Tese de Rosilene Final
Tese de Rosilene Final
Tese de Rosilene Final
DOUTORADO EM FILOSOFIA
Belo Horizonte
2012
ROSILENE MARIA ALVES PEREIRA
Belo Horizonte
2012
Aprovada em:
BANCA EXAMINADORA
Prof. Dr.
_______________________________________________________________
Prof. Dr.
_____________________________________________________
Prof .Dr
_______________________________________________________
Prof. Dr
À memória de meus pais, Antônio e Teresinha.
Ao meu pai Antônio Alves Pereira, por ter financiado dois períodos de
minha estadia em Belo Horizonte, sendo possível realizar os créditos do
doutorado e pesquisas em 2007 e 2010.
This thesis analyses the question of the Subject and its modes of
subjection and subjectivisation in Foucault’s studies from 1975 to 1984. It
is focused on the Genealogical phase of his research,specifically in his
final courses and works in which the Political and Ethica concerns are
predominating. The Foucault’s Geneaogical researches always lead to
contrast the Greek and Modern experiences. From our point of view, by
taking that contrast from the perspective of the Subjet question,we aim to
restore the connection between subjectivity and history. At the end we
show how Foucault’s genealogy will change the nature of Philosophical
praxis itself by reinforcing the nexus between Philosophy and History,
and doing so we claim his Philosophical project is the is the making of a
critical history of reason by following the tracks of Kantian Criticism. So
we may say that there is the Foucautian way of thinking, with his
attention to history and disposition to analyze objects that Philosophical
tradition had put on side – like sexuality, reclusion, and madness _, a
conception of Philosophy that opens an interesting and germinal path to
Contemporary philosophy.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO............................................................................................................ 9
CAPÍTULO I
CAPÍTULO II
CAPÍTULO III
CAPÍTULO IV
INTRODUÇÃO
verdade. Podemos dizer, pois, que, nos dois períodos das pesquisas foucautianas,
do sujeito, o da verdade, o discurso, bem como nos modos como estes temas são
estabelecimento de aproximações.
10
1982. Ou seja, na entrevista – O sujeito e o poder, onde ele afirma que não é o
dominação, nos anos 1970; o sujeito como agente político e ético nos anos 1980.
passo que nos estudos finais há uma afirmação do sujeito ético. Quem é esse
uma historicização do sujeito; isto significa dizer que para Foucault a subjetividade
pode ser definida como uma maneira de se relacionar consigo mesmo, para se
1
GROS, Fréderic. O cuidado de si em Michel Foucault. In: Figuras de Foucault. Tradução: Margareth Rago e
Alfredo Veiga Neto. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 128.
2
Ibidem, p. 28.
11
subjetividades analisadas por ele nos anos 1970, é uma fase de oposição, ainda
Esta tese tem como foco central, portanto, a questão do sujeito em Foucault,
é tratada por ele de diferentes modos, por exemplo, nos escritos em que teve
daquele discurso. Foi nesta perspectiva que tratou o sujeito que fala, trabalha e vive,
3
Idem.
12
próprio, ao se passar para um plano propriamente político e, por fim, ético. Trata-se
última fase de seu trabalho foi fazer a história da subjetividade, entendendo esta
subjetividade.
sujeito ético em Foucault já aparece pelo menos em gestação desde 1975, na obra
poder sendo analisado em sua extremidade, onde ele atua, e não em seu centro; e o
quanto ética.
4
Ao longo do texto, a palavra Modernidade será usada em minúsculas, tendo em vista que Foucault não se
refere a um período da história marcado por acontecimentos sociais, políticos e culturais, datado como sendo o
final do século XVIII, ao qual se reportam os historiadores (Cf. Capítulo I desta Tese).
13
1978 e 1989, cursos em que o interesse por política parece predominar, entretanto,
para garantir com eficiência as sujeições modernas; nesta política, o sujeito do ponto
de vista ético tende a enfraquecer-se; o que temos são sujeitos dóceis politicamente
capítulo, o foco é o sujeito ético, que se afirma e se fortalece a partir da cultura de si.
Entretanto, como Gros esclarece no texto Situação do curso, texto que acompanha a
discursivas (saber).5
Foucault tratou do sujeito ético, nas obras de 1984, com destaque para os
I e II de nossa era, período caracterizado não pelo uso dos prazeres, mas por uma
sujeito ético. Para melhor compreensão desse sujeito ético os cursos que
Em geral, tanto os cursos de Foucault, como seus Dits et écrits, compõem a sua
discutidos por ele em sua trajetória, no caso dos cursos eles preenchem o silêncio
dois últimos volumes em 1984. No período em que não publicou obras, Foucault as
elaboração desta tese esses cursos foram objeto de leituras e reflexões, e, ao lado
5
GROS, F. Situação do curso. In: A hermenêutica do sujeito, 2004, p. 620.
15
de suas obras, constituem a base teórica que dá sustentação para o estudo sobre a
afirmação do sujeito ético são discutidos a partir da noção de governo, governo dos
fora, ele tanto sofre, como é produto de efeitos de poder. Tudo começa com o
perda da liberdade do sujeito, tanto do ponto de vista político como ético. Assim,
pode ser feito o seguinte paralelo: na Modernidade, não obstante as Luzes, o que
ocorre é que as subjetividades são produzidas por toda uma maquinaria de poder;
governo de si.
liberdades que são as práticas éticas. São fundamentais para este terceiro capítulo
os cursos que vão de 1976 a 1979 para precisarmos alguns conceitos como: O de
mas também para fazer uma ponte entre o sujeito ético e o sujeito político. Além do
concepção de filosofia como askesis, defendida por Pierre Hadot,6 de quem Foucault
assume a influência, oportunidade em que esses temas tão antigos aparecem como
trazer para a atualidade algo que ficou perdido, e que poderia ser uma saída para
6
HADOT, Pierre. L’enseignement des antigues l’enseignement des modernes. Paris, Editions Rue D’ulm,
2010; __. La filosofia como forma de vida. Alpha Decay.
