História Do Serviço Social No Brasil
História Do Serviço Social No Brasil
História Do Serviço Social No Brasil
PROPÓSITO
Apresentar a história do Serviço Social no Brasil e as bases para sua implantação no país, que
marcam a profissão até a atualidade.
OBJETIVOS
MÓDULO 1
Reconhecer as bases históricas do Serviço Social no território nacional
MÓDULO 2
MÓDULO 3
INTRODUÇÃO
O Serviço Social é uma profissão com aproximadamente 80 anos, o que confere um caráter
histórico relativamente recente. Conhecer a história do Serviço Social no Brasil, desde as
bases para sua implantação nas décadas de 1920 e 1930, é tarefa muito importante.
Por meio da análise desses fatos históricos, é possível assimilar uma série de desdobramentos
que se espelham na profissão, nos profissionais e nas expressões da questão social brasileira
ainda hoje.
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A questão social é o centro das contradições que atravessam a sociedade nesse período
histórico, no qual surge diretamente relacionada à generalização do trabalho livre, em uma
sociedade em que a escravidão marcou profundamente seu passado recente.
ABOLIÇÃO
O operário tem diante de si não mais um senhor como proprietário dos meios de produção,
mas, sim, uma classe de capitalistas, para os quais se torna livre para vender sua força de
trabalho, inicialmente com quase nenhuma garantia ou proteção relativa ao trabalho.
Como vendedor livre de sua força de trabalho, a certa altura do desenvolvimento capitalista no
Brasil, esse trabalhador é profundamente afetado pela exploração desmedida do capital, no
sentido da acumulação e geração de lucro sobre a mão de obra.
Diante desse cenário, impõe-se ao empresariado a necessidade de controle social sobre a
exploração da força de trabalho, por meio de uma regulamentação jurídica estatal. Entretanto,
essa regulação ocorreu fortemente marcada pelos valores e princípios que regiam a sociedade
burguesa, de modo a conformar o operariado às suas necessidades e expectativas de
exploração, cada vez mais intensas.
Assim, percebe-se o deslocamento da regulação dos trabalhadores da esfera apenas mercantil
para a esfera legal e estatal. Nesse contexto, as leis sociais figuram como parte mais
importante dessa regulação. As condições sociais muito precárias do operariado
desencadearam movimentos sociais e pressões para a conquista de uma cidadania social.
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Justamente no decurso desse processo histórico, o Serviço Social surge como profissão, em
seus primeiros contornos.
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VERIFICAR
A situação do proletariado urbano nesse período configurava condições precárias acerca de
moradia, água, esgoto e luz. Nos espaços de trabalho, também era significativa a falta de
condições minimamente adequadas a respeito de higiene, segurança no trabalho e renda
obtida do trabalho, sem contar com jornadas e horários desumanos, sem respeito sequer à
questão do trabalho infantil (permitido, sem regulação e com registros até de castigos físicos
aplicados aos aprendizes) e feminino (sem o mínimo amparo à condição da mulher,
maternidade e aleitamento, por exemplo).
Tal situação contribuiu para diminuir o preço da força de trabalho e aumentar o exército
industrial de reserva, regulando por baixo não só as remunerações, mas também postos de
trabalho e condições objetivas de seu desenvolvimento.
Essa forma de organização é a única via possível de participação ativa na sociedade e muda
de acordo com os diferentes estágios do desenvolvimento do modo de produção capitalista.
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Regulação do Estado em parte das relações de trabalho pela via da Primeira Emenda
Constitucional.
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Regulação de férias.
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Seguro-doença.
Somente alguns setores e parte dos centros urbanos tinham cobertura limitada de tais
preceitos legais (em especial setores não industriais ligados à agroexportação, como
ferroviários, marítimos e portuários). De modo geral, o Estado segue negando o
reconhecimento da existência da “questão social”.
