Ser Professor - Reflexão Crítica
Ser Professor - Reflexão Crítica
Ser Professor - Reflexão Crítica
ATUAIS?
RESUMO
Diante das dificuldades na prática docente e dada a conjuntura vigente, ser professor tem se tornado
uma tarefa cada vez mais e de enorme responsabilidade o que pode levar a uma inquietação dos
licenciandos em relação à profissão escolhida. Nesse contexto, o trabalho objetiva analisar o que
estudantes da Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal do Ceará pensam sobre o
que é ser professor nos dias atuais e com isso, apresentar uma contribuição para a reflexão sobre a
prática docente e sobre a construção da identidade profissional na conjuntura atual. Para tanto, a
pesquisa foi realizada com estudantes de uma das disciplinas da Prática como Componente Curricular
do 3º semestre da Licenciatura, por meio da obtenção de respostas à pergunta “O que é ser professor
nos dias atuais?” e posterior análise textual discursiva. A ruptura do tradicionalismo, o
conservadorismo, o uso de tecnologias e dificuldade de se reconhecer como professor são desafios
presentes e citados pelos licenciandos e que necessitam ser mais debatidos nos cursos. Desse modo,
ser professor nos dias de hoje requer muita prática para saber lidar com as mais diferentes
problemáticas encontradas no ambiente escolar. A profissão exige também uma boa formação para se
ter o aporte necessário diante às dificuldades. Portanto, por mais conflituosa que essa discussão seja,
faz-se essencial na construção do ser professor e em sua formação.
INTRODUÇÃO
1
Graduanda do Curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Ceará - UFC,
letferreira001@gmail.com;
2
Graduanda no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Ceará- UFC, leticia-
castrov@hotmail.com;
3
Doutora em Bioquímica e professora do Curso de Ciências Biológicas do Departamento de Biologia da UFC,
erika.mota@ufc.br;
4
Professor orientador: Doutora em Bioquímica e professora do Curso de Ciências Biológicas do Departamento
de Biologia da UFC, erika.mota@ufc.br.
aristocracia que detém a propriedade privada da terra, e do outro lado os escravos,
ocasionando não só a divisão em classes, mas na educação também.
Dessa divisão, inicia-se uma distinção que acompanhará a educação até os dias atuais,
em que as classes privilegiadas tinham acesso ao ensino de maior qualidade, enquanto os
demais obtinham a educação por meio do trabalho e não em uma escola (GOES, 2014). Logo,
para haver essa transmissão de conhecimento, existiam, inicialmente, indivíduos que se
ocupavam do ato de ensinar e que o faziam por vocação ou sacerdócio. Já com o
desenvolvimento da sociedade, o magistério passou a configurar-se como um ofício em busca
da profissionalização (OLIVEIRA, 2010).
Essa confusão com as atribuições desempenhadas pode estar relacionada aos saberes
docentes, uma vez que esses perpassam na interface do social e individual, não sendo
completamente cognitivos. Logo, trata-se de um trabalho multidimensional, no sentido que
abrange elementos relativos à identidade profissional e pessoal do professor (TARDIF, 2012).
Diante desses desafios, há uma preocupação por parte dos alunos de licenciatura em
saber o que é ser professor nos dias atuais, para contribuir na formação desses discentes, as
disciplinas pedagógicas se fazem necessárias, sendo de extrema importância estarem
presentes não só na estrutura curricular, mas na formação pessoal do aluno.
Nesse contexto, o trabalho objetiva analisar o que os licenciandos pensam sobre o que
é ser professor na contemporaneidade e com isso, apresentar uma contribuição para a reflexão
sobre a prática docente e sobre a construção da identidade profissional na conjuntura atual.
METODOLOGIA
Foram distribuídos pequenos retângulos de papéis para que cada aluno respondesse à
indagação “O que é ser professor nos dias atuais?”. A pós um período de no máximo 15
minutos para escreverem, os estudantes foram convidados a falar o que foi escrito para que
pudessem compartilhar com os outros e assim, gerar um momento de reflexão e discussão.
