Literatura e Fotografia

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Revista Digital do e-ISSN 1984-4301

Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/letronica/


Porto Alegre, v. 12, n. 3, jul.-set. 2019: e35374 https://doi.org/10.15448/1984-4301.2019.3.35374

Literatura e Fotografia:
a expansão de um novo campo de pesquisas no século XXI
1
  Doutor em História Social pela Pontifícia Literature and Photography:
Universidade Católica de São Paulo (2001), com
bolsa CNPQ e bolsa sanduíche CAPES (1998-99) na on the broadening scope of a new research field in the 21st century
Université Lumière (Lyon 2/ França). Professor Adjunto
no Departamento de História, ligado aos programas de
Pós-Graduação em História e em Letras da Pontifícia Charles Monteiro1
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Pós-doutorado (Estágio Sênior com bolsa CAPES) em
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Escola de Humanidades, Programa de Pós-Graduação em História e Letras, Porto Alegre, RS, Brasil.
História Cultural e Social da Arte na Université Paris
1 Panthéon - Sorbonne (2013-2014) sob supervisão
de Michel Poivert.
http://orcid.org/0000-0003-1498-8155
Gonzalo Leiva Quijada2
E-mail: monteiro@pucrs.br Pontifícia Universidade Católica do Chile, Instituto de Estética, Santiago, Chile.
2
  Doutor em História e Civilização (1997) na École des
Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), Paris,
França. Professor da Pontifícia Universidade Católica Ívens Matozo Silva3
do Chile (PUC- Chile) – Instituto de Estética. DEA
Master Europeu Historia Cultural Latino-americana Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Escola de Humanidades, Programa de Pós-Graduação em Letras, Porto Alegre, RS, Brasil.
(1994) EHESS, Paris, França. Autor de diversos livros,
entre eles: Multitudes en Sombras (Ocho Livros, 2008),
El golpe Estético. Dictadura Militar em Chile 1973-1989
(Ocho Libros, 2012).
http://orcid.org/0000-0003-3059-5917.

F
E-mail: gleivaq@gmail.com
ala-se de Literatura Comparada quando se lê a Literatura à luz da História da Arte. Contudo, o termo também engloba
3
  Mestre em Letras pela Universidade Federal de
Pelotas (UFPel) e doutorando em Letras – Teoria da os estudos que se debruçam sobre a inter-relação estabelecida entre o texto e a imagem, os quais se propõem a ser um
Literatura – pela Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul (PUCRS). Bolsista CNPq. estudo comparativo em diálogo com os chamados Estudos Culturais. Na era em que a tecnologia das imagens está em plena
https://orcid.org/0000-0002-4100-0811
E-mail: ivens_matozo@hotmail.com expansão, não é de se admirar que os teóricos, críticos e historiadores da literatura se interessem pela cultura visual, a qual
sempre esteve lado a lado com o universo das letras.
Recebido em: 4/5/2019.
Aprovado em: 5/7/2019. Nesse sentido, é legitimo que se considere a fotografia como um lugar de debate literário. Nas obras literárias, ela aparece
Publicado em: 16/12/2019.
ora em meio ao texto, confirmando ou completando o sentido das palavras, ora colocando em evidência as palavras, ora
Endereço:
Av. Ipiranga, 6681 Prédio 8 sala 402.06 - Partenon -
posicionando-a em oposição ou tensão com as palavras. Seja como for, a fotografia caracteriza-se pelo envolvimento de um
Porto Alegre, RS, CEP: 90619-900. discurso público e privado que circunda as imagens.

Exceto onde especificado diferentemente, a matéria publicada neste periódico é licenciada