Para desenvolvimento dos estágios seguintes do modo de produção capitalista, era necessária
à dominação burguesa a organização de alguma maneira do proletariado, impedindo a sua
própria organização como classe. Para atingir esse objetivo, a hegemonia burguesa não
poderia usar como recurso somente a coerção, mas, sim, buscar gerir mecanismos de controle
e integração (consenso).
Nessa relação, pode-se observar a interação entre Estado, Burguesia e Igreja, bem como os
reflexos que o Serviço Social sofre e sua constituição inicial. Para o pleno desenvolvimento
daquele estágio do capitalismo, era fundamental a integração entre o Estado e a Igreja, que
aconteceu especialmente em virtude de dois aspectos:
Relações capitalistas com aparência “mais social” e mais propensas às obras assistenciais,
diferentes dos modelos mais simplistas e brutais da “luta pela vida” – preocupação em criar,
junto às classes oprimidas, um sistema de adesão.
Nesse contexto, vale destacar que o viés sociológico sempre apresenta o “cuidado com o mais
carente”, por meio da prática da caridade (conceito tipicamente cristão) como forma de
dominação.
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Após o fim da Primeira Guerra Mundial, surgem diversas obras e instituições assistenciais, fato
que está correlacionado às protoformas do Serviço Social no Brasil.
LAICATO SOCIAL
O termo laicato social refere-se àqueles que não possuem função religiosa, chamados
leigos, embora façam parte daquela religião (no caso, cristianismo/Igreja Católica). São
laicato social porque pouco a pouco assumem uma posição de atuação no âmbito social,
seguindo as orientações da Igreja, mas também extrapolando a ela.
O surgimento do Serviço Social quanto ao aspecto do seu elemento humano e sua base
organizacional são constituídos a partir da mescla de diferentes tendências, conforme elucidam
Iamamoto e Carvalho:
CONFEDERAÇÃO CATÓLICA
A gênese do Serviço Social no Brasil está intimamente ligada a esse movimento, bem
como às instituições e obras sociais, especialmente quanto ao conteúdo assistencial
paternalista daquele momento histórico, que cria as bases materiais, organizacionais e
humanas para expansão da Ação Social e consequente surgimento das primeiras escolas
de Serviço Social no país.
O marco inicial do CEAS foi o Curso Intensivo de Formação Social para Moças, promovido
pelas Cônegas de Santo Agostinho. As participantes do curso, jovens oriundas das famílias
que compõem as classes dominantes e setores abastados da sociedade, tinham como
expectativa se esclarecer e estabelecer um julgamento acertado sobre os problemas sociais
daquela época.
(YAZBEK, 2009, p. 7)
A nova ação social empreendida por esses grupos visava intervir diretamente junto ao
proletariado, afastando-o de influências subversivas, e os centros ofereceriam vantagens para
um desenvolvimento mais amplo de intervenções:
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Estabeleciam núcleos de formação de elites que agiriam depois na massa operária, a partir de
seus próprios princípios e valores (cristãos e capitalistas, reforçando a preservação da ordem
moral e social, sobretudo do “papel da mulher”).
Nesse caldo cultural, político e econômico, com as atividades do CEAS orientadas para a
formação técnica especializada, à luz da ação social e da doutrina social da Igreja, é fundada,
em 1936, a Escola de Serviço Social de São Paulo, a primeira desse gênero a existir no
Brasil. Apesar da grande influência da Igreja Católica e do laicato, o Estado também é uma
força significativa na primeira escola de Serviço Social; uma vez que já existe presente uma
demanda de atuação, a partir do Estado, assimilará a formação doutrinária própria do
apostolado social. Tanto assim que os principais patrocinadores de bolsas de estudo da escola
em questão são as prefeituras municipais, os órgãos públicos, o Sesi e o Senai, diversos
institutos e caixas de pensão, a LBA e a Previdência Social da época.