Posteriormente, os papéis foram recolhidos e foi realizada essa metodologia por três
semestres, obtendo um retorno de 52 discentes.
Após a leitura das 52 respostas, foram escolhidas nove respostas para a análise textual
discursiva (MORAES, 2003) por contemplarem a maioria dos assuntos que foram abordados
pelos outros discentes.
DESENVOLVIMENTO
Segundo Saviani (2009), a temática sobre preparo de professores, no Brasil, surge
mais claramente após a independência, quando se cogita da organização da instrução popular.
Para isso foram criadas as Escolas Normais em que se manifestava uma formação específica,
com o intuito de preparar professores para as escolas primárias. Contudo, o pressuposto era
que os professores deveriam ter o domínio dos conteúdos que lhes caberia transmitir às
crianças, desconsiderando-se o preparo didático-pedagógico.
Somente a partir de 1939, foi criado algo voltado à formação de professores que se deu
por meio da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, onde foi a base em
que se organizaram os cursos de formação de professores para as escolas secundárias, sendo
esses cursos preparatórios difundidos para todo o país. Admitindo-se dois aspectos a serem
articulados, os conteúdos de conhecimento e os procedimentos didático-pedagógicos
(SAVIANI, 2009).
A escola tradicional surge a partir do advento dos sistemas nacionais de ensino, que
datam do século XIX, mas que atingiram maior força e abrangência no século XX. As teorias
da educação que nortearam a escola tradicional confundem-se com as próprias raízes da
escola tal como a concebemos como instituição de ensino. O paradigma de ensino tradicional
atuou como influenciador da prática educacional formal, servindo de referência para os
modelos sucessivos. A questão é que é possível perceber que a escola tradicional continua em
evidência até hoje (LEÃO, 1999).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nos últimos anos, muitas transformações decorreram no cenário educacional brasileiro
e no exercício da profissão docente. Dessa forma, novos desafios foram surgindo, mas os
antigos continuaram influenciando no ofício, como a tradicional concepção da vocação do
professor, sendo seu trabalho comparado a uma missão. Pensamento esse que ainda hoje está
presente no meio estudantil da licenciatura, como pode ser observado na resposta do aluno 1
que expressa seus sentimentos em relação aos seus professores e ao mesmo tempo revela suas
aspirações.
Aluno 1: “Ser professor é ser aquele que guia para a vida, não apenas para passar
conteúdos, mas para a vida. Professor ultimamente tem agido como pais ou familiares. Os
meus professores para mim foram heróis. Ser professor é saber a de ser rígido e de ser leve, é
saber compreender que alunos também são pessoas e saber olhar para o passado e lembrar
que todos já foram alunos. É saber identificar dificuldades e ultrapassá-las, é criar
pensamento crítico, é mostrar o mundo.” [sic]
Assim, ser professor é visto como uma árdua tarefa, à medida que exige deste
profissional ser um modelo de virtudes, capaz de mudar os comportamentos e atitudes. Além
de estar inserido numa realidade complexa, a docência requer do professor ações e
conhecimento polivalente (PRADO et al., 2016). O aluno número 2 destaca que é preciso o
docente estar ciente de sua importância e responsabilidade com os estudantes.
Esse seria o receio mais básico entre os novos professores, entretanto o saber lidar
com as novas tecnologias, mostrou-se mais recorrente, podendo ser observado nas respostas
transcritas abaixo.
As preocupações sobre saber os assuntos foram observadas não só nas respostas dos
alunos 3 e 4, mas também em vários dos 52 respondentes. Essa é uma preocupação comum
para os professores iniciantes, evidentemente que dominar o conteúdo é fundamental,
entretanto, não é o suficiente quando existem diversas fontes de saber. Procurar mesclar
prática educativa e teorias educacionais torna-se importante para a vida docente e
principalmente nessa fase inicial, assim, é preciso conhecer o mais cedo possível, as situações
em que vão trabalhar e dessa forma, conseguir unir os dois conhecimentos (LOPES, 2010).