17
CAPÍTULO I
obstante a ideia das luzes está associada à ideia de liberdade, nela encontramos as
7
Segundo o livro Vocabulário de Foucault. Um percurso pelos seus temas e autores. O termo “Modernidade”
apresenta pelo menos cinco sentidos distintos. Os dois primeiros concernem à Modernidade vista como um
período histórico. Se levarmos em consideração Histoire de La folie, Les mots e les choses e surveiller et punir,
a Modernidade é entendida como período histórico que começa no final do século XVIII e estende-se até nós.
De um ponto vista político, a Modernidade começa com a Revolução Francesa, de um ponto de vista filosófico
começa com Kant. O período que vai do Renascimento até o final do século constitui a época clássica. (...). Em
L’herméneutique do sujet, no entanto, a modernidade começa com Descartes; nesse caso, então a
Modernidade inclui o que nas obras precedentes é a época clássica.
19
das pistas iniciais que nos levem à resposta, dirigimo-nos a seu escrito O que são as
luzes? (1984). Neste texto, Michel Foucault retoma a resposta de Kant a essa
mesma questão em Was ist aufklärung? (1784). O texto de Kant é retomado não
para ele apresentar a sua visão do mesmo ou fazer-lhe a exegese do texto, mas
principalmente para precisar o que ele entende e compartilha com Kant como sendo
uma atitude moderna, e a relação que esta atitude tem com a afirmação de um
sujeito ético. Seguir este caminho parece apropriado, uma vez que a era moderna é
vista como a instalação da época das Luzes, seja no plano do conhecimento, seja
está em jogo.
Os outros dois sentidos da modernidade têm a ver com o trabalho histórico-filosófico de Foucault que até As
palavras e as Coisas, ao longo do qual a problemática do sujeito é abordada, ou seja, de um ponto de vista
epistemológico. A partir de Vigiar e punir e de Vontade e saber encontramos outra caracterização da
modernidade e outro modo de preocupação com o sujeito. A Modernidade passa a ser caracterizada com base
nas formas de exercício do poder. Aqui, Modernidade é equivalente à época da normalização, ou seja, à época
de um poder que se exerce como disciplina sobre os indivíduos e como biopolítica sobre a população.
Finalmente, no quinto sentido, o que é considerado neste capítulo, aqui podemos atribuir ao termo Modernidade
não a uma época, mas a uma atitude. Atitude entendida como um modo de relação a respeito da atualidade,
uma relação voluntária que alguns fazem, enfim uma maneira de agir e de se conduzir que, ao mesmo tempo,
marca um pertencimento e se apresenta como uma tarefa. Uma tarefa para o homem diante da atualidade. In:
Vocabulário de Foucault. Autêntica, 2009, p. 301-302.
20
uma realização futura. Ele busca uma diferença: qual a diferença que
menoridade ele entende certo estado de nossa vontade que nos faz
procura enfatizar as ambiguidades de tal conceito, que ora parece ser um processo
8
FOUCAULT, Michel. O que são as luzes? In:___. Dits et écrits II, 1976-1988, p. 1383.
9
Cf. Foucault (1976-1988, p. 337).
21
uma tarefa, uma obrigação do homem racional. Vejamos o que diz Foucault.
então que ele não poderá sair dele a não ser por uma mudança que
diz que essa Aufklärung tem uma ‘divisa’ (Wahlspruch): ora, a divisa
mesmo processo. Podem ser seus atores à medida que fazem parte
atores voluntários.10
O que podemos observar do que diz Foucault é que esta atitude moderna,
autonomia do agir, no sentido prático. Para tanto, é preciso bem mais do que se
10
Ibidem, p. 338.
22
ousadia para tal conquista, seja de um homem, no uso privado de sua razão, seja da
humanidade como um todo. É para isto que aponta a visão de Foucault do texto de
partida, um esboço do que se poderia chamar uma atitude moderna. Além disso, o
texto de 1784 de Kant serviu para inaugurar uma novidade particular, a tarefa
seja uma atitude contrária a esse modo de ser moderno, Foucault recorre à
11
Cf. Foucault (1976-1988, p. 341-342).
23
alguma coisa de eterno que não está além do instante presente, nem
“flanar” seria a atitude de deixar-se levar pela fluidez, pela vertigem do que passa, é
procura agir, fazer algo diferente do previsível. A atitude moderna, ao contrário, não
aceita a si mesmo tal como se é, no fluxo dos momentos que passam ou que nos
elaborar a si mesmo.13
autodomínio. A distância temporal não poderia ser maior, mas o que é dito da moral
que são as luzes” (1984). Isto nos possibilita afirmar que, para Foucault, a
modernidade não deve ser entendida somente como um período, marcado por
atualidade. Uma atitude que abarca práticas e diferentes formas de relação consigo
e com outrem, cujo conjunto Foucault parece encontrar no retorno que fez à
14
O sentido que tem a palavra sujeito em Foucault difere do sentido comum em que sujeito significa o que é
cativo, submetido, constrangido. E se refere ao Em sentido filosófico, nas diferentes vertentes modernas,
embora não todas, sujeito significa ser individual que tem qualidades como a razão, gera o conhecimento e
pratica ações. Nos escritos e obras do filósofo que tem preocupações epistemológicas, o sujeito não é tratado
como constituinte autônomo de um saber, é constituído, devendo a sua constituição a acontecimentos
presentes na história dos discursos ou dos saberes. Foucault assumiu um ceticismo sistemático em relação a
todos os universais antropológicos. Essa reserva implica em analisar com rigor tudo o que nos é proposto
como sendo de validade universal quanto à natureza humana ou às categorias que se podem aplicar ao
25
lado, que o fio que pode nos atar dessa maneira à Aufklärung não é
ser a favor ou contra. Foucault não sede a tal chantagem, e ressalta que, mesmo em
sujeito. (Ele próprio fez tal afirmação no escrito Foucault 1984) Na fase final de suas pesquisas, tentou
estudar a constituição do sujeito como objeto para ele próprio. Trata-se em suma, como já assinalamos, de
uma história da subjetividade em que as palavras sujeito, subjetividade e homem se equivalem. Equivalem-se
porque, em todas elas, prevalece o mesmo sentido. Foucault tentou fazer a história da subjetividade,
entendendo esta palavra como a maneira pela qual o sujeito faz experiência de si mesmo em um jogo de
verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo, com outrem e com o mundo.