É certo que as pioneiras do Serviço Social, constituídas pelos primeiros quadros profissionais
formados e especializados, têm uma grande importância na história da profissão, visto que
foram responsáveis pela divulgação e institucionalização da profissão, incentivando e
concretizando a demanda por seus serviços.
1936
Em 1936, é registrado um importante marco, a Primeira Semana de Ação Social do Rio de
Janeiro, formada por iniciativa da hierarquia e cúpula do movimento laico, do Grupo de Ação
Social (GAS), e que teve por objetivo fazer um balanço da ação social desenvolvida até aquele
momento, com foco no problema da formação e recrutamento de quadros de atuação
profissional e nos problemas de habitação popular e legislação social.
Fica clara a tutela estatal recomendada pela Igreja em relação à classe operária, ao mesmo
tempo em que reclama liberdade de ação para o desenvolvimento das ações sociais,
eventualmente subsidiadas pelo Estado.
Ainda em 1936, é realizado no Rio de Janeiro o primeiro curso intensivo de Serviço Social, com
duração de três meses, formado por palestras sobre temas sociais, legais, educacionais e
médicos, focado na questão da infância abandonada. Em caráter complementar, foi realizado
um curso prático de Serviço Social, ministrado por duas assistentes sociais recém-formadas na
Bélgica.
1944
Finalmente, em 1944, é instituída a Escola de Serviço Social do Rio de Janeiro.
1947
Em 1947, quando acontece o I Congresso Brasileiro de Serviço Social, 14 escolas enviam
representações: fica claro que a maioria das profissionais se formará sob influência da origem
católica e contando com bolsas de estudo. Nas escolas instituídas nas demais regiões do país,
após as de São Paulo e Rio de Janeiro, observa-se que passam a ter subsídio da Legião
Brasileira de Assistência (LBA).
Vamos entender agora a importância do surgimento das Escolas de Serviço Social.
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A formação das pioneiras do Serviço Social no Brasil tem sua origem no bloco católico e na
ação caridosa de mulheres da sociedade, mas também na interrelação entre teoria e
metodologia do Serviço Social com a doutrina social da Igreja e com o apostolado social; esses
fatos marcaram a percepção profissional e suas formas de comportamento e de desempenho.
A assistente social tinha como perfil ser uma pessoa da mais integral formação moral, com
sólido preparo técnico, capacidade de devotamento e amor ao próximo.
Inteligência
Senso prático
Desprendimento
Modéstia
Simpatia
Bom humor
Calma
O controle de quase todas as escolas de Serviço Social pela Igreja e a convivência no interior
do bloco católico facilitam a atração e cooptação de vocações. Cria-se assim uma mística em
torno da profissão, relacionada à formação de novos agentes da justiça social e da caridade.
Essa caraterização contribui para obscurecer e dar aparência de qualidades profissionais ao
que diz respeito a um projeto de classe.
A adesão dos agentes profissionais a esse projeto e à visão de mundo da classe dominante é
naturalizada como vocação e ação desinteressada, como se fosse um ato humanístico,
despido de cidadania histórica e social, que serve para tutelar a relação com a população
cliente e acaba por se encarregar de orientar o fazer profissional no sentido dos interesses da
burguesia.
Tanto na formação profissional quanto no discurso das pioneiras, é possível perceber que o
Serviço Social surge em um momento em que o modo de produção capitalista determina a
sociedade em que a Igreja está inserida, e, por conseguinte, a ideologia dominante não mais
pertence à Igreja. A ideologia dominante é, agora, criada e difundida por grupos e classes
sociais que detêm o monopólio dos meios de produção. Tanto assim que o tom dos discursos
das encíclicas papais (Rerum Novarum e Quadragesimo Anno), que orientam a ação do
apostolado laico, mostra-se pró-capitalista, na medida em que se opõe veementemente ao
socialismo e suaviza a crítica ao capitalismo, limitando-a à questão dos excessos e abusos,
vistos não como um efeito do modo de produção predatório, mas, sim, como problemas dos
homens (e originados por eles), portanto passíveis de correção.
