Concreto Ibracon PDF
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Ano XXXIV | Nº 43
Jun. • Jul. • Ago. | 2006
ISSN 1809-7197 IBRACON
www.ibracon.org.br Instituto
Instituto Brasileiro
Brasileiro do
do Concreto
Concreto
tecnologia
Navios de concreto
Concreto
Protendido
Homenagem IBRACON
CONCRETO PRÉ-fabricado
70 anos
da ABCP
REVISTA CONCRETO 1
Concreto auto-adensável de
elevada resistência – inovação
tecnológica na indústria
de pré-fabricados
Ricardo Alencar
Paulo Helene
Escola Politécnica da USP1
Caixa-L
CONCRETO AUTO-ADENSÁVEL
Caixa-U
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aguardando-se 5 minutos, tem-se informações Metodologia de dosagem
importantes quanto à resistência à segregação,
pois se o tempo de escoamento aumentar signi-
ficativamente é sinal de que houve um acúmulo Os métodos normalmente empregados
dos agregados na base do funil. Este ensaio é para dosificação do concreto auto-adensável são
interessante antes de se proceder para um teste complexos e baseam-se na incorporação de agrega-
mais efetivo, porém bem mais demorado como dos. É definido inicialmente o teor de aditivo com
o Tubo-U. base na saturação da pasta, que é posteriormente
ajustado novamente na fase de composição da ar-
gamassa e só por fim no concreto; ensaiados em um
Tubo-U laboratório bem equipado e com aparelhos muito
específicos. Um processo demorado e difícil de ser
realizado em planta industrial de pré-fabricados ou
Grandes têm sido as dificuldades em se centrais dosadoras.
obter um método consolidado para a avaliação Diferentemente desse método anterior,
da resistência à segregação do concreto auto- complexo e demorado, TUTIKIAN (2004) tomando
adensável, como apontado por alguns especialistas por base o método de dosagem IBRACON, considera
(REPETTE, 2005). Dada a importância da coesão nas o ajuste do aditivo diretamente no concreto, pois
características do concreto, foi despendido grande o teor ideal de superplastificante é resultado da
esforço no sentido de aprimorar o ensaio do tubo confluência entre todos os elementos da mistura.
em forma “u”, primeiramente desenvolvido por Adicionalmente, elabora um importante conceito de
GOMES (2002). Este método baseia-se basicamente acertar a coesão do SCC com adições por substituição
em determinar a razão entre a massa de agrega- do cimento por finos pozolânicos ou do agregado
do graúdo do SCC, pela lavagem e peneiramento miúdo por finos não pozolânicos.
de uma amostra referência P1 dada em relação Nos estudos experimentais deste autor que
às porções P2 e P3, coletadas após repouso de também usa o método IBRACON, observou-se que a
aproximadamente 2,5h, do concreto moldado substituição de materiais finos resolve a questão da
neste tubo. Este tempo depende muito do tipo do coesão, porém deve ser acompanhado por um acrés-
concreto e das características climáticas. O ideal cimo gradual do teor de argamassa, necessário para
é que a relação estabelecida esteja entre 0,9 e 1, que o concreto adquira maior habilidade passante.
ou apenas ligeiramente inferior. Foi verificado Sendo que, a porcentagem dos finos depende do
em ensaios práticos que, para a maior precisão tipo de traço, formulações mais pobres em cimento
na execução deste teste, a localização de coleta exigem maior teor de substituição de finos para
das amostras deve prever condições semelhantes manter a coesão quando comparado com compo-
de confinamento entre elas, o que constitui fator sições mais ricas. O que possibilitou a criação de
fundamental para a maior precisão dos resultados. uma correlação entre a relação agregado/cimento
Para tanto, é indicado que a amostra de referên- (m) e teor ótimo de substituição (T), acrescentan-
cia seja extraída a pelo menos 10cm da posição do um 4° quadrante para o diagrama de dosagem
onde o concreto foi despejado, em indicação na de concreto auto-adensável (diagrama IBRACON)
Fig. 4. É constituído por um tudo de PVC, serrado proposto por HELENE (2005), desenvolvido inicial-
ao meio e unidos ou por braçadeira metálica ou mente para concretos comuns. Além disso, este
preferencialmente por fita adesiva, que garantem trabalho prevê um método de dosagem para o SCC
uma melhor contenção do material. sem adições, já que grandes partes das empresas
ainda não incorporaram operacionalmente
esses materiais a sua produção; como será
ilustrado a seguir.
