como
fundamento a base fsico-natural do Estado-Nao. Trata-se de um territrio que, com
sua populao, fronteiras, recursos naturais, etc., se constitui no suporte fundamental
para o desenvolvimento de dada Nao e o fortalecimento de um dado Estado.
Esse desenvolvimento, na perspectiva de Ratzel (1990), dependeria do
controle e/ou manuteno e da conquista de novos territrios, ou seja, de novos
espaos vitais. Nesse sentido, na viso de Ratzel, seria o controle da posse de novos
territrios um dos fatores fundamentais na constituio o Estado:
(...) a sociedade que consideramos, seja grande ou pequena, desejar manter
sobretudo a posse do seu territrio sobre o qual e graas ao qual ela vive.
Quando essa sociedade se organiza com esse objetivo, ela se transforma em
Estado (RATZEL, 1990, p.76).
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Pode-se dizer assim que Raffestin (1993) no recorta o espao, mas transforma-o
em substrato para a criao do territrio. No entanto, vale notar que um territrio
enquanto tal, no exprime simplesmente um espao, mas um espao construdo por um
ator sintagmtico (que realiza uma ao) de acordo com seus objetivos e interesses.
(...) do Estado ao indivduo passando por todas as organizaes pequenas ou
grandes, encontramos atores sintagmticos que produzem territrios [...],
em graus diversos, em momentos diferentes e em lugares variados, somos
todos atores sintagmticos que produzem territrios (RAFFESTIN, 1993, p.
152).
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E continua...
(...) sem dvida sempre que houve homens em interao com o espao,
primeiramente transformando a natureza (espao natural) atravs do trabalho,
e depois criando continuamente valor ao modificar e retrabalhar o espao
social, estar-se- tambm diante de um territrio e no s de um espao
econmico; [no entanto] inconcebvel que um espao que tenha sido alvo
de valorizao pelo trabalho possa deixar de estar territorializado por
algum (SOUZA, 2001, p. 96, grifo nosso).
Nesse sentido, este autor chama a ateno para o fato de que assim como o
poder onipresente nas relaes sociais, o territrio est, outrossim, presente em toda
espacialidade (2001, p. 96). Ademais, acrescenta que se todo territrio pressupe um
espao social, nem todo o espao social um territrio (ibidem, p. 96). Assim sendo,
para Souza (2001) embora Raffestin (1993) estabelea novas bases nos estudos sobre
territrio, rejeitando a unidimensionalidade do poder que prevalecia na Geografia
Poltica Clssica, este autor no chega a romper com a velha identificao do territrio
como o seu substrato material. Partindo desse principio sua posio a de que
(...) Raffestin no explorou suficientemente o veio oferecido por uma
abordagem relacional, pois no discerniu que o territrio no o substrato, o
espao social em si, mas um campo de foras, as relaes de poder
espacialmente delimitadas e operando, destarte, sobre um substrato
referencial (SOUZA, 2001, p. 97).
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Nessa perspectiva, o mesmo autor considera que o territrio pode ser entendido
como uma forma de apropriao social do ambiente; o ambiente construdo, em que
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Assim, o territrio possui tanto uma dimenso mais subjetiva, que Haesbaert &
Limonad (2007, p. 43) denominam conscincia, apropriao ou mesmo em alguns
casos, identidade territorial, quanto uma dimenso mais objetiva, caracterizada como
dominao do espao, num sentido mais concreto, realizada por instrumentos de ao
poltico-econmica. Nessa interpretao as relaes de poder emergem como produtoras
das relaes sociais e de identificaes diferentes, opondo relaes de produo e
relaes de vivncia.
Na perspectiva mais funcional, de carter poltico-econmica, o territrio
apreendido como um local delimitado e controlado, atravs do qual se exerce um
determinado poder, na maioria das vezes mas no exclusivamente relacionada ao
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poder poltico do Estado (HAESBAERT, 2004, p. 40). J na perspectiva simblicacultural, tem-se o territrio como o produto da valorizao simblica de um grupo em
relao ao seu espao vivido (idem, p. 40). Neste ltimo caso, o territrio
compreendido pelo valor de uso, pelo vivido, pela subjetividade, refletindo a chamada
identificao positiva com o espao, que adquire a mesma fora de realidade como as
relaes de poder abstratas.
Considerando tais perspectivas de territrio pode-se interpretar a ambigidade
do territrio tanto no lado homogeneizador da globalizao como no lado diversificador
da cultura (HAESBAERT, 2004, p. 40).
Apesar desta distino, Haesbaert (2004) tambm chama a ateno para a
necessidade de se considerar tanto o aspecto funcional quanto o aspecto simblico
como parte integrante da realidade cotidiana que se manifesta nos territrios. Partindo
desse principio este autor reitera que:
(...) todo territrio , ao mesmo tempo e obrigatoriamente, funcional e
simblico, pois as relaes de poder tm no espao um componente
indissocivel tanto na realizao de funes quanto na produo de
significados. O territrio funcional a comear pelo papel enquanto
recurso, desde sua relao com os chamados recursos naturais
(HAESBAERT, 2007a, p. 23).