SOCIALISMO
“Os Socialistas, para curar este mal [exploração dos trabalhadores], instigam nos pobres
o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens
particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem ser comuns
a todos [...]. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito,
prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta,
por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para
a subversão completa do edifício social” (LEÃO XIII, 1891: 3).
“É coisa manifesta, como nos nossos tempos não só se amontoam riquezas, mas
acumula-se um poder imenso e um verdadeiro despotismo econômico nas mãos de
poucos. Este mesmo acumular de poderio gera três espécies de luta pelo predomínio:
primeiro luta-se por alcançar o predomínio econômico; depois combate-se renhidamente
por obter predomínio no governo da nação, a fim de poder abusar do seu nome, forças e
autoridade nas lutas econômicas; enfim lutam os Estados entre si, empregando cada um
deles a força e influência política para promover as vantagens econômicas dos seus
cidadãos, ou ao contrário empregando as forças e predomínio econômico para resolver
as questões políticas, que surgem entre as nações” (PIO XI, 1931: III, 1).
VERIFICANDO O APRENDIZADO
C) O Serviço Social surge como profissão apostolar, decorrente somente da vontade de ajudar
o próximo, e daí se constitui a vinculação com a Igreja Católica.
D) No Brasil, o Serviço Social surge como profissão a partir da iniciativa particular de grupos e
segmentos sociais, representantes da classe dominante, que materializavam suas ações por
meio da Igreja Católica.
E) No Brasil, o Serviço Social surge como profissão por causa da requisição do empresariado,
movido apenas pela necessidade de repressão e controle dos trabalhadores, com influência
pouco significativa por parte da Igreja Católica.
GABARITO
Não se pode perder de vista que a relação entre Igreja Católica e a burguesia empresarial da
época era estreita e fundamentada pela adequação da classe trabalhadora em formação ao
modo de produção capitalista, fatores que até hoje influenciam a profissão.
MÓDULO 2
ERA VARGAS
A caracterização do Serviço Social como profissão se consolida numa época bastante
particular da história do país, chamada de Era Vargas, que compreende o período entre 1930 e
1945, durante o qual o presidente Getúlio Vargas governou ininterruptamente. As medidas
socioeconômicas e políticas adotadas em seu governo, aliadas às mudanças ocorridas na
sociedade brasileira, configuraram uma nova era na história do Brasil.
Vargas foi alçado ao governo federal em decorrência da Revolução de 1930, que marcou a
ruptura política com o regime anterior, denominado de República Velha. A Revolução de 1930
findou o domínio político da oligarquia cafeeira paulista, no comando federal, ocasionando o fim
da chamada política do café com leite, na alusão entre a alternância de lideranças oligárquicas
de São Paulo e Minas Gerais.
GETÚLIO VARGAS
“Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja (RS), em 1882. Bacharel pela Faculdade
de Direito de Porto Alegre (1907), elegeu-se pelo Partido Republicano Rio Grandense.
Deputado estadual, deputado federal e líder da bancada gaúcha, entre 1923 e 1926. Foi
Ministro da Fazenda de Washington Luís (1926-27) e presidente do Rio Grande do Sul
(1927-1930). Em 1929, candidatou-se à presidência da República na chapa oposicionista
da Aliança Liberal. Derrotado, chefiou o movimento revolucionário de 1930, através do
qual assumiu em novembro deste mesmo ano. [Em 24 agosto de 1954,] Vargas se viu
confrontado com a eminência da renúncia ou deposição, e suicidou-se com um tiro no
coração, deixando uma carta-testamento em que acusava os inimigos da nação como os
responsáveis por seu suicídio” (FGV, 2001).
