Quine o Que Ha 1948 PDF
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W V QUINE
DE UM PONTO
DE VISTA
LC ICO-
Traduo de Luis Henrique dos Santos (Sobre o que H), Marcelo Guimares da Silva Lima
(Dois Dogmas do Empirismo) e Joo Paulo Monteiro (Identidade, Ostenso, Hipstase)
-t
r Traduzido do original ingls: From a Logical Point of View, Cambridge, Mass., 1953, Havard University
Press. Desse texto so extrados os ensaios acima citados, que constituem os trs primeir captulos. (N.
do E.)
r
SOBRE O QUE H*
Um aspecto eurioso do problema ontolgico sua simplicidade. Ele pode
ser formulado com trs monosslabos portugueses: "O que h?" Alm disso,
pode ser resolvido com uma palavra "fsds" e todos aceitaro essa
resposta como verdadeira. No entanto, isso -
- simplesmente dizer que h o que
h. Resta margem para desacordo em situaes particulares; e assim a questo
permaneceu de p pelos siculos.
Suponhamos que dois ilsofos, McX e eu, discordem em ontologia. Supo-
nhamos que McX sustente haver algo que eu sustente no haver. McX pode,
inteiramente de acordo com seu prprio ponto de vista, traar nossa diferena
de opinio dizendo que eu me recuso a reconhecer certas entidades. Devo, natu-
ralmente, objetar que sua formulao de nosso desacordo no correta, pois
sustento no haver nenhuma entidade, da espcie que ele alega, para que eu
as reconhea; mas julgar incorreta sua formulao de nosso desacordo irrele-
vante, pois de qualquer modo sou obrigado a considerar sua ontologia incorreta,
Quando, por outro lado, tento formular nossa diferena de opinio, parece
que me vejo em embarao. No posso admitir que h coisas que McX sustenta
e eu no, pois, ao admitir que h tais coisas, eu estaria contradizendo minha
prpria rejeio delas.
Seguir-se-ia, se esse raciocnio fosse s^olido, que em toda disputa ontol-
gica quem defende a parte negativa sofre d desvantagem de no poder admitir
que seu oponente dele discorda.
Esse o velho enigma platnico do no-ser. O no-ser deve em algum
sentido ser, caso contrrio o que seria aquilo, que no ? Essa doutrina emara-
nhada pode ser apelidacla de a barba de Plto; historicamente provou-se obsti-
nada tirando freqentemente o fio da navalha de Occam,
E uma tal linha de pensamento que conduz filsofos como McX a atribuir
ser onde, de outro modo, se contentariam em reconhecer que no h nada.
Assim, tomemos Pgaso. Se Pgaso no fosse, argumenta McX, no estaramos
falando de nada quando usamos essa palavra; portanto, no teria sentido dizer
nem mesmo que Pgaso no . Acreditando ter assim mostrado que a negao
de Pgaso no pode ser coerentemente mantida, conclui que Pgaso .
McX no pode, na verdade, persuadir-se de todo de que alguma regio
do espao-tempo, prxima ou remota, contenha um cavalo alado de carne e
osso. Instado a fornecer mais pormenores acerca de Pgaso, diz ento que
uma idia nas mentes dos homens. Aqui, entretanto, comea a se tornar evidente
* Traduzido do original ingls "On What There is", in From a Logical Point ol View,H.ar-
per & Row, Nova York, 1963, pp. 1-19.
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224 QUINE
na.
2 Cf. Quine, From a Logical Point ol View, Harper & Row, Nova York, 1963, p, 152,
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r;
226 QUINE
3 Cf, Church, "A note on the Entscheidungsproblem", Iournal of Symbolic Losic I, L936,
pp. 40 e ss., 101 e sS. Para uma apresentao possivelmente mais conveniente do argumento,
f. Hitbert and Bernavs, Grundlagen der Mathematk, vol. 2 (Springer), Berlim, 1934, 1939;
segunda impresso, Edwards, Ann Arbor, 1944).
Para mais pormenores sobre a teoria das descries, cf. Quine, op. cit., pp. 85 e s., 166 e s'
5 Para um tratamento mais explcito das varaveis ligadas, cf, Quine, op. cit., pp. 82, 102 e s'
7-
SOBRE O QUE H^4, ))1
Para mais observaes quanto a essa assimilao de todos os termos singulares em des-
cries, cf. Quine, op. ct., p. 167; tambm Qluine, Methods of Logic, Holt, Nova York,
1950, pp, 218-224.
I
228 OUINE
nesse caso, sendo diferentes um do outro, devem ser distintos do objeto nomeado,
que um e o mesmo em ambos os casos.