sob forma de uma licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.
http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
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Até os anos 1980, a crítica literária, em seu conjunto, ignorou a fotografia, o desenvolvimento de sua análise, Barthes se afasta da fotografia segundo a
mesmo admitindo que alguns escritores tenham se interessado por ela. Esse é o perspectiva do fotógrafo (Operator). Sua famosa distinção entre o Studium
caso, por exemplo, de Lewis Carroll (que, além de escritor, foi fotógrafo amador) e o Punctum foram amplamente debatidas. O termo studium vem do verbo
ou de Victor Hugo e Virginia Wolf (os quais praticavam a arte fotográfica somente studare, que é um estudo do mundo: tudo aquilo que não tem pungência. Já
em ambiente familiar). Nesse contexto, é notório que, tanto as obras literárias, o punctum, por sua vez, vem do verbo latino pungere, significando “picar”,
quanto a fotografia, pareciam, naquela época, seguir linhas paralelas, sem jamais “furar”, “perfurar”. É interessante frisar que é possível encontrar os dois termos
se tocarem, sem interações ou influências mútuas (MONTIER, 2008, p. 7). em uma mesma foto. O studium é a fotografia que vem informar e comunicar
Todavia, o texto fundador de Baudelaire, “Le public moderne et la o sujeito observador (Spectador) – a fotografia como um campo de estudo
photographie”, coloca, de maneira clara, a distinção e o distanciamento – aquilo que se apresenta naturalmente ao espírito. O conceito de punctum
entre a Literatura e a Fotografia. Enquanto a primeira estaria ao lado da arte, advém da própria imagem, tornando-a transparente ao olhar. O termo refere-
a segunda situar-se-ia ao lado da indústria e da ciência. Demasiadamente se, dessa forma, a algo que cala e que fascina. Dito em outros termos, tem-se
ligada ao atual, a fotografia não poderia representar a modernidade, visto aqui o campo do indizível da imagem, aquilo afeta o corpo do observador.
que a literatura, ao transitar entre o clássico e o atual (a moda), seria uma Na mesma linha de raciocínio, a pesquisadora Natália Brizuela (2009), ao
apresentação moderna. Assim, o fotografar poderia, no máximo, almejar discorrer sobre essa questão, na introdução do seu livro Depois da Fotografia.
ser uma “simples serva da arte”, desempenhando um papel de esboço ou Uma literatura fora de si, afirma que:
arquivamento das obras para a posteridade.
Indo na contramão do pensamento que assegurava a falta de interação entre as Aquilo que se vê na imagem existe (deste exato modo) tão só na imagem.
duas áreas, Jérôme Thélot (2004) traz importantes reflexões. Segundo ele, tanto De todos os meios através dos quais a arte adquire presença, a fotografia
a Literatura quanto a fotografia são duas formas de arte que se influenciaram é o que contém essa heterogeneidade, essa convivência de polos opostos.
mutuamente. Nessa perspectiva, pode-se interpretar que a literatura contribuiu A fotografia sempre, e ao mesmo tempo, é arte e não arte. O dispositivo
fotográfico permite algo contraditório ou em tensão: aproximar-se e
para a invenção da ideia de fotografia, modelando-a, construindo o seu imaginário
afastar-se da realidade. É um espelho que reflete algo que não existe fora
e desenvolvendo a sua teoria através de obras de ficção. Por conseguinte,
do espelho, algo assim como um espelho autorreferencial, autoreflexivo.
percebe-se que, reciprocamente, a fotografia renovou a literatura. É mimético. Mas o é falsamente, ou mentirosamente. Porque toda a fo-