Período no qual ocorreu a reorganização do Estado nacional e de preparação para uma nova
Constituição. Setores privilegiados de São Paulo, em especial da indústria, ressentiram-se da
demora de efetivação de uma nova Constituição e se voltaram contra o governo Vargas, fato
que desencadeou a Revolução Constitucionalista de 1932. Essa revolução contribuiu
significativamente para que uma nova Constituição fosse promulgada, em função de sua
repercussão e pressão exercida à época.
Uma das principais características da Era Vargas foi o esforço empreendido para o
enquadramento da sociedade brasileira aos moldes capitalistas, em especial quanto ao
investimento para industrialização da economia nacional.
Para que houvesse o fortalecimento do capitalismo no país, era o Estado o ente quem detinha
o potencial econômico, capaz de levar adiante tal missão, visto que a burguesia brasileira ainda
era bastante incipiente frente à carga necessária de investimentos.
Assim, o Estado seguiu seu plano de criação de condições gerais de produção para a
industrialização brasileira, abarcando representantes da burguesia em seus cargos gestores,
compondo um projeto comum de expansão das atividades produtivas, de acumulação e de
dominação.
Contudo, para o sucesso desse conjunto de estratégias de governo, era necessário atribuir
uma falsa noção de harmonia social, que foi construída com a adoção de legislações que
garantiam alguns direitos à classe trabalhadora, e, ainda, com o controle da ação sindical pelo
Estado (buscando conter a luta de classes).
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943.
Assim estava, resumidamente, configurado o que ficou conhecido como Estado Corporativista
de Vargas. Ainda na análise da estrutura montada para viabilização e fortalecimento do
governo Vargas, duas instituições assumiram destaque:
CONFIRA
Um acontecimento, por exemplo, foi a luta contra as ditaduras na Europa, durante a Segunda
Guerra Mundial. Tal fato ocasionava uma contradição interna no Brasil, que apontava como via
de resolução o fim do governo ditatorial instaurado no país. A conjuntura política e a pressão
militar fizeram com que Getúlio Vargas renunciasse ao governo em 1945, pondo fim à Era
Vargas, que durou 15 anos.
Seis anos depois, em 1951, Vargas retornou à presidência do Brasil, por meio de eleições
diretas. Sua campanha foi baseada em forte discurso nacionalista e na promessa de ampliação
do processo de industrialização, com destaque à campanha nacional O Petróleo é Nosso e à
criação da Petrobras.
Embora tenha sido exitoso em reassumir o poder, Vargas enfrentou forte oposição,
encabeçada pela União Democrática Nacional (UDN) e por Carlos Lacerda, que criaram um
ambiente de governo insustentável para Vargas, que se suicidou em agosto de 1954, deixando
uma carta na qual afirmava que saía da vida para entrar na História.
Ficou conhecido pela parte apoiadora da população como Pai dos Pobres, em função das
legislações trabalhistas, e pela parte dissidente da população como Mãe dos Ricos, pela
estrutura montada pelo Estado para expansão do projeto de exploração e dominação
capitalista.
Essas ações nada mais são que respostas à necessidade do processo de industrialização e
enquadramento da classe trabalhadora urbana às requisições impostas para consolidação e
aprofundamento do modo de produção capitalista no Brasil.
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No cenário mundial, com o fim da Segunda Guerra Mundial, avançam as medidas assistenciais
generalizadas, como o Plano Beveridge, na Inglaterra.
O PLANO BEVERIDGE DE SEGURIDADE SOCIAL
EXPOSTO NO RELATÓRIO SOBRE SEGURO SOCIAL E
SERVIÇOS AFINS (REPORT ON SOCIAL INSURANCE
AND ALLIED SERVICES), APRESENTADO AO
PARLAMENTO BRITÂNICO EM 1942, CONSTITUIU UM
DOS PILARES DO WELFARE STATE. ESSE PLANO, EM
VISTA DE SUA RELEVÂNCIA HISTÓRICA,
PRINCIPALMENTE NO QUE SE REFERE AOS ESTUDOS
SOBRE POLÍTICA SOCIAL, CONFIGURA-SE COMO UM
OBJETO QUE EXIGE ANÁLISE MINUCIOSA. ELE NÃO
FOI DESENVOLVIDO EM UM CENÁRIO QUALQUER [...],
MAS EM CONDIÇÕES HISTÓRICAS ESPECÍFICAS QUE
ENVOLVEM O CONTEXTO DO PERÍODO
ENTREGUERRAS, COM O APROFUNDAMENTO DA
QUESTÃO SOCIAL E O FORTALECIMENTO DE
DEMANDAS POR MELHORIAS NAS FORMAS DE
PROTEÇÃO SOCIAL.