26
filosofar.15
historicamente determinados, até certo ponto, pela Aufklärung. É isto que ele
positivo nesta crítica é que aquilo que é posto como negativo, por não ser universal
que, de algum modo, nos integram historicamente, parece ser o objetivo dessa
formais que tem valor universal, mas como pesquisa histórica através
15
Cf. Foucault (1976-1988, p. 345).
27
mas ela deduzirá da contingência do que nos fez ser o que somos a
fazemos ou pensamos.16
questão do sujeito em seus estudos finais. Trata-o como algo que se constitui a
humana são estampadas mais de um a vez em seu debate famoso com Chomsky. É
seu propósito ao estudar o sujeito fazer uso de procedimentos metodológicos por ele
pretende fazer uma ontologia histórica de nós mesmos, a qual passa a descrever.
como uma prova histórica – prática dos limites que podemos transpor, portanto,
Esse trabalho sobre nós mesmos ou prática de si, parece significar uma
sociais. É isto que traz os elementos constituintes dessa “ontologia”, que são a
16
Cf. Foucault (1976-1988, p. 348).
17
Idem, p. 348.
28
mesmos, não as condições que o determinam sem que o saibam, mas o que fazem
e a maneira pela qual fazem, diante tanto de tecnologias de si, como de estratégias
questões como nós constituímos como sujeitos de nosso saber; como sujeitos que
modernas. Esses processos tiveram seu início a partir da segunda metade do século
XVIII e vêm se prorrogando até os nossos dias. Vê-se então que, ao se ocupar
dessas questões, Foucault está abrindo para a filosofia o caminho para pensar a
não-kantiana.
aqui são aspectos da pesquisa de Foucault que nos permitem situar a questão da
norma e o direito, texto que tem a intenção de explorar um ponto que Michel
mas estão sempre em posição de exercer este poder e sofrer sua ação; os
Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles.
que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas
que, quanto mais se torna economicamente útil, mais obediente se torna. Com as
disciplinas forma-se uma política das coerções; são efetivamente um trabalho sobre o
o recompõe. Nasce um modo específico de domínio sobre o corpo dos outros, que, de
corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela
18
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 183-184.
32
acentuada.19
contínua e funcional, supõe um dispositivo que induz efeitos de poder, pelo uso do
olhar que funciona como meios de vigilância e coerção. A perfeição de tal aparelho
19
FOUCAULT. Vigiar e punir. 18. ed. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 119. In:____. Surveiller et punir, 1975, p. 162.
20
Ibidem, p. 120; 163.
33
integrado de tal modo que o indivíduo não consegue escapar de seus efeitos.
disciplinar.
Foucault como sendo uma penalidade perpétua que atravessa todos os pontos e
das instituições disciplinares, seja um quartel, uma escola, um hospital, uma fábrica
ou seja qualquer outra instituição; não visa uma expiação, nem mesmo a repressão,
21
Cf. Foucault (1975-1998, p. 148; 208).
34
Trata-se menos de instalar uma nova lei da sociedade moderna do que a sanção
22
Cf. Foucault (1975-1998, p. 152-153; 214-215).
23
Cf. Foucault (1975-1998, p. 153; 21).
35
de igualdade formal, já que realiza no plano real aquilo que formalmente é estabelecido
como “ser igual”. Nesta perspectiva, o diferente é visto como sendo o anormal, o fora do
invisível sobre estes mesmos indivíduos. Talvez seja por tudo isso que, em todos os
24
Cf. Foucault (1998, p. 119; 1975, p. 153-154; 216).
.
36
porque o exame supõe um mecanismo que liga certo tipo de produção de saber
através da escrita que o acompanha, suas anotações são usadas como certa forma
disciplinar se faz presente sem que se constate sua presença ostensiva. A presença
obrigatória. Na disciplina, são os súditos que têm que ser vistos. Sua
fato de ser visto sem cessar, de sempre poder ser visto, que mantém
25
Cf. Foucault (1975, p. 156).
26
Idem.
37
traços, aptidões e capacidades de cada um, não com objetivo de exaltar sua
que produz efeito de poder sobre as pessoas, que se tornam objetos de saber e que
27
Cf. Foucault (1975, p. 158).
38
científico individualidades que, nesse caso, não significam uma exaltação de traços
produzida para aquele indivíduo. É importante observar que nesse texto e em outros, do
objetivos da disciplina é fixar e conter diferenças. “De uma maneira global, pode-se
dizer que as disciplinas são técnicas para assegurar a ordenação das multiplicidades
28
Cf. Foucault (1975, p. 179).
39
modernos.
seio, novos mecanismos de poder, tais como: disciplinas dos corpos e controle
reguladores das populações, estes controles abrem a era do biopoder. Antes existiu
um tipo de poder que durante muito tempo foi caracterizado como “o direito de fazer
29
EWALD, François. Foucault: a norma e o direito, 1993.
40
morrer e deixar viver”; este poder é exercido de forma negativa com a captura, a
de saber e poder, que, em nome do que é proposto e aceito como normal, exerce
Ora, no princípio do século XIX irá dar-se uma singular alteração nas
relações entre regra e norma. Norma já não será outro nome para
regra, antes vai designar ao mesmo tempo certo tipo de regras, uma
certo que a norma designa sempre uma medida que serve para
30
Ibidem, p. 77.
41
e o patológico.31
Segundo Ewald, o que ocorre com o sentido da norma é que ele se alarga
morais, jurídicas e políticas que, a partir do final do século XIX, vão se constituir
poder baseado na norma. O que Ewald propõe fazer é um estudo da norma que vá
31
Cf. Ewald (1993, p. 79).
32
Ibidem, p. 80.
42
norma, no sentido moderno do termo, como foi descrito em Vigiar e punir (1975),
decorrer dos séculos XVII e XVII e se difundiram pelo conjunto do corpo social.
com três grandes modalidades: a inversão funcional das disciplinas considerada por
33
Cf. Ewald (1993, p. 81).
43
disciplinas foi invertida. Esperava-se antes que elas neutralizassem perigos, que
deu com a passagem das disciplinas como bloqueio, inteiramente voltadas para
funcionavam, para circularem em estado livre por toda a sociedade. O poder está
em toda parte – esta conhecida afirmação de Foucault, segundo Ewald, quer dizer
34
Cf. Ewald (1993, p. 83).