A confuso entre significar e nomear no apenas fez McX acreditar que
mente, pol sua vez, a idia de idias na mente. Pgaso, portanto, inicialmente
confundldo com um significado, acaba como uma idia na mente. O mais notvel
o fato de que o sr. Y, sujeito mesma motivao inicial que McX, devesse
evitar essa bobagem particular e, em compensao, acabar com possveis no
realizados.
Voltemo-nos agora ao problema ontolgico dos universais: questo de
saber se h entidades tais como atributos, relaes, classes, nmeros, funes.
McX, bem caracteristicamente, acredita que h. Falando de atributos, ele diz:
"H casas vermelhas, rosas vermelhas, ocasos vermelhos; tudo isso senso comum
pr-filosfico, com o que todos devemos concordar. Essas casas, rosas e ocasos
tm, pois, algo em comum; e isso que eles tm em comum tudo o que
entendo pelo atributo da vermelhido". Para McX, portanto, havel atributos
z Cf. Frege, "On Sense and Nominatum", in Feigl and Sellars (eds.), Rdigs in Philoso-
phical Analysrs, Appleton-Century-Crofts, 1949, pp, 85-102. Traduo de "Ueber Sinn und
Bedeutung", Zetschrift luer Philosophie und Philosophische Kritk l0O, 1892, pp' 25-10'
t
SOBRE O QUE H 229
ainda mais bvio e trivial do que o fato bvio e trivial de haver casas, rosas e
ocasos vermelhos. Isso, creio eu, caracterstico da metaflsica, ou ao menos
daquela parte da metafsica chamada de ontologia: quem considera um enunciado
dessa disciplina de algum modo verdadeiro, deve considerlo trivialmente verda-
deiro. A ontologia de cada um est na base do esquema conceitual por meio
do qual interpreta todas as suas experincias, mesmo as mais ordinrias. Julgado
no interior de algum esquema conceitual particular e de que outro modo
possvel um juzo? -
um enunciado ontolgico mantm-se por si, no reque-
rendo absolutamente- nenhuma justificao particular. Enunciados ontolgicos
seguem-se imediatamente de toda espcie de enunciados casuais acerca de fatos
ordinrios, assim como ponto de vista do esquema conceitual
ao menos do -"H
de McX -
"H um atributo" segue-se de casas vermelhas,-rosas vermelhas,
-
ocasos vermelhos".
Julgado em outro esquema conceitual, um enunciado ontolgico que axio-
mtico para a mente de McX pode, de modo igualmente imedito e trivial, ser
pronunciado falso. Algum pode admitir que haja casas, rosas e ocasos ver-
melhos, mas negar, exceto como uma maneira de dizer vulgar e traioeira, que
eles tenham algo em comum. As palavras "casas", "rosas" e "ocasos" so verda-
deiras de diversas entidades individuais que so casas e rosas e ocasos, e a
palavra "vermelho", ou "objeto vermelho", verdadeira de cada uma das diversas
entidades individuais que so casas vermelhas, rosas vermelhas, ocasos vermelhos;
mas no h, alm disso, qualquer entidade, individual ou no, nomeada pela
palavra "vermelhido" nem, do mesmo modo, pela palavra "casidade", "rosi-
dade", "ocasidade". Que as casas, rosas e ocasos sejam todos eles vermelhos
pode ser. considerado algo fundamental e irredutvel, e pode-se sustentar qe
McX no ganha nada, em termos de poder explicativo fetivo, com todas as
entidades ocultas que ele pe sob nomes tais como "vermelhido".
Uma das maneiras pelas quais McX poderia naturalmente ter-nos tentado
imp-or sua ontologia de universis j foi afstada, antes que nos voltssemos ao
problema dos universais. McX no pode argumentil que redicados como "ver-
melho" ou "-vermelho", que todos concordamos em mpregar, devam ser enca-
rados como nomes, cada um de uma nica entidade universal, a fim de serem
de algrtm modo significativos. Isto porque vimos que ser nome de algo um
trao muito mais especfico do que ser significativo. Ele no pode nem mesmo
nos acusar ao menos no por este atgtJmento de termos suposto um atri-
-
buto de pegasear -
ao adotarmos o predicado "pegaseia".