Com efeito, os Círculos Operários e suas outras formas de organização são enfraquecidas e se
cria um ambiente favorável ao surgimento de instituições assistenciais até hoje representativas
no Brasil, como, por exemplo, o Serviço Social da Indústria (SESI).
ATENÇÃO
Aos poucos, como se torna uma atividade remunerada, os setores subalternos também são
absorvidos pela profissão, embora se guarde, no conteúdo de formação profissional e dos
métodos de intervenção, seu preceito ideológico de classes dominantes.
Gradativamente, o Serviço Social também deixa de ser uma forma de distribuição controlada
da pouca caridade realizada pelos setores mais abastados da sociedade. Ele assume o papel
de importante peça na estrutura de execução das políticas sociais do Estado e de corporações
empresariais, utilizando um forte componente profissional voltado para enquadramento da
população-alvo das ações ao seu discurso ainda marcado pelo aspecto moralizador das
protoformas da profissão.
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Esse discurso e a prática não se voltavam apenas para aquela parcela da população mais
pobre, que mais demandava a assistência material do Estado, mas também sob o viés da
educação, voltada aos usuários considerados de comportamento desviante, ou seja, aqueles
que, de alguma maneira, ameaçavam a ordem do sistema vigente.
Para além dessas questões do Serviço Social à época, emerge também o caráter
psicologizante das abordagens, expressos especialmente nas atividades empreendidas no
campo da pesquisa social, tendo por base uma escala teórica de desajustamentos
biopsicossociais, promovendo a classificação dos indivíduos, reiterando o viés moralizador, de
enquadramento da clientela e de visão que o problema apresentado passa longe de ser
considerado estrutural; ele ocorre por culpa ou falha do sujeito.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
B) Na verdade não há uma conexão identificada, uma vez que tanto o surgimento das
primeiras instituições sociais e assistenciais quanto a profissionalização do Serviço Social são
processos absolutamente distintos e ocorridos em épocas diferentes, portanto totalmente
independentes.
B) Manutenção do forte viés apostolar e amor ao próximo como únicas bases profissionais.
GABARITO
A incorporação do Serviço Social como profissão no âmbito das primeiras instituições sociais e
assistenciais já existentes não aconteceu imediatamente, em função da pesada burocracia e
hierarquia já constituída no interior desses organismos.
MÓDULO 3
CONTEXTUALIZANDO O
DESENVOLVIMENTISMO NO BRASIL
O desenvolvimentismo ocorre principalmente no governo de Juscelino Kubitschek (1956-
1961) a partir de um plano de metas, que basicamente visava o desenvolvimento do país a fim
de atrair indústrias estrangeiras para auxiliar na questão econômica, na geração de empregos
e no aumento da qualidade de vida, embora este último intento não tenha ocorrido como
planejado. Aliado ao discurso desenvolvimentista, havia um forte discurso nacionalista,
herdado do populismo da Era Vargas.
JUSCELINO KUBITSCHEK
A tônica embasada nas questões econômicas para todas as leituras e respostas sobre a
realidade social figura como fator preponderante para que a ideologia desenvolvimentista
tardasse a se aproximar do Serviço Social.