44
mais importante na visão de Ewald, isto porque, como já foi dito, é a difusão do
35
Cf. Ewald (1993, p. 82-83).
36
Ibidem, p. 83.
45
Ewald afirma que o normativo propõe uma solução particular para um velho
sem verticalidade.37
37
Cf. Ewald (1993, p. 86).
46
fenômeno vem tomando conta de todo o espaço social e as instituições, antes tidas
temos um indivíduo, este entendido como um produto das disciplinas como norma.
estar de algum modo enquadrados naquilo que é tido e aceito como sendo o normal,
o padrão; desse modo, o singular tende a desaparecer e, em seu lugar, temos aquilo
38
Ibidem, p. 88.
47
sobre aquilo que seria o mais íntimo da vida, que é a dimensão do desejo. O homem
moderno não busca ser sujeito do seu desejo. Busca, nesse aspecto, como em
qualquer outra dimensão da sua vida, ser normal. Assim, as ciências humanas
não a partir da ótica da repressão e interdição, mas a partir de uma relação poder-
interesse político e sai do domínio daquilo que é ético, quando o homem deixa de
ser sujeito do seu desejo e sua sexualidade passa a ser administrada por
nos três capítulos finais de A vontade de saber. Tal articulação será destacada a
partir de agora.
modo, exerce um poder sutil e penetrante que controla o prazer cotidiano. O seu
objetivo nesta obra é fazer a história da vontade de saber que serviu de instrumento
a certa técnica de controle sobre o sexo, reforçando a tese de que a conduta sexual
sexo que representam mais uma forma de dominação presente nas sociedades
Segundo Foucault, os séculos XVII, XVIII e XIX são marcados por uma
incitação dos discursos sobre o sexo, “em torno e a propósito do sexo, havendo uma
enunciação de como era possível falar dele, em que situações, quais seriam os
que deveriam ser seguidas, o que deveria ser dito e em que se deveria manter
a uma “obstinação das instâncias de poder a ouvir falar e a fazê-lo falar de sexo sob
39
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. v. 1. Rio de Janeiro: Graal, 1997, p. 21.
40
Cf. Foucault (1997, p. 22).
49
com uma atenção especial às experiências de sexo de cada um; é nelas que estaria
a essa tarefa que consiste em dizer tudo sobre seu sexo, que, a
do século XVIII nasce uma incitação política, econômica, técnica, ao falar do sexo;
[...] Cumpre falar do sexo como de uma coisa que não se deve
41
Ibidem, p. 26.
50
“police”.42
origem uma tecnologia do sexo que sustenta ações públicas sobre as condutas dos
indivíduos. Com as ações públicas, aparece um novo modo de exercer poder sobre
o sexo, uma técnica diferente da utilizada pelo pastorado cristão, porém com o
mesmo objetivo de controle da vida dos homens, não para garantir-lhes a salvação,
mas a normalidade.
O que passamos a ter é uma “police” do sexo; isto é, ações políticas que
visam regular o sexo por meio de discursos úteis e públicos e não pelo rigor da
proibição. Foucault destaca alguns exemplos dessa nova técnica de poder no século
XVIII, que ocorre com o surgimento da população, que deverá ser distinguida de
não tem que lidar simplesmente com sujeitos ou indivíduos e sim com a população e
economia política da população que se forma toda uma teia de observações sobre o
sexo. É assim que “surge à análise das condutas sexuais, de suas determinações e
políticas públicas com o sexo dos indivíduos não é só com os adultos e produtivos
42
Idem, p. 27.
43
Cf. Foucault (1997, p. 29).
51
crianças e dos adolescentes. São a eles que são dirigidas prescrições médicas e
surge toda uma literatura a respeito do tema. Todas essas prescrições, conselhos,
história dessa vontade de saber sobre o sexo, e por que este não foi somente objeto
falsidade; que a verdade do sexo tenha se tornado coisa essencial, útil ou perigosa,
prazer, encarado como prática e recolhido como experiência; não é por referência a
deve ser conhecido como prazer, e, portanto, segundo sua intensidade, sua
acordo com o modo como é definida a arte erótica, já nos faz ver que nossa
civilização ocidental não possui tal arte. O que construímos, segundo Foucault, é
sexo. Quais são estes procedimentos e como eles atuaram em nossa sociedade é
44
Cf. Foucault (1997, p. 35).
45
Ibidem, p. 57.
52
permanece ainda hoje, a matriz geral que rege a produção do discurso verdadeiro
da medicina no século XIX, uma vez que foram produzidos tendo como base os
rituais de confissão e seus conteúdos. Foi desse modo que nossa sociedade rompeu
inserida entre uma técnica de confissão e uma discursividade científica. Por isso sua
história deve ser feita do ponto de vista de uma história dos discursos sobre o sexo.
No século XIX, encontrarmos uma disputa por espaços de poder, scientia sexualis
contra ars erótica. Entretanto, é possível afirmar-se que a arte erótica não
XIX e sob o fardo do positivismo a scientia sexualis não funcionou, pelo menos em
algumas de suas dimensões, como uma ars erótica. Uma hipótese é levantada
46
Cf. Foucault (1997, p. 62).
47
Ibidem, p. 66-67.
53
discursos aceitos como verdadeiros sobre o sexo; estes exercem efeitos de poder,
sexualidade.
A questão “quem somos nós?”, que procura dar conta da reflexão filosófica
ser: O que somos nós em relação ao sexo? Como diz Foucault na obra de 1976:
48
Cf. Foucault (1997, p. 29).
54
saber quem somos nós, é ela, doravante, que nos serve de chave
universal.49
O que acontece no Ocidente é que o sexo passa a ser razão de tudo devido a
de verdade que há tantos séculos faz brilhar o sexo como chave para dizermos o
que somos. O grande achado de uma incursão pela história das sociedades dos
domada em uma ótica da repressão. O problema das relações entre poder e sexo
remete a análises políticas do poder; ou, dizendo de um modo mais preciso, análises
ao modelo essencialmente jurídico nas relações entre poder e sexo. Um poder que
49
Ibidem, p. 76.
55
recente dessa coisa mais interdita de nossa vida que é o sexo. E o que é constatado
por Foucault é que nas sociedades modernas a relação entre poder e sexo não se
uma verdadeira tecnologia do sexo muito mais complexa e, sobretudo, mais positiva
dispositivos saber-poder-sexo.