(equação 1)
onde:
m=a+b: relação em massa de agregado
seco/cimento, em kg/kg;
a: relação agregado miúdo seco/cimento
em massa, em kg/kg;
b: relação agregado graúdo seco/cimento
Figura 4 – Posição de extração das amostras no Tubo-U em massa, em kg/kg.
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Concreto auto-adensável sem adições 4° verificar para cada um dos traços: 1:3; 1:3,5;
1:5; 1:4,5, a quantidade necessária de adição para
manter as propriedades necessárias do SCC, man-
1° no traço intermediário, aqui considerado 1:4,0, de tendo o α3, com o teor de aditivo ideal e montar o
teor de argamassa (α1), normalmente empregado diagrama.
para os materiais utilizados;
determinar o teor de aditivo, começando com pe-
quenas quantidades, aumentando-se pouco a pouco Resultados
até chegar ao ponto ideal, que ocorre quando o
concreto está bastante fluido, abatimento maior
que 600mm. Nesta etapa, não se preocupar com a MATERIAIS
segregação do material;
Foi utilizado cimento Portland de alta resis-
2° acrescentar cimento e areia pouco a pouco, para tência inicial – ARI PLUS; aditivo de última geração
tornar o concreto mais coeso, pela maio quantidade Viscocrete 3535; areia rosa de quartzo; e uma compo-
de finos, mas que também ocasionará uma maior sição ótima de agregado graúdo obtidos na prática
habilidade passante, chegando a um novo teor de ar- para resultar o maior grau de empacotamento das
gamassa (α2), para o mesmo valor de espalhamento. partículas, formado por brita 1 de granito, com di-
Observe que, na medida que há um aumento do α, mensão máxima característica de 19mm e brita ½ de
há a necessidade de aumentar também a quantidade granito - peneira não normalizada que constitui uma
de aditivo para manter o espalhamento; fase intermediária da brita 1 e 0, muito empregada
para pré-fabricados. E como adições o metacaulim
3° realizar, além do: 1) espalhamento, ensaios, como: HP Branco e filer calcário.
2) espalhamento T 50cm; 3) caixa-l; 4) caixa-u; 5) fu-
nil-v; 6) funil-v T5min; e 7) tubo-u; para verificar se DIAGRAMAS DE DOSAGEM
o concreto já está ideal ou se ainda são necessárias
algumas correções. Considerando que os testes para São adotadas como leis de comportamento
análise do material podem ser demorados, deve-se os seguintes modelos que governam a interação das
realizá-los apenas na eminência da obtenção do SCC, principais variáveis em jogo:
sob pena do aditivo perder o efeito;
Abrams (1918)
4° produzir os traços auxiliares, que neste trabalho
são: 1:3 (muito rico), 1:3,5 (rico), 1:5 (muito pobre) e
1:4,5 (pobre), a partir do α2 determinado, com um
teor ótimo de aditivo, para as características reque-
ridas, e montar o diagrama de dosagem proposto.
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(α1), adicionar o aditivo, na quantidade determinada Lyse (1932)
primeiramente, para obter um concreto bastante
fluido;
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Alencar (2006)
(equação 5)
onde:
fc: resistência à compressão axial, em MPa;
a/c: relação em massa de água/cimento, em kg/kg;
a/ag: relação em massa de água/aglomerante, em kg/kg;
C: consumo de cimento por m³ de concreto, em kg/m³;
T: teor de substituição em massa de cimento ou areia seca
por finos correspondentes, em kg/kg;
k1, k2, k3, k4, k5, k6, k7, k8 : são constantes particulares de
cada conjunto de materiais.
ENSAIOS DE TRABALHABILIDADE
Figura 8 – Peça do tipo I com elevada taxa de armadura
Segue na Tabela 1 os resultados dos ensaios
de trabalhabilidade obtidos. com 2 X 1,2m, de elevada taxa de armadura: 14cabos
passando pela pista de proteção, distanciados 2,5cm
ESTUDO COMPARATIVO entre si, como pode ser observado na Fig. 8.