Nesse sentido, é possível compreender a importância da publicação do livro tografia é também, antes de tudo, uma operação de montagem – corte,
Câmera Clara, de Roland Barthes, em 1980, para a renovação das pesquisas dissecção, reorganização para decompor a realidade – e por isso produção
sobre as duas áreas. De acordo com François Brunet (2004, p. 64), essa obra se de uma heterogeneidade que só pode ser entendida como estética e não
destaca por conseguir inaugurar uma tradição crítica sobre a fotografia e pode mimética (BRIZUELA, 2009, p. 19).
ser lida, simultaneamente, como um texto teórico sobre a fotografia, um foto-
ensaio, um álbum pessoal ou até mesmo como um autobiográfico roman-photo. O panorama do campo dos estudos sobre a Literatura e a Fotografia se altera
Barthes (2015) assinala as três práticas ligadas ao fotografar: a do fazer, a profundamente a partir dos anos 1990. Parte disso deve-se à realização de uma
do suportar e a do olhar. O fazer é representado pelo Operator (fotógrafo). O série de seminários que passaram a problematizar as relações entre as duas
olhar é apresentado pelo Spectator (leitor e observador), posição assumida áreas, bem como a publicação de várias obras, dentre elas Photography and
pelo autor. O suportar relaciona-se pela ligação entre a imagem e o seu Literature (1992), Fiction in the age of photography (1999), La Littérature à l’ ère
referente, o qual aparece na fotografia como o Spectrum, ou fantasma, em sua de la photographie (2004), Les inventions littéraires de la photographie (2004),
condição inevitável de retorno do morto. Ao se posicionar como Spectator para Littérature et Photographie (2009) entre outras. Vale ressaltar, nesse momento, que
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o conjunto desses livros fizeram avançar consideravelmente a pesquisa sobre a Montier (2008) explora os possíveis impactos deste novo olhar sobre o fotográfico
invenção da fotografia, assim como a sua apropriação por vários artistas, escritores e sobre o “triunfo das coisas vistas”, tendo como ponto de partida uma expressão
e escritoras pertencentes ao cânone da história da literatura dos séculos XIX e XX. do escritor Victor Hugo, a mutação da concepção de diário íntimo. Seu texto
Segundo Jean-Pierre Montier (2009, p. 9), a fotografia possui um valor apresenta uma série de reflexões, bem como uma apurada busca por respostas.
semiótico particular. De acordo com o estudioso, ela tem como principais Assim, Montier é guiado pelos seguintes questionamentos: seria possível afirmar
características uma participação no questionamento e na colocação em que a fotografia não teria tido impacto sobre a literatura de viagem, considerando
perspectiva do estatuto da obra de arte. Aliás, para Montier, a fotografia não só a percepção dos lugares e dos países distantes (exóticos), como também a
igualmente traz à tona noções relativas à identidade, ao retrato, à paisagem representação do “Outro” em uma época de conquistas e explorações coloniais?
e, de forma mais geral, à própria ideia de mimeses na literatura. A técnica do instantâneo fotográfico e a possibilidade da decomposição do
Philippe Ortel (2002) afirma que ocorreu uma verdadeira “revolução movimento (inventada por Eadweard James Muybridge e Étienne-Jules Marey)
invisível” a partir da invenção da fotografia. Através da instauração de um não teriam fornecido novos modelos de representação do tempo para a literatura?