Além disso, o docente deve olhar para as tecnologias não como algo ruim, mas como
sendo um recurso que possa complementar suas aulas e possa ajudar na aprendizagem de seus
alunos, evidentemente que com certa administração para que não funcione como uma
distração.
Aluno 5: “Ser professor hoje é lutar pelas futuras gerações contra uma crescente
onda de conservadorismo e obscurantismo. É trabalhar o melhor possível com poucos
recursos ou auxílios para tentar garantir uma aula de qualidade para seus alunos. Ser
professor hoje, não é apenas sobre repassar um conhecimento para a sala de aula.” [sic]
Aluno 6: “É ser luta pela democracia, pelo direito de ensinar e por uma escola sem
mordaça”. [sic]
Aluno 7: “Ser professor nos dias de hoje é um desafio, pois na educação envolve
transformações no contexto escolar que é um reflexo da sociedade. O ensino é inédito e
imprevisível, porque o professor convivem com alunos diferentes em sala de aula.” [sic]
Observa-se que o legado do regime autoritário se faz presente até os dias atuais,
impactando pesquisadores na luta pela democratização institucional e pela realização de
direitos da cidadania (SANTOS, 2001). Vinculado a isso está a discussão sobre violência
escolar que tem relação direta com a democracia, em que é necessária a busca por modelos
mais democráticos para que se possa incluir alunos e pais nas tomadas de decisões
(GONÇALVES; SPOSITO, 2002).
Além de haver essa dominação no âmbito político, a educação vem sendo tratada
como uma mercadoria, por meio de uma crescente política de privatização da educação, em
que os processos institucionais e pedagógicos são submetidos cada vez mais aos processos
empresariais (DA SILVA, 2011). Fenômeno esse observado nos grandes colégios em que a
capacitação para exames se sobrepõe ao ensino crítico e ressaltado pela resposta do aluno 8.
Aluno 8: “Um professor que só passa apenas o conteúdo e resolve exercícios sem
fazer os alunos pensarem, mas os deixa no automático para o vestibular.” [sic]
Correlacionado aos temas debatidos, há também o item da fuga ao tradicionalismo que
ultimamente é tratado nos cursos de licenciatura, onde há um certo modismo em desenvolver
aulas até mirabolantes para não se enquadrar como uma aula tradicional.
Segundo Cardoso et al (2012), em uma análise sobre Tardif, esses autores reiteram que
existem os saberes da formação profissional, os saberes disciplinares, os saberes curriculares e
os saberes experienciais. Reconhecem ainda que existe um saber específico que é o resultado
da junção de todos esses outros e que se fundamenta e se legitima no fazer cotidiano da
profissão. Portanto, quando se entende o exercer do professor e os saberes afundo, consegue-
se fugir de uma aula automática e irreflexiva. Prática essa destacada pelo aluno 9.
Aluno 9: “É ter que se destacar e mostrar que o tradicional não precisa ser chato. É
desafiador tanto para nós professores como para os alunos. É quebrar as barreiras do
digital, mas sem tratá-lo como obstáculo.” [sic]
A partir da análise textual discursiva observou-se que enquanto uma parcela dos
estudantes apresenta uma aflição com o uso de tecnologias, uma outra acredita que elas
possam ser um dos meios para desconstruir a distância entre aluno-professor, mudando o
modo de dar aula e assim, conseguindo atuar de forma menos expositiva, mas mais dinâmica
e integrativa.
A pesquisa com base na análise das visões dos estudantes cumpriu com seu papel de
contribuir na reflexão sobre a prática docente e sobre a construção da identidade profissional,
por meio da reflexão e a própria inquietação dos alunos sobre os mais diversos desafios
enfrentados pelos educadores.
Desse modo, ser professor nos dias de hoje requer muita prática para saber lidar com
as mais diferentes problemáticas encontradas no ambiente escolar. A profissão exige também
uma boa formação para se ter o aporte necessário diante às dificuldades e levando-se em
consideração que os saberes docentes são temporais, heterogêneos, plurais e pessoais.
Portanto, por mais conflituosa que essa discussão seja, faz-se essencial na construção do ser
professor.
REFERÊNCIAS