Como as etapas de mistura e transporte são
Para efeito comparativo de desempenho do padrão, as mesmas não foram objeto do presente
concreto comum em relação ao concreto auto-aden- estudo. Consideraram-se aqui apenas as fases de mol-
sável, foram moldadas duas vigas tipo I, idênticas, dagem e acabamento. Para tanto, foram necessárias
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duas betonadas em cada um das peças, despejadas em
uma caçamba com grande capacidade e transportados
através de ponte rolante. E o resultado de duração
de cada uma das etapas mencionadas seguem na
Tabela 2.
Foram empregados na confecção da viga
com concreto corrente operários trabalhando como:
vibrador (1), caçamba (2), acabamento (1) e ponteiro
(1). E para o SCC: caçamba (2) e ponteiro (1). O que
resultou em uma produtividade dessas duas etapas
para o CC de 0,87 homens/hora m³ de concreto,
comparativamente para o SCC obteve-se apenas
0,081 h/h m³ de concreto. Adicionalmente, pode ser
observada na Fig. 9 uma brutal diferença de estética
no acabamento superficial dessas peças, que não
sofreram nenhum tipo de estucagem (reparo).
Além disso, considera-se que em moldagens
Figura 5 – Diagrama de dosagem para concreto auto- pelo processo tradicional é difícil evitar a fissuração do
adensável sem adições. gesso (devido a ação do
vibrador) usado para con-
tenção contra o vazamento
na interface armadura-fôr-
ma, que acaba deixando
um pouco de concreto
vazar. A implantação des-
sa nova técnica pode vir
a proporcionar, além dos
beneficios já mencionados,
diminuição dos custos com
energia elétrica e manu-
tenção periódica de vibra-
dores, menos desgastes das
fôrmas, menor dispêndio
de material, resultando
canteiro mais limpo, au-
mentando também a qua-
lidade de trabalho dos
operários, pela também
redução substancial do ba-
rulho e proporcionando a
possibilidade de trabalhos
Figura 6 – Diagrama de dosagem para concreto auto-adensável com adição de metacaulim. em turnos noturnos.
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Conclusões
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rio, com resistência em torno da qual se pretende atingir, com a menor evolução de calor, devido à diminuição do
que é mantido sempre constante, para traços da mesma cimento, durante a hidratação, com menor risco de fissu-
família. Então, a confecção dos traços auxiliares acontece ração por retração térmica. Além, dos benefícios quanto
teoricamente nos traços mais ricos por acesso de arga- à durabilidade pelo efeito de refinamento dos poros;
massa e nos mais pobres por falta. Contudo, mesmo os A aplicação do SCC exige uma qualidade muito
traços mais críticos atenderam as exigências. maior dos equipamentos envolvidos bem como um
A incorporação de adições minerais colaborou controle mais rigoroso de todo o processo de produção.
para a redução do teor de argamassa do concreto auto- Porém, todas as vantagens apresentadas podem fazer
adensável. Pois, apresentam uma área superficial maior com que o SCC seja um material altamente favorável,
do que a do material substituído correspondente, que tornando-se uma excelente opção para o setor de pré-
dão maior coesão. O que adicionalmente contribuem fabricados de concreto.
Figura 9 – Peça após concretagem. A – moldada com concreto corrente. B – moldada com concreto auto-adensável.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Technology, Setembro 16-19, 2001;
EUROPEAN FEDERATION FOR SPECIALIST CONSTRUCTION CHEMICALS AND CONCRETE SYSTEMS (EFNARC).
Specification and Guidelies for Self-compacting Concrete. In: EFNARC. London, Fevereiro, 2001;
HELENE, P. Dosagem dos Concretos de Cimento Portland. In: Concreto: Ensino, Pesquisa e Realizações. IBRACON,
São Paulo, p.439-471, 2005;
OKAMURA, H. Self-compacting high performance concrete. Concrete International, v.19, n. 7, p. 50-54, July 1997;
REPETTE, W. L. Concreto de Última Geração: Presente e Futuro. In: Concreto: Ensino, Pesquisa e Realizações.
TUTIKIAN, B. F. Métodos para dosagem de concretos auto-adensáveis – Porto Alegre: Programa de Pós-graduação
em Engenharia Civil, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2004;
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