50
Cf. Foucault (1997, p. 86-87).
51
Cf. Foucault (1997, p. 86-87).
56
produzidos).52
e de poder.53
52
Ibidem, p. 97.
53
Cf. Foucault (1997, p. 100).
57
sexualidade. Assim como o de aliança, ele também se articula aos parceiros sexuais,
funciona de acordo com técnicas conjunturais de poder, para o controle dos corpos e a
objetivo é controlar o corpo que produz e consome. Logo, as relações de sexo não
devem ser experimentadas tendo como estímulo um desejo natural, e sim produzidas
por um dispositivo que visa garantir que as energias do corpo sejam gastas com a
obra que coloca o fim do século XVIII como o período em que nasce uma tecnologia
que passam a fazer do sexo um negócio de Estado, uma questão que todo o corpo
Assim é que o poder está em toda parte e todos exercem poder sobre o outro,
literal, significa poder sobre a vida, que se desenvolveu a partir do século XVII, tendo
mecânica do ser vivo. Estes dois polos representam os dois dispositivos aqui
de saber-poder-vida.
55
Ibidem, p. 110.
56
Cf. Foucault (1997, p. 131).
59
Este poder sobre a vida em todos os seus aspectos colocou o sexo no foco
da disputa política, de vez que se encontra na articulação entre os dois eixos ao qual
se desenvolveu toda a tecnologia política da vida. É por esta razão que o sexo, a
partir do século XIX, passa a ser sempre suscitado, é por isso que, em torno dele,
morte”.57
poder se afirma com a morte. Nas sociedades disciplinares, o poder investe sobre a
vida e se afirma no controle dos processos vitais; é o que faz a biopolítica, investe
regulação do corpo como espécie nos seus processos biológicos. Passam a existir
referências a biopolítica.
[...] deveríamos falar de biopolítica para designar o que faz com que
57
Ibidem, p. 138.
58
Ibidem, p. 134.
60
Foucault desde os anos de 1976, quando o que fazia era por ele denominado de
59
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. Martins Fontes: São Paulo, 1999, p. 21.
61
CAPÍTULO II
estado que “cuida” ao mesmo tempo em que “governa” a população, visando uma
gestão política da vida dos indivíduos. Essa ação política organizada foi denominada
subjugação, tanto ética como política. Assim, para tratarmos de tal tema, faremos
apareceram nos cursos dos anos de 1978 e 1979, e concluiremos o capítulo com a
análise feita da experiência grega de governo de si, que, nos seus traços
modernidade.
governar pelos outros. Enquanto que todo o dilema moderno é a convivência com
que não só o desejo é controlado, mas todos os aspectos da vida são administrados.
Trata-se de um assujeitamento não apenas ético, mas, também, político, uma vez
na antiguidade.
século XVI até o fim do século XVIII. A partir daí, ele isola alguns pontos notáveis,
que dizem respeito à própria definição do que se entende por governo do estado,
isto é, governo sob sua forma política. Foucault também procura opor essa forma de
Maquiavel, texto sobre o qual ele próprio possui uma história interessante,
justamente em relação a todos os textos que o seguiram e que por sua vez o
possuir a arte de governar.”60 De tal afirmação é que surge a questão “em que
governo “como uma maneira correta de dispor das coisas para levá-las, não à forma
de bem comum, como diziam os textos dos juristas, mas a um fim adequado, para
cada uma das coisas que, precisamente, devem ser governadas.” 61 Nessa visão,
não se trata de impor uma lei, como na forma de governo conhecida como
soberania, em que lei e soberania coincidem. Trata-se de dispor das coisas, em vez
impor uma lei aos homens, trata-se de dispor das coisas, isto é, de
A distinção entre soberania e arte de governar pode ser feita à medida que
nas coisas que ele dirige. Nessa perspectiva, os instrumentos de governo passam a
ser diversas táticas, e não as leis. Outro ponto de distinção entre soberania e
governo é que o governo ao invés de fazer valer sua força, deve agir com sabedoria
e diligência. Essa sabedoria passa a ser um requisito para aquele que governa,
60
FOUCAULT, Michel. Segurança, território e população. 2008, p. 123.
61
La Perrière apud Foucault (2008).
62
Cf. Foucault (2008, p. 132).
65
que podem ser alcançados, a disposição que se deve empregar para atingi-los. Em
para o governo. Quanto à diligência, esta faz com que pareça que quem governa
apontado por Foucault, é que a própria soberania como questão teórica e como
princípio de organização política foi fator desse bloqueio. Mas, como se deu esse
jurídico da economia.63
63
Cf. Foucault (2008, p. 138).
66
de família zela por sua casa e por todas as coisas que lhes dizem respeito.
64
Ibidem, p. 139.
67
nem a soberania, nem a disciplina deixam de existir ou ter importância para a arte de
governo.
de uma nova arte de governar, uma arte de governar que agora quer
ela nunca foi tão valorizada do que a partir do momento em que se procurava
administrar a população, justamente porque esta deve ser controlada com sutileza e
com atenção aos detalhes que o modelo das disciplinas serve tão bem à nova arte
XVIII foi uma série sólida entre governo, população e economia política, que não foi
dissociada até hoje. O governo que gere a população com base no conhecimento,
65
Cf. Foucault (2008, p. 142).
66
Idem.
68
num saber, a economia política. Com este tripé, Foucault propõe durante o curso de
muito complexa, de poder que tem por alvo principal a população, por
Essa aliança entre gestão da população e saber de governo nos faz lembrar
outra ligação que Foucault (2008) tematiza inúmeras vezes, a relação entre saber e
poder. O saber sobre a gestão da população tanto é efeito de poder, como exerce
característica da modernidade.
pensamento de Foucault:
é possível que, tal como ele existe agora, seja precisamente graças a
posição do político e do pastor. Uma diferença relevante é que o político dos gregos
exerce o seu poder sobre um território, mas sobre o rebanho. Enquanto o último
68
Ibidem, p. 145.
70
poder pastoral.”70
69
CASTRO, Edgardo. Vocabulário de Foucault. Um percurso pelos seus temas, conceitos e autores. Belo
Horizonte: Autêntica, 2009, p. 328-329.