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Dessa maneira, este autor procura mostrar que o territrio significa natureza e
sociedade, economia, poltica e cultura; idia e matria; identidades e representaes;
apropriao, dominao e controle. Adverte assim que os territrios podem ser
temporrios ou mais permanentes e se efetivam em diferentes escalas, envolvendo,
sempre, a sntese dialtica do natural e do social que reside no homem (SAQUET,
2010, p.128). Assim, entende que
(...) no territrio, h temporalidades e territorialidades, des-continuidades;
mltiplas variveis, determinaes e relaes recprocas e unidade. O
territrio, [...] espao de vida, objetiva e subjetivamente; significa cho,
formas espaciais, relaes sociais, natureza exterior ao homem; obras e
contedos. produto e condio de aes histricas e multiescalares, com
desigualdades, diferenas, ritmos e identidade(s). O territrio processual e
relacional, (i)material (SAQUET, 2007, p. 73).
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Reiterando este mesmo autor (SAQUET, 2006; 2010) aponta para a dimenso
subjetiva da territorialidade entendendo-a como o desenrolar todas as relaes dirias
que efetivamos. Ou melhor, ela corresponde s nossas relaes sociais cotidianas em
tramas, no trabalho, na famlia, na Igreja, nas lojas, nos bancos, na escola etc. Estas
relaes, as territorialidades, que constituem o territrio de vida de cada pessoa ou
grupo social num determinado lugar.
(...) a territorialidade o acontecer de todas as atividades cotidianas [...]
resultado e determinante do processo de cada territrio, de cada lugar;
mltipla, e por isso, os territrios tambm o so, revelando a complexidade
social, e ao mesmo tempo, as relaes de domnios de indivduos ou grupos
sociais com uma parcela do espao geogrfico, outros indivduos, objetos,
relaes (SAQUET, 2010, p. 129).
E complementa...
(...) compreendemos a noo de territorialidade como um processo de
relaes sociais, tanto econmicas, como polticas e culturais de um
indivduo ou de um grupo social. A territorialidade corresponde s relaes
sociais e s atividades dirias que os homens tm com sua natureza exterior.
o resultado do processo de produo de cada territrio, sendo fundamental
para a construo da identidade e para a reorganizao da vida quotidiana
(SAQUET, 2009, p. 8).
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aos
territrios,
formais-institucionais),
conjugando
materialidade
imaterialidade.
Buscando valorizar a dimenso ontolgica do territrio, Haesbaert (2007)
sustenta que a territorialidade no apenas algo abstrato, num sentido que muitas
vezes se reduz ao carter de abstrao analtica, epistemolgica.
Ela tambm uma dimenso imaterial, no sentido ontolgico que, enquanto
imagem ou smbolo de um territrio, existe e pode inserir-se eficazmente
como uma estratgia poltico-cultural, mesmo que o territrio ao qual se
refira no esteja concretamente manifestado como no conhecido exemplo
da Terra Prometida dos judeus, territorialidade que os acompanhou e
impulsionou atravs dos tempos, ainda que no houvesse, concretamente,
uma construo territorial correspondente (HAESBAERT, 2007, p, 23).
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Algumas consideraes
Procurou-se elucidar aqui que o conceito de territrio rene noes de vida, de
espao social e de espao vivido, podendo ainda ser interpretado como resultado de uma
apropriao poltico-econmica e/ou simblico-cultural do espao por grupos sociais
que imprimem uma representao particular a este espao a partir de uma construo
social e histrica.
Os diversos autores mencionados apontam para a existncia de diversos
territrios (concretos e simblicos) e territorialidades (individuais e coletivas) que se
sobrepe no espao geogrfico e que so multidimensionais e multiescalares. Isso
significa que alm do territrio estruturado a partir de uma lgica poltico-econmica,
de carter mais funcional, o territrio tambm remete construo de pertencimento, de
identidade coletiva, como experincias concretas do espao social.
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Notas
1.
De acordo com Haesbaert, (2004), o territrio como abrigo est relacionado uma dimenso muito mais
concreta, dizendo respeito aos grupos sociais cujos parcos recursos de sobrevivncia fazem com que
ainda dependam diretamente de alguns aportes fsicos do meio.
2.
Para o antroplogo Little (2002), a palavra inglesa homeland tende a ser traduzida como ptria em
portugus. Mas o significado mais comum de ptria faz referncia a um Estado-Nao, o que desvia o
termo homeland de seus outros significados possveis referentes s territorialidades de distintos grupos
sociais dentro de um Estado-Nao.
REFERNCIAS
BOLIGIAN, Levon; ALMEIDA, Rosngela Doin. A transposio didtica do
conceito de territrio no ensino de geografia. In: GERARDI, Lcia Helena de
Oliveira (Org.). Ambientes: estudos de geografia. Rio Claro: Programa de PsGraduao em Geografia /UNESP, 2003. p. 235-248.
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Recebido em 04/01/2013
Aceito para publicao em 11/07/2013.