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Com o passar dos anos, a secularização (compreendida como passagem do domínio religioso
para o domínio leigo), e a base de recrutamento da profissão abarcando setores das camadas
subalternas, houve a ultrapassagem do bloco católico, embora a profissão siga marcada por
essa importante influência; além disso, tem a constante necessidade de reafirmar seu status
como profissão e legitimar-se perante a população usuária e perante seus empregadores. Tais
necessidades convergem para a realização de grandes encontros e seminários profissionais,
como resposta da categoria, a fim de construir suas estratégias profissionais em bloco para
aquele momento.
Assim, ocorria a atualização da profissão e do seu objeto, métodos e técnicas em relação aos
principais problemas sociais daquela conjuntura, no período entre 1941 e 1961, conforme o
quadro:
Promovido pelo CEAS. Foi o primeiro grande encontro da profissão e teve caráter preparatório
para o II Congresso Pan-americano de Serviço Social.
Diferente dos encontros nacionais, passa a ter um tema específico, no lugar de uma
multiplicidade de temas relativos às expressões das questões sociais.
Tal cenário se explica como reflexo da situação social do Brasil, considerando a expansão do
aparato assistencial desenvolvido pelo Estado Novo e pelas corporações empresariais. A
expansão em questão decorre da necessidade de absorver as pressões desencadeadas pelos
novos setores urbanos, que atingem níveis de crescimento acelerado, por causa do avanço da
industrialização e urbanização nacional.
Com esse registro de crescimento econômico, crescem também as sequelas mais severas,
decorrentes da exploração do modo de produção capitalista sobre o proletariado urbano.
É com esse arcabouço assistencial autoritário e paternalista que o Serviço Social consolida
suas experiências mais representativas, lembrando que tal herança decorre de anos de
ditadura, administrados pelo empresariado e pelo Estado.
Nos congressos seguintes, embora pouco se registrem inovações, são definidas novas
qualidades para os assistentes sociais (voltadas ao equilíbrio psíquico e afetivo), a fim de
eliminar conflitos e não os criar, fixando seu caráter de utilizador de bases científicas.
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Além disso, afirma-se o caráter fundamental do Serviço Social com relação aos casos
individuais, integridade da vida familiar e entrevista como principal instrumento de trabalho.
Registra-se também a maior solicitação para os métodos de grupo e comunidade, além da
preparação do Serviço Social para atuação no meio rural.
Tais ações eram facilitadas pela incidência do Estado sobre a profissão, já que o Estado
figurava como principal empregador dos assistentes sociais. Note que havia uma estratégia de
acumulação de forças e manutenção de posições pela Igreja Católica, uma vez que os
intelectuais e burocratas que participavam destes encontros tinham uma ligação direta com o
movimento católico ou com grupos católicos de extrema direita.
IDEOLOGIA DESENVOLVIMENTISTA E
EXPANSÃO PROFISSIONAL
A década de 1960 representa um marco importante na expansão do Serviço Social. As
transformações profissionais registradas têm como pano de fundo o desenvolvimentismo no
cenário nacional, fato que influencia diretamente os caminhos da profissão.
Essa equação começa a deixar de funcionar a partir de 1955, com a reversão dessas
tendências positivas, marcadas pela deterioração das relações de troca, pelo esgotamento das
reservas em moeda forte e aumento da dívida externa.
LEIA MAIS
Basicamente, trata-se da proposta de crescimento acelerado, continuado e autossustentado da
economia nacional, com a necessidade de superação do estágio de subdesenvolvimento e
atraso. A meta da ideologia desenvolvimentista é atingir a prosperidade, a grandeza material
da nação, a soberania nacional, mantendo a paz e a ordem social; para isso, resgatando a
riqueza nacional já existente, que se encontrava adormecida. Tal resgate ocorrerá pela
ideologia em questão, com o uso de planejamento e estratégias políticas econômicas
adequadas e com o trabalho constante.
O social aparece em diversos campos nos quais se subdivide, como variável dependente.