visível/reprodutível, próprio da era industrial, a qual se encontra ligada Afora isso, o autor questiona o resultado da colaboração entre um escritor e um
a novos dispositivos óticos e às novas técnicas, ter-se-ia engendrado uma fotógrafo: um livro ilustrado, ou simplesmente acompanhado por fotografias,
transformação do conceito de ponto de vista e uma pluralidade do uso de não teria tido repercussões na evolução do objeto livro?
distintas vozes narrativas. Isso ocorreu, consoante o autor, bem antes da Em Fiction in the Age of Photography: The Legacy of British Realism, Nancy
invenção do olhar-câmera, que foi diretamente influenciado pela emergência Armstrong (1999) apresenta um fascinante olhar sobre a ficção vitoriana. Mais
de uma forma de ubiquidade ou complexidade do ponto de visão, própria precisamente, ela analisa como a popularidade sem precedentes da fotografia
das imagens fotográficas. Na mesma esteira de pensamento, encontramos as afetou a obra de grandes escritores. Escolhendo romances vitorianos clássicos,
reflexões teóricas prestadas por François Brunet em seu livro Photography and Armstrong examina as obras de autores como Charles Dickens, Emily Brönte
Literature (2009). De acordo com o crítico, há uma coincidência não apenas e Oscar Wilde. Enquanto traça o desenvolvimento do realismo, ela discute as
entre a invenção da fotografia, mas também entre a sua percepção como uma poderosas pistas visuais que começaram a gerar enredos e a determinar como
técnica e com o conceito de verdade visual baseada em uma verdade social, os personagens se relacionavam. Tanto através de comentários sociais, quanto
a qual surgiu com o advento pós-romântico da literatura, cuja representação da crítica literária, o livro de Armstrong desvela uma sociedade obcecada pela
era vista como a expressão cultural legítima da criatividade individual. câmera e sobrecarregada com o que a autora denomina de “visualidade de massa”.
Nessa perspectiva, a invenção da fotografia, no século XIX, veio a alterar As revistas ilustradas da virada do século XIX para o XX propuseram um
as posições estabelecidas no campo das artes. A literatura era, então, uma diálogo intertextual que se ampliou com as vanguardas (Georges Bataille publicou
arte legitimada. Ao seu lado, a figura do autor, do romancista e a do poeta Documents; Andre Breton dirigiu Minotaure), alimentando, dessa forma, um
conseguiram alcançar legitimidade cultural e social. Por outro lado, a fotografia novo terreno para a criação, onde a palavra e a imagem estavam entrelaçadas,
foi considerada uma técnica, demasiadamente próxima à nova sociedade conformando, assim, novos imaginários culturais. Se, no início do século XX,
industrial e as suas demandas de reprodutibilidade de baixo custo. A foto era, o surrealismo promoveu a fotografia ao campo da arte através de uma ampla
portanto, uma espécie de arte democratizada, a qual colocava a imagem ao utilização em revistas e em livros; nos anos 1960, com a Arte Conceitual, no
acesso às massas. Porém, artistas e escritores se faziam fotografar e estampavam contexto de uma desmaterialização do objeto artístico, a fotografia se equipara
as suas imagens nas páginas dos jornais, das revistas e na contracapa dos seus a outros meios de expressão artística. No século XXI, a crise da narrativa é
livros, para que o seu público leitor os conhecesse. Isso teria colaborado, de acompanhada por uma abertura ao diálogo entre o texto e a imagem. O próprio
maneira decisiva, para a construção da moderna figura do autor. formato do livro passa a ser questionado e surgem novos meios e suportes para