No entanto, McX descobre um estratagema diferente. "Aceitemos", diz ele,
"essa distino entre significar e nomear que voc tanto preza. Aceitemos mesmo
que '-vermelho', 'pegaseia', etc., no sejam nomes de atributos. Ainda assim
voc admite que possuem significados. Mas esses signilicados, sejam eles nomea-
dos ou no, so ainda universais, e arrisco-me a dizer que alguns deles podem
me.smo ser as prprias coisas que chamo de atributos, u algo que em ltima
anlise resulte no mesmo,"
Para McX esse um discurso extraordinariamente penetrante; e no sei de
outra maneira de opor-me a ele seno ecusando-me a aceitar significados. No
entanto, no sinto nenhuma relutncia em recusar-me a aceitar significados, pois
nem por isso nego que palavras e enunciados sejam significativos. McX e eu
podemos-,concordar literalmente em nossa classifi-cao das formas lingsticas
em significativas e assignificativas, mesmo McX construindo a significalividade
como o possuir (em algum sentido de "possuir") alguma entidade abstrata que
chama de significado, enquanto eu no o fao. continuo livre para susteniar
que o fato de que uma dada emisso lingstica seja significativa (ou significante,
,,_
230 QUINE
as entidades_ que nossas variveis percorrem a fim de tornar uma de nossas afir-
maes verdadeiras,
Podemos dizer, por exemplo, que alguns ces so brancos e nem por isso
nos comprometemos a reconhecer ou a canidade ou a bancura como eiltidades.
coisas que so ces so brancas; e, a
as coisas que a varivel ligada ,,algo"
mas no precisam incluir a canidde
dizemos que algumas espcies zoolgicas
232 QUINE
E quanto a classes ou atributos de objetos fsicos, pol seu lado? Uma ontologia
platnic dessa espcie , de um ponto de vista de um esquema conceitual, estri-
tamente fisicalista, um mito, tanto quanto o prprio esquema conceitual fisica-
lista o para o fenomenalismo. Esse mito mais elevado, por sua vez, bom e
til, na rnedida em que simplifica nossa considerao da fsica. Sendo a mate-
mtica uma parte intgrante desse mito mais elevado, a utilidade desse.mito para
a cincia fsia suficientemente evidente. Referindo-me a ele, apesar disso, como
a um mito, ao eco quela filosofia da matemtica a que aludi anteriormente sob
o nome de formalismo. Mas uma atitude formalista poderia, com o mesmo direito,
ser adotada em relao ao esquema conceitual fsico, por sua vez, pelo esteta ou
fenomenalista puro.
A analogia entre o mito da matemtica e o mito da fsica , por alguns
aspectos suplementares e talvez fortuitos, visivelmente estreita. Considere-se, por
exemplo, a crise precipitada nos fundamentos da matemtica, no incio do sculo,
oela descoberta do oaradoxo de Russell e outras antinomias em teoria dos con'
junto's. Essas contraiO tiveram que se obviadas por meio de artfcios ad hoc,
no intuitivos; r nossa produo matemtica de mitos tornou-se deliberada e
evidente a todos. E quanto fsica? Surgiu uma antinomia entre as explicaes
ondutatria e corpuscular da luz; e se ela no rigorosamente uma contradio,
como o o paraoxo de Russell, suspeito que isso ocorra por no ser a fsica
to rigorosa quanto a matemtica. Do mesmo modo, segunda grande crise mo-
derna nos fundamentos da matemica precipitada em 1931 pela prova de
-
Goedels de que h inevitavelmente enunciados indecidveis em aritmtica
corresponde, em fsica, o princpio da indeterminao de Heisenberg. -
Em pginas anteriores empenhei-me em mostrar que alguns argumentos
comuns em favor de certas ontologias so falaciosos. Adiantei, em seguida, um
critrio explcito para decidir quais os compromissos ontolgicos de uma teoria.
Mas a questo de saber que ontologia efetivamente adotar permanece ainda aberta,
e o conselho bvio tolerncia e esprito experimental. Usemos de todos os meios
para verificar quanto do esquema conceitual fisicalista pode ser reduzido a um
fenomenalista; ainda assim, a fsica tambm requer, naturalmente' ser levada
adiante, mesmo se irredutvel in toto. Verifiquemos como e em que grau pode-se
rs A analogia aritmtica deve-se a Frank, Modern Science and s Philosophy, Harvard Uni-
versity Press, Cambridge, 1949, pp. 108 e ss.
ra Cf, Quine, idem, pp. 90 e ss., 96 e ss., 122 e ss.
ts Cf. Goedel, "Ueber formal unentscheidbare Satze der Principia Mathematica und verwandter
Systeme", Monatshelre fuer Mathematk und Physk 38 (1931), pp' 173-198. (Para um exame
introdutrio e mais referncias, cf, Qttir.e, Methods o Logc, ed. cit., pp. 245 e ss')
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