70
Cf. Castro (2009, p. 328-329).
71
formas de poder pastoral concernem não mais somente ao governo das almas, mas
primeira vez, em A vontade de saber (1976). “De fato, tudo acontece como se a
situada num marco mais amplo”72. De acordo com Senellart, o projeto inicial do
71
Ibidem, p. 330-331.
72
SENELLART, Michel. Situação do curso. In: Segurança, território e população. São Paulo: Martins Fontes,
2008, p. 496.
72
dois cursos.
Ocidente, o poder sobre a vida. Mas essa pesquisa tem por efeito, ao
paralelamente aos cursos.75 Vale lembrar que elucidar estas ligações entre
pela ética, no período que antecede as obras finais de 1984. Esse parêntese torna-
73
Idem.
74
Ibidem, p. 497.
75
Ibidem, p. 498.
73
écrits, que faz uma descrição geral do que é um trabalho genealógico e aborda de
forma específica acerca do poder como questão central das genealogias a que se
propôs fazer nos anos de 1970, momento em que o interesse por política parece ter
prevalecido.
relação de força.76
76
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 15-16.
74
preponderante ser a política nos anos 70, isso não o torna um teórico político, no
sentido convencional do termo, como aquele que estuda teorias do Estado. Não
obstante falar de razão de Estado em suas análises, suas pesquisas incidem sobre as
obediência, não em termos de sua legitimidade, seus limites, sua origem – como as
lado dessa experiência moderna que põe em prática um modo de exercer o poder
resistências nas relações de poder. Preocupação que é mais ética, uma vez que
tese.
somos.
77
CASTELO BRANCO, Guilherme. Retratos de Foucault. Rio de Janeiro: Nau, 2000.
78
Ibidem, p. 315.
76
Essas lutas são todas as lutas que possam se desenvolver mesmo na esfera
naquilo que deveria ser mais pessoal e particular, a constituição de sua identidade.
79
FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: DREYFUSS, H. RABINOW, P. Uma trajetória filosófica. Para
além do estruturalismo e da hermenêutica. Forense, p. 235.
80
Cf. Foucault (p. 236).
81
Idem.
77
Ressalta-se que essa forma muito específica de poder “não pode ser exercida sem o
conhecimento da mente das pessoas, sem explorar suas almas, sem fazer-lhes
capacidade de dirigi-la”.82
É válido salientar que esta forma de poder pastoral faz parte da história, se
não desapareceu, pelo menos perdeu sua força desde o século XVIII. Entretanto,
sua função se ampliou e se multiplicou fora das instituições eclesiásticas, surgiu uma
instituições.
Talvez, o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas
poder moderno.83
82
Cf. Foucault (p. 337).
83
Ibidem, p. 339.
78
declara que seu objetivo, por mais de vinte anos, tem sido esboçar uma história das
mesmos em nossa cultura.85 Dentre elas, ele elege quatro, sendo que as duas últimas
que permitem aos indivíduos efetuar, com seus próprios meios ou com ajuda de outros,
84
Idem.
85
FOUCAULT, Michel. Verve: 6, p. 323.
86
Ibidem, p. 323-324.
79
mesmo’ era, para os gregos, um dos mais importantes princípios das cidades, uma
das principais regras para as condutas sociais e individuais, e para a arte da vida”.88
Para Foucault, esta noção está obscura e enfraquecida para nós. De fato, o
cuidado de si, hoje, em nossa cultura, tem a ver com o cuidado com o corpo, com a
quando escreve: “Nunca é muito cedo ou muito tarde para ocupar-se com a alma.
87
Ibidem, p. 324.
88
Cf. Foucault (p. 335).
80
ao cuidado com os outros, a uma preparação para a vida política, como é o caso de
preocupação com o cuidado de si, que é em sua origem um princípio ético para a
pendant ético e político das técnicas de si. Em outros textos, como o curso de 1982,
89
Ibidem, p. 327.
90
Cf. Foucault (p. 333).
81
Frederic Gros ao citar o dossiê “Gouvernament de soi et des autres”, revelam que
medida que privilegia as lutas contra as sujeições éticas que marcam o século XX
dominações políticas.
do mundo contemporâneo.
tudo o que nos é proposto em nosso saber, como sendo de validade universal
91
Cf. Florence (2004).
82
objetivação.
verdadeiro ou falso, reconhecer um sujeito como doente mental ou fazer com que o
sujeito reconheça a parte mais essencial dele próprio na modalidade de seu desejo
sexual”.92 Fazer tais interrogações faz parte do que ele denomina de história da
Como foi dito, Foucault não trabalha com a ideia de uma subjetividade dada
de uma vez por todas ao sujeito na forma de sua essência. E sim com a ideia de
concebidas ao mesmo tempo como modos de agir e de pensar que dão a chave
92
Ibidem, p. 237.
93
Idem.
94
Cf. Florence (2004, p. 238).
95
Ibidem, p. 239.
83
técnicas por meio das quais os homens, trabalhando a relação que os liga a si
Revel em uma importante entrevista de 2006, que integra uma publicação brasileira
descreve como uma produção de subjetividade, como uma invenção de si, uma
prática de liberdade, uma prática ética que parte unicamente de si, com e através
dos outros. “É nisso que a resistência, a prática da liberdade, a relação ética consigo
delineiam o espaço de uma nova política que tomaria forma de uma verdadeira
ontologia.”97
aquilo em torno do qual o homem escolhe produzir-se, o que ele decide constitui
uma episteme. É o que Foucault chama de ethos. É importante lembrar que esse
96
REVEL, Judith. Conceitos essenciais. São Carlos: Clara Luz, 2005, p. 85.
97
Cf. Revel (2005, p. 23).
84
história. Revel adverte que é preciso interrogar qual o ethos de nossa época?98 É
mostrou que esse ethos, para os gregos, passa por uma relação com os aphrodisia,
e que mudará profundamente com a pastoral cristã, não vale mais em 1984 e menos
atualmente.99
internas, que integram uma arte de si, desde que se cultive a prática da liberdade, a
frente às determinações que nos fazem ser o que somos. Em suma, a produção da
subjetividade, afirma Revel, “é uma formidável criação de ser, mas ela se dá sempre
uma ética da liberdade que não é a mesma coisa. Na ética da liberdade muda-se o
si mesmo e não se espera por uma mudança da realidade para que os indivíduos
98
Idem.