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a expressão escrita e para a leitura, com possibilidades inovadoras e criativas foi acrescentada à fotografia; nasceu dela e, por um mesmo movimento, revelou,
no âmbito do mundo digital e mediático. Tais processos enunciam novos no sentido forte, a fotografia, dando-lhe toda a sua dimensão” (SOULAGE, 2010).
paradigmas para a criação e para a interpretação desses “textos híbridos”, os Para Natalia Brizuela (2009), a literatura vindoura, que chamamos de
quais entrelaçam palavra e imagem no campo da literatura e das artes. “contemporânea”, situar-se-ia em uma fronteira entre a literatura e as
Na proposição de Montier (2008), a fotolitetatura poderia fornecer um ângulo outras artes, bem como em uma zona porosa, de contato, contaminação e de
de aproximação privilegiada para se pensar as relações entre texto-imagem. metamorfose. Desse modo, tanto a literatura se transforma, quanto as demais
Na emergência de um mundo moderno, a fotografia seria simultaneamente artes são modificadas na literatura. Entre as muitas expansões da arte literária
um fator, um catalizador e um analisador privilegiado. Seria um fator no estaria a sua passagem para o campo fotográfico, produzindo, dessa forma,
sentido de que não há invenções humanas que não surjam de uma demanda diferentes resultados. O que não se daria apenas pela inclusão de imagens
social, econômica, política e cultural. Se, para Marshall McLuhan, a invenção fotográficas em obras literárias, mas como um:
da imprensa produz o “homem tipográfico”, a invenção e a disseminação
da fotografia faria surgir o “homem fotográfico”. No que tange ao caráter paradigma de uma nova síntese e de uma nova literatura utilizando cer-
Catalizador, Montier assinala a função de provocar mudanças importantes tas características do dispositivo fotográfico – como a indexicalidade, o
no domínio da estética e da ética. Ela se opôs à pintura e à literatura, que corte, o ponto de vista, o pôr em cena, a dupla temporalidade, o caráter
defendiam posições e valores verticais e hierárquicos em uma sociedade documental, sua função mnemônica, o ser uma mensagem sem código
(BRIZUELA, 2009, p. 31).
aristocrática. Já a fotografia, por seu turno, funcionaria dentro de uma lógica de
horizontalidade, porquanto iria ao encontro das características que produziriam
o homem democrático (dessacralização, igualdade, uniformização). Por fim, A fotografia narrativa tentaria estabelecer um novo tipo de meio alternativo
o caráter Analisador, segundo o autor, constituiria uma ferramenta essencial à palavra escrita, e que, talvez, seja a forma como serão concebidos os livros no
para a compreensão do próprio fenômeno da modernidade, bem como seus futuro. Para Mario Bellatin (2001): “a fotografia é o veículo do deslocamento,
desdobramentos no plano das artes e da literatura em particular. é o que permite a produção de uma literatura marcada pela transferência e
François Soulages, em Estética da fotografia – Perda e permanência (2010), na pela indiferenciação, é o meio que leva a literatura para fora de si, para fora
terceira parte do livro – denominada “A arte fotográfica” – afirma que devemos de seu próprio meio” (BELLATIN, 2001, p. 16).
ter em mente que uma coisa só adquire sentido em função das relações que Em meio à multiplicidade de abordagens sobre as relações entre as duas
ela estabelece com as outras. Então, a partir disso, o crítico estuda as conexões formas artísticas e as suas intersecções com outras linguagens, o dossiê Literatura
que a arte fotográfica mantém com a literatura, refletindo, assim, sobre uma e Fotografia propõem uma reflexão teórica e crítica sobre as narrativas que
estética da cocriação. ultrapassam uma concepção tradicional, problematizando trânsitos entre a palavra
Nas relações entre a fotografia e a literatura, essa cocriação resultaria em uma e a imagem, bem como a subversão do formato livro, abordando experimentações
união entre fotos e textos dentro de uma obra literária. Isso pode ser realizado que proponham um diálogo entre as artes. Os textos presentes buscam refletir
por meio de três maneiras: pela combinação de fotos e textos que não foram sobre o processo de “contaminação” e também sobre os “deslocamentos” da arte
concebidos para serem contemplados em conjunto; pelo ato de um fotógrafo fotográfica na literatura, que se manifesta não apenas através da inclusão de
conseguir criar a partir de um texto, ou de um escritor desenvolver seu trabalho fotografias em obras literárias, mas também pela influência da estética da arte
a partir de fotos; e, por fim, uma terceira maneira, a mais interessante, segundo fotográfica na estética da arte literária, seja pela apropriação de certas características
o autor, através de um procedimento artístico que não se acrescenta ao outro, do fotográfico (como dispositivo, como modo de olhar e como uma linguagem),
mas que nasce do outro. Nesse sentido, nas palavras do estudioso: “a escrita não seja através da discussão de obras literárias, de fotolivros e de textos teóricos.