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O Serviço Social de Grupo, até a década de 1950, vinha sendo utilizado de forma tradicional
(recreação e educação), e, a partir de então, começa a fazer parte dos programas nacionais do
SESI, LBA, SESC, em diversos campos, como hospitais, favelas e escolas.
Todo esse conjunto de fatores e contradições sociais faz com que a categoria profissional se
ocupe, posteriormente, em aprofundar o questionamento da prática profissional, espaço que
será permeado por vertentes mais tradicionalistas, outras modernizadoras e reformistas e
outras mais críticas, questionadoras, apontando no sentido futuro do Movimento de
Reconceituação Profissional.
Nesse sentido, podemos falar (NETTO, 1996) em uma erosão do Serviço Social “tradicional” no
Brasil, que ajuda a entender as etapas seguintes do desenvolvimento da profissão no país.
Portanto, destacam-se cinco fatores relacionados entre si que contribuíram significativamente
para o processo de erosão das formas tradicionais da profissão:
FATOR 1
FATOR 2
FATOR 3
FATOR 4
FATOR 5
FATOR 1
O amadurecimento dos setores do Serviço Social, ocorrido na troca com outros agentes, como
equipes multiprofissionais, usuários, movimentos e grupos sociais organizados e agentes do
aparelho estatal.
FATOR 2
FATOR 3
FATOR 4
FATOR 5
O referencial centrado nas ciências sociais da época (pelo menos em sua maioria), fortemente
marcado por dimensões críticas e nacional-populares.
Todos esses fatores influenciaram o passo seguinte do trajeto do Serviço Social, voltado para o
Desenvolvimento de Comunidades, em suas três vertentes, marcadas pelas seguintes
características:
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Desse modo, o período histórico seguinte, do golpe militar, afetará severamente o processo
democrático no país e, consequentemente, a profissão, indicando novos caminhos e outras
perspectivas de resistência e lutas sociais, no sentido da redemocratização nacional e de
reconceituação profissional, pelo menos no que se refere a uma intenção de ruptura com as
antigas formas profissionais no Serviço Social.
Agora, vamos entender um pouco mais como os governos de Juscelino Kubitschek e de Jânio
Quadros influenciaram o Serviço Social no Brasil.
VERIFICANDO O APRENDIZADO
GABARITO
CONCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao encerrar nosso estudo, é importante que você perceba que o objetivo principal deste tema
foi apresentar o contexto histórico em que ocorreu o processo de consolidação da profissão do
assistente social no país.
Muitos pontos de vistas poderiam ter sido abordados, mas privilegiou-se aqueles sob nomes de
expressão no âmbito do Serviço Social no Brasil e que se dedicaram a produzir conhecimento
na área.
É exatamente a partir dessas abordagens que podemos afirmar a relevância do que aqui foi
apresentado. Afinal, sabemos que conhecer o passado é uma forma de melhor compreender o
presente, além de possibilitar a reflexão sobre os melhores caminhos para o futuro.
AVALIAÇÃO DO TEMA:
REFERÊNCIAS
COSTA, A. A seguridade social no Plano Beveridge: história e fundamentos que a
conformam. 2019. 162 f. Dissertação (Mestrado em Política Social) – Universidade de Brasília,
Brasília, 2019.
NETTO, J. P. Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64. 3.
ed. São Paulo: Cortez, 1996. p. 115-141.
EXPLORE+
Assista ao vídeo Serviço Social no Brasil - 80 anos de história, ousadia e lutas, da Editora
Cortez sobre os 80 anos da profissão. Além da história do Serviço Social no Brasil, é
possível aos discentes ver os rostos de importantes autoras e autores que até então eram
conhecidos somente por seus nomes.
Leia dois artigos sobre a relação entre a caridade e a assistência social (especialmente
diante das pessoas mais necessitadas economicamente), que merecem destaque, por
fugirem do lugar comum:
CONTEUDISTA
Isabel Cristina Silva Marques Paltrinieri
CURRÍCULO LATTES