99
Idem.
100
Cf. Revel (2005, p. 24).
85
de Ortega, a análise que Foucault faz do uso dos prazeres e das técnicas de si são
que já não tem como objetivo o uso correto dos prazeres, nem localiza
101
ORTEGA, Francisco. Ética do prazer e moral do desejo, p. 1.
102
Cf. Ortega (p. 1).
103
Ibidem, p. 2.
86
falar da sexualidade como uma experiência historicamente singular. Esse discurso teria
três eixos constitutivos: a formação dos saberes que a ela se refere, os sistemas de
poder que regulam sua prática, e as formas pelas quais os indivíduos podem e devem
seu projeto inicial, algumas são as mudanças trazidas pela obra O uso dos prazeres, a
começar pelo foco: em vez da modernidade, passa a ser a antiguidade. Essa inversão
da época levou-o a uma questão muito simples e geral: “por que o comportamento
moral?”105 O retorno à antiguidade também serviu para mostrar, “de que maneira, na
se precisar o que se pode entender por prática de si, como também foi levado a
substituir uma história dos sistemas de moral, feitas a partir das interdições, por uma
história das problematizações éticas, feitas a partir das práticas de si. 107
significado que esses termos têm em Foucault a partir do texto “Moral e prática de
104
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade II: o uso dos prazeres, 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1997, p. 10.
105
Ibidem, p. 14.
106
Ibidem, p. 16.
107
Idem.
87
valores e regras de ação propostas aos indivíduos e aos grupos por intermédio de
Com efeito, uma coisa é uma regra de conduta; outra, a conduta que
se pode medir a essa regra. Mas, outra coisa ainda é a maneira pela
substância ética, isto significa a maneira pela qual o indivíduo deve constituir tal
parte dele mesmo como matéria principal de sua conduta moral. 110 Um segundo
qual o indivíduo estabelece sua relação com essa regra e se reconhece como ligado
não somente para tornar seu próprio comportamento conforme uma regra dada, mas
teleologia do sujeito moral, significando que uma ação não é moral em si mesma na
sua singularidade, ela o é também na sua inserção e no lugar que ocupa no conjunto
de uma conduta, e pode marcar uma etapa em sua duração, como progresso
Não existe ação moral particular que não se refira á uma unidade de
dessas formas de atividades sobre si, formas essas que não são
Em sentido amplo, toda moral comporta esses dois aspectos indicados, ou seja,
conceber morais cujo elemento forte e dinâmico deve ser procurado do lado das formas
de subjetivação e das práticas de si. Esse parece ser o caso da antiguidade, em que a
ético. Sobre esse aspecto, uma afirmação na Introdução de “Uso dos prazeres” merece
destaque:
permitido e do proibido.114
Com efeito, Foucault, em suas obras finais, se interessa menos por uma
moral dos códigos prescritiva e mais por uma moral das práticas de si que levam à
constituição do ser humano como sujeito ético. Assim, faz uma opção de método
que implica em “manter em mente a distinção entre elementos de um código moral e
os elementos de ascese; não esquecendo sua coexistência, suas relações, e sua
relativa autonomia.”115
114
Cf. Foucault (1997, p. 30).
115
Idem.
116
REVEL, Judith. Dicionário Foucault. Rio de Janeiro: Forense, 2011, p. 7-8.
90
próprios atos.117
relação à problematização grega em torno dos prazeres não é o próprio ato, nem o
prazer nem o desejo, mas a intensidade, a força com a qual nos entregamos a ele,
por isso é colocada uma questão ética em torno do tema dos aphrodisia.
117
Ibidem, p. 9.
91
que se desempenha diante dos prazeres: se a pessoa tem um papel ativo, de sujeito
diante dos prazeres, ou exerce um papel passivo, de objeto diante dos prazeres. O
que a experiência moral dos aphrodisia põe em questão é a maneira do uso desses
prazeres; se são usados sob o domínio de si, ou se levados pela força dos prazeres,
opor-se aos prazeres e aos desejos, não ceder a eles, resistir as suas
118
Cf. Foucault (1997, p. 42).
119
Cf. Foucault (1997, p. 63).
92
Conforme este modo de entender, a maior das vitórias é aquela obtida sobre
si mesmo, e o mais vergonhoso dos fracassos é aquele obtido sobre si. Quanto mais
o homem é sujeito de si no uso dos prazeres, mais ele exerce a liberdade ética e se
esta ideia forma bastante clara no seu Dicionário Foucault, e declara que o tema de
consiste em fazer de sua vida uma obra de arte, e uma moral cristã, que, pelo
faz da invenção de si uma das características dessa atitude, em que ser moderno é
ter uma relação com o si, conforme não aceita o si mesmo tal como se é no fluxo
porquanto seria essa a relação que devemos manter com nossa atualidade. Essa
relação implica em uma atitude ética, contudo, não significa abandono do campo
120
Cf. Revel (2011, p. 54).
93
sujeito de que trata Foucault deve ser ético, mas essa atitude ética não implica em
Vejamos o que diz Foucault nessa aula inicial do curso de 1983, sobre a
121
Ibidem, p. 55.
94
condição que ele próprio é responsável, uma vez que a menoridade em que se
encontra não é uma impotência natural à proporção que os homens são capazes de
se guiar por si sós.122 Sim, são perfeitamente capazes, mas existe algo que os
impede, não um impedimento natural como foi dito, mas um impedimento moral, um
defeito, uma falta, uma vontade ou uma certa forma de vontade que faz com que
decide por mim o meu regime. Em todos esses casos, não precisamos nos
preocupar, os outros pensam por mim, e decidem a minha vida. Não que essas
maneira que substitui o que se poderia saber, decidir ou prever da sua vida. 126 Em
122
FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros. Curso do Collège de France (1982-1983). São Paulo:
Martins Fontes, 2010, p. 27-28.
123
Ibidem, p. 28.
124
Idem.
125
Ibidem, p. 29.
126
Cf. Foucault (2010, p. 30).