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Desde 2011, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, vem narrativo, com o intuito de contemplar a criação artística de um modo plural,
sendo oferecido o “Seminário Literatura e Fotografia” no quadro do Programa em uma poética interartística.
de Pós-Graduação em Letras (Escrita Criativa). Nele, foi possível observar a Abrindo esse primeiro eixo temático, Maria Cristina Baranlloni Lagos, em
escassez da bibliografia em língua portuguesa, frente ao conjunto de obras “Fotografía y representación em la novela El mapa y el território de Michel
existentes em língua francesa e inglesa. Com uma perspectiva muitas vezes Houellebecq”, discute as variadas temáticas que emergem da inter-relação entre
eurocêntrica, livros como Depois da Fotografia (2009), de Natália Brizuela, a fotografia e a sua representação literária dentro da obra do escritor francês
Fotografia & Poesia (2017), de Adolfo Montejo Navas, e a publicação organizada Michel Houellebecq. Para isso, Lagos divide a sua análise em quatro momentos:
por Dan Russek, denominada Textual Exposures: Photography in Twentieth primeiramente, ela aponta a relação entre os diferentes tipos de representações
Century Latin American Narrative Fiction (2015) vieram a ampliar o assunto visuais que estão expressos no texto. Em seguida, analisa criticamente as
ao tratar de autores e artistas latino-americanos. fotografias presentes na obra, logo depois compreende os mapas da protagonista
Porém, já existiam alguns artigos, em língua portuguesa, publicados em da obra e, por fim, estabelece conexões entre a morte, o mapa e a fotografia.
revistas acadêmicas e anais de congressos sobre o tema Literatura e Fotografia. Em “Sobre fotografia e condensação: a coleção ‘lo mínimo’”, Fernando Cury de
Nos últimos anos, verificou-se um crescente interesse pelo tema, o qual pode ser Tacca discute a coleção de fotolivros “lo mínimo” e desenvolve questões relativas
constatado na produção de dissertações e teses nos Programas de Pós-Graduação à relação entre o texto e a imagem em formatos pequenos. O trabalho de Tacca
em Letras no Brasil e no exterior. A revista Aletria, da Universidade Federal de visa à compreensão da importância dessa coleção e a insere como parte da
Minas Gerais (UFMG), organizou um dossiê precursor sobre o assunto no ano de história do fotolivro. O ensaio “Entre documento e ficção: fotorrelatos na Espanha
2014 (v. 24, n. 2), o qual foi coordenado pelos pesquisadores Elisa Maria Amorim, da década de 1960”, de autoria de Elisa Maria Amorim Vieira, traz uma reflexão
Gonzalo Leiva e Márcia Arbex. Os dois primeiros estão presentes neste dossiê. sobre o ressurgimento do gênero costumbrista. O corpus utilizado no estudo é
O conjunto de textos aqui selecionados reúne tanto pesquisadores com composto pelo fotolivro Nuevas escenas matritenses e textos de Camilo José Cela.
trajetória de investigação e publicação na área de Literatura e Fotografia, como Lúcio Flávio Gondim da Silva, em “A imagem da palavra e a palavra da
jovens pesquisadores que se debruçaram sobre o tema para produzir seus artigos, imagem: o conto fotoliterário de Tércia Montenegro”, analisa o posicionamento
dissertações e teses. O que é um indício não só do crescente interesse sobre o da autora ao se debruçar sobre o caráter visual da literatura, dando ênfase
diálogo entre o texto e a imagem, mas também o sinal de um reconhecimento especial à relação que as personagens possuem com a fotografia. Consoante
acadêmico e, quiçá, de uma institucionalização de uma área de pesquisa específica Silva, é possível verificar que, na produção de Montenegro, ocorre uma espécie
no contexto das linhas de pesquisa de Literatura Comparada no Brasil. de escrita fotográfica, na qual corpos em seus desejos são apresentados de
Procurou-se, aqui, alinhar o material reunido no dossiê em quatro eixos modo pictórico, mas sem apresentar um caráter naturalista ou mesmo a
principais, com a finalidade de facilitar a consulta e a compreensão da perda do seu potencial lírico. Em “Poéticas interartísticas: nos limiares da
abordagem utilizada pelos autores dos trabalhos. São eles: Narrativas Hibridas criação literária”, de Fernanda Borges, o leitor é convidado a examinar obras
– diálogos entre o texto e a imagem; Poesia e Fotografia; Ficção, Imagem compostas por artigos de jornal, desenhos, fotografias e mapas que ultrapassam
e Testemunho: o eu e o outro; e, por último, Literatura Expandida. a concepção tradicional do que se entende como romance. Borges discorre
Na seção Narrativas Hibridas – diálogos entre texto e imagem, os artigos sobre as chamadas narrativas híbridas e interartísticas, com o intuito de
analisam obras que dão ênfase ao caráter visual da literatura, com destaque refletir acerca de um movimento plural e heterogêneo.
para as relações das personagens e da trama “com” e “a partir” da fotografia. Caroline Aparecida dos Santos Fernandes, por seu turno, direciona o seu
Esse eixo agrega obras cuja autoria ultrapassa a elaboração e a organização olhar à obra Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente (2011),
somente do texto escrito, bem como o plano tradicionalmente literário e de Lourenço Mutarelli. Com base na narrativa em questão, Fernandes busca

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verificar como se dá a construção da imagem paterna no desenvolvimento da fotográficos da escritora estadunidense e a poesia mista de prosa, diário e
obra, assim como analisar como essa personagem evoca o processo essencial da correspondência íntima da artista brasileira. O foco de Izumino centra-se
temporalidade da imagem. Já no ensaio de Luiz Carlos Girão, a problematização nos procedimentos de construção do sujeito ficcional trabalhados dentro dos
acerca da escolha da fotografia como elemento constitutivo e potencial da gêneros autobiográficos e autorrepresentativos.
narrativa pictórica Alice in Wonderland, de Suzy Lee, é o que rege o seu estudo. Ao analisar quatro poemas de Carlos Drummond de Andrade em “Retratos
Ao longo do texto “A fotografia como imagem-ficção em Alice in Wonderland, profanos: uma análise sobre morte e fotografia na poesia de Carlos Drummond de
de Suzy Lee”, Girão sublinha o processo de ficcionalização imagético, bem Andrade”, Mariane Pereira Rocha e Aulus Mandagará Martins objetivam identificar
como o reposicionamento sensível do olhar proposto por Lee em sua obra. as funções que a fotografia desempenha na relação que o eu-lírico drummondiano
Juliana Estanislau de Ataíde Mantonavi, em “Ilustração e complementariedade estabelece com a morte nos poemas selecionados para a análise, sendo eles:
fotoliterária: o caso de Nadja, de André Breton”, envereda pelo estudo da descrição “Os mortos”, “Os mortos de sobrecasaca”, “Os rostos imóveis” e “Necrológico dos
e da análise das relações fotoliterárias presentes na referida obra, bem como desiludidos do amor”. Refere-se também à poesia o estudo seguinte de autoria
os efeitos dos sentidos gerados no todo do livro. Além disso, Mantonavi visa a de Patrícia Dauhali Clemente Guimarães, “Poesia e fotografia: um caminho para o
refletir sobre o potencial conotativo da fotografia e a compreender as interações letramento literário”. A autora focaliza as potencialidades poéticas da fotografia e
e as interferências estabelecidas entre o texto e a imagem. Já em “Rememoração da escrita na educação, mais precisamente nas práticas pedagógicas na disciplina
da ditadura por meio da fotografia: possíveis representações e leituras de de Língua Portuguesa com estudantes do Ensino Fundamental.
P14311”, Airton Pott adentra o passado obscuro da ditadura militar brasileira Os textos que compõem o eixo Ficção, Imagem e Testemunho: o eu e o
apresentada no livro de Diego Di Niglio. O autor analisa criticamente algumas outro, abordam obras que buscam, no diálogo imagem e texto, especialmente
fotografias da obra e discorre sobre a importância dessas imagens na narrativa. na fotografia, enfrentar os limites da narrativa para elaborar a memória
Daniel Moutinho Souza, em “Uso da fotografia em Nove Noites, de Bernardo e testemunhar o trauma da experiência social e individual de catástrofes
Carvalho, e Vou lá visitar pastores, de Ruy Duarte de Carvalho”, fecha esse como a Shoa, as ditaduras militares latino-americanas e a submissão dos
bloco de artigos. O autor apresenta uma leitura sobre as formulações teóricas povos originários da América. No limiar entre “ser e não ser, entre sensível e
clássicas relacionadas à fotografia. Em seguida, estuda comparativamente o inteligível, entre palavra e coisa, não é o abismo incolor do nada, mas a espiral
uso das fotos nas duas obras luminosa do possível” (AGAMBEN, 2015, p. 32).
Passando, agora, para a seção Poesia e Fotografia, foram inseridos artigos em O ensaio de autoria de Jaime Edgardo Flores Chável e Daniel Carter abre
que a fotografia encarna, como afirma Adolfo Montejo Navas (2017), as vicissitudes essa terceira parte do dossiê. Em “La South American Misionary Magazin,
do modernismo, mas também a sua crise de valores na pós-modernidade (aura, 1893-1903. El discurso escrito y fotográfico anglicano em la construción de los
autoria, autonomia), em diálogo com a poesia que, desde o início do século XX, indígenas de la Araucanía”, os autores exploram o diálogo que se reverbera
tem depurado seu campo de ação, buscando assim outra lateralidade do sentido: entre o texto e a fotografia na divulgação da ação missioneira anglicana na
alteridade, diferença, outro porvir, outro “entre” na relação linguagem-mundo. América do Sul na Revista South America Misionery Magazin. Já Hurí Elisabeth
“Retrato de família em preto e branco” é o título do estudo em que Ana Tornay desenvolve um estudo acerca do período da ditadura militar em solo
Claudia Costa dos Santos relata o processo de elaboração de um poema de sua argentino. Em “Agencias que importan. Um conjunto fotográfico (im)pertinente”,
autoria. Santos discute as relações do seu trabalho literário com a passagem do Tornay apresenta um conjunto de fotografias publicadas por dois jornais, bem
tempo, a epifania e a fotografia. Em “Escrever-se, fotografar-se: convergências como entrevistas com alguns dos fotógrafos e jornalistas que enfrentaram as
entre Vivian Maier e Ana Cristina Cesar”, Julia Pasinato Izumino lança uma variadas opressões durante o período ditatorial argentino.
luz sobre as convergências e divergências mapeáveis entre os autorretratos

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Os horrores praticados durante a II Guerra Mundial são elementos centrais Assim configurado, a presente edição da revista Letrônica, a qual é o resultado do
do estudo de Lóren Cristine Ferreira Cuadros. No ensaio “Fotografia e arte trabalho intelectual de professores pesquisadores e de estudantes de pós-graduação
abstrata: cruzamentos entre registro, ficção e testemunho em Gerhard Richter”, de variadas instituições de ensino, visa a atingir o máximo de interessados, dada
a autora possui o objetivo de defender que, embora não correspondam ao a crescente importância e a presença de diferentes análises no meio acadêmico
testemunho em primeira mão dos registros fotográficos, as telas pintadas abordando as relações entre a Literatura e a Fotografia. Agradecemos a participação
por Richter podem causar igual inquietação no seu espectador. dos nossos colaboradores e esperamos que o dossiê seja uma fonte de investigação
No quarto e último eixo temático do dossiê, Literatura Expandida, os e estímulo para o desenvolvimento de novas pesquisas.
artigos apresentam narrativas que incorporam outras manifestações artísticas, Desejamos a todos uma leitura proveitosa.
permitindo, assim, que elas sejam denominadas como narrativas híbridas e
interartísticas. Tais textos exprimem preocupações para além das concepções
modernistas da especificidade das linguagens artísticas, exprimindo-se em
Referências
fotolivros e em outros meios de difícil definição.
David William Foster, em “Unhiding hidden urban madness: the asylum
photographs of Claudio Edinger”, procura analisar as estratégias utilizadas pelo AGAMBEN, Giorgio. Bartleby, ou da contingência. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
fotógrafo brasileiro Claudio Edinger ao fotografar os pacientes de um manicômio ARMSTRONG, Nancy. Fiction in the age of photography: the legacy of British realism. Cambridge:
localizado no estado de São Paulo, Brasil. “Poemas fotográficos de Magela Ferrero: Massachusetts, 1999.
resistencias de la imagen y la escritura en Personas que tienen hambre (2011)”,
de autoria de María Fernanda Piderit, aborda a obra da artista uruguaia Magela BARTHES, Roland. A câmera clara. 2. ed. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro:
Ferreiro a partir de um ponto de vista originário da Literatura. André Magri Ribeiro Nova Fronteira, 2015.
de Melo fundamenta-se no diálogo entre diferentes artes para o desenvolvimento BELLATIN, Mario. Shiki Nagaoka: una nariz de ficción. Buenos Aires: Sudamericana, 2001.
do seu estudo. Em “Imagens de quem escreve: entrenotas sobre o lugar do
escritor”, Melo discute alguns aspectos da relação entre a imagem e a palavra na BRIZUELA, Natalia. Depois da fotografia: uma literatura fora de si. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
obra fotobiográfica O lugar do escritor, do fotógrafo Eder Chiodetto. Seu estudo BRUNET, François. Photography and literature. London: Reaktion Books, 2009.
realça a impureza e a efemeridade como aspectos basilares da obra em questão.
O texto “Didi-Huberman e a escrita: ensaiar o ver entre a imagem e o CUNNINGHAM, David; FISHER, Andrew; MAYS, Sas (ed.). Photography and literature in the
twentieth century. Cambridge: Cambridge Scholars Publishing, 2008.
conceito”, de Tatiane França Rangel, propõe uma leitura crítica de dois livros do
filósofo e historiador francês, procurando mostrar como o estudioso elabora e EDWARDS, Paul. Soleil noir: photographie & littérature des origines au surréalisme. Rennes:
defende o seu conceito de imagem enquanto potência dialética e força histórica. Preesses Universitaires de Rennes, 2008.
Dagmar Jana Bachraty fecha esse bloco de ensaios com o trabalho intitulado
LAMBRECHTS, Erich; SALU, Luc (ed.). Photography and literature: an international bibliography
“La experiencia estética de la mirada: el ver y oír em la conformación de la of monographs. London: Mansell, 1992.
palavra tejida em la obra Quipu Mapocho de Cecilia Vicuña”. A autora busca
discutir a existência de uma linguagem visual como uma forma de recuperação LOUVEL, Liliane (dir.). Texte/image: images à lire, textes à voir. Rennes: PUR, 2002. https://
e de uma comunicação ancestral no mundo da arte. Quipo Mapocho, obra da doi.org/10.4000/books.pur.40820
artista chilena Cecilia Vicuña, é o seu objeto de estudo. LOUVEL, Liliane (dir.). Texte/image: nouveaux problèmes. Rennes: Presses Universitaires de
Rennes, 2005.

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MONTEJO NAVAS, Adolfo. Fotografia & poesia (afinidades eletivas). São Paulo: Ubu, 2017.

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de Rennes, 2008.

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photographie. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2008. p. 7-14.

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invisible. Paris: Chambon, 2002.

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