95
Para Foucault, a crítica da razão pura de Kant nos ensina a fazer uso do
nosso entendimento, uso que é legítimo dentro do que são os limites de nossa
poderá trazer.127
Já a crítica da razão prática nos ensina, de acordo com Foucault, que não
compreender, ao mesmo tempo, que devemos fazer uso de nossa consciência para
menoridade, que o esclarecimento deve nos fazer sair se define por uma relação
entre o uso que fazemos de nossa razão ou que poderíamos fazer, e o que
estado de menoridade.129
trata-se de uma relação com nós mesmos, uma atitude de preguiça, de covardia,
são defeitos morais que provocam uma espécie de déficit na relação consigo e com
127
Idem.
128
Ibidem, p. 31.
129
Ibidem p. 32.
96
mesmo.
Podemos concluir que o problema não está nas formas de governo modernas que
CAPÍTULO III
exatamente a este período que Foucault dedica suas pesquisas no curso de 1982 A
hermenêutica do sujeito. Este curso tem o sujeito ético como tema central, e
encontramos nele uma preocupação não com o sujeito que é resultado de técnicas
de sujeição, não o sujeito dócil e útil que se subjetiva sob a influência das técnicas
em obras, escritos e cursos dos anos de 1970. Temos agora como tema o sujeito
que se subjetiva através da ética. Este sujeito, diferente do sujeito moderno, tem
vida. Portanto, se comparado ao sujeito moderno, este sujeito tende a ser mais ético
e mais livre, considerando que Michel Foucault entende a ética como uma “prática
intitulada A ética como prática da liberdade, para vermos como Foucault entende a
história. O sujeito sofre determinações exteriores, mas também exerce práticas de si,
Quanto à ética, Foucault não trabalha com a ética enquanto teoria, mas da
como princípio ético para toda a existência e não tão só como uma preparação para
130
FOUCAULT. M. A ética do cuidado de si como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Forense. p. 267.
In:___. L’éthique du souci de soi comme pratique de la liberté. Dits et Écrtis, II, p.1530-1531.
99
prática ética do sujeito, de um sujeito que se subjetiva à medida que se afirma como
sujeito ético.
partir do que está dito na aula de 6 de janeiro de 1982. Trata-se de um novo ponto
esses dois elementos “sujeito e verdade” e que não estão presentes na prática ou na
Com este termo tento traduzir, bem ou mal, uma noção grega
denunciada ou pelo menos apontada, por algo assim como cura sui.
consigo, etc.132
131
FOUCAULT, M. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 4. In:
L’Herméneutique du sujet. Paris: Gallimard. 2001, p. 4.
132
Ibidem, p. 4.
100
da filosofia, uma vez que esta sempre preferiu a fórmula do conhece-te a ti mesmo
para tratar da questão do sujeito. Assim, o seu modo de abordar o tema ocupa uma
posição marginal na História da Filosofia, uma vez que não só ela, mas toda a
escolha, Foucault apresenta a tese de que estes dois princípios parecem sempre
são retomadas no decorrer das aulas do curso de 1982. A particularidade é que este
diálogo Alcibíades, ocorre bem mais que um atrelamento, dá-se a sua subordinação
si, como se, para conhecermos a nós mesmos, precisássemos cuidar de nós
133
Cf. Foucault (2001, p. 7).
101
si, o fundamento de nossas ações era o cuidado de si, como prática de subjetivação,
nós. Era a este cuidado, a este olhar para si que Sócrates tanto se referia,
juntamente com o apelo para que os homens ocupem-se consigo. Este trabalho com
os outros constitui, na perspectiva socrática, uma nobre missão que lhe fora
134
Cf. Foucault (2001, p. 7).
102
conferida pelos deuses; é o que alega em sua defesa, o que faz é ensinar aos outros
missão política de cuidar dos outros. É o que falta ao personagem Alcibíades. Cuidar
de si mesmo, conhecer-se, do ponto de vista ético para cuidar dos outros do ponto
de vista político.
pretensões de Foucault no curso é fazer a história desse princípio; com esse intento
esta atitude geral ou esta forma de atenção voltada para si. Também
desse princípio do cuidado de si, e afirma que ele aparece desde o século V a.C. e
forma inicial. Importa assinalar que esta noção de cuidado marca a história da
relevo desta noção no citado período, ela foi desconsiderada no modo como o
pensamento ocidental refez sua história; esta é a questão proposta pelo filósofo,
início algo positivo em cuidar-se, ser amigo de si mesmo, revela por outro lado certa
incapacidade de sustentar uma moral coletiva e sancionar aquilo que parece ser o
mais aceito entre nós; corre-se o risco de cair em uma espécie de dandismo, o que
primeiros séculos de nossa era, séculos I e II. Período em que ocupar-se consigo
135
FOUCAULT, 2001, p. 14-15.
104
mesmo se constitui uma das mais austeras, das mais rigorosas, das mais restritivas
morais que o Ocidente conheceu, a saber, a moral estoica, também a moral cínica e
este ora tem um significado positivo, em outros momentos não. Além do paradoxo
do significado positivo e negativo do cuidado de si, existe outro paradoxo, que reside
clima diferente – eles foram por nós redimensionados significando exatamente: “uma
ética geral do não egoísmo; seja sob a forma cristã de uma obrigação para com os
outros, quer o outro quer a coletividade, quer a classe, quer a pátria etc”.136
Cristianismo e pelo mundo moderno como uma moral do não egoísmo, segundo a
comportamento egoísta.
Assim apresenta uma segunda razão bem mais essencial que concerne ao
136
Cf. FOUCAULT (2001, p. 17).
105
moderno.138
está nas relações existentes entre conhecimento e espiritualidade, esta tão cara
para o sujeito antigo e nem tão essencial para o sujeito moderno. Estas relações se
precisamos cuidar de nós mesmos para conhecermos, não precisamos ser éticos;
137
Cf. FOUCAULT (2001, p. 18).
138
Ibidem, p. 19.
106
sujeito por um simples ato de conhecimento, para “o sujeito ter acesso à verdade é
medida e até certo ponto, outro que não ele mesmo, para ter direito ao acesso à
verdade. A verdade só é dada ao sujeito a um preço que põe em jogo o ser mesmo
do sujeito. Pois, tal como ele é não é capaz de verdade”.139 Podemos interpretar
desenvolver espiritualmente. Para ter acesso à verdade, não basta uma relação de
139
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 20.
140
Idem.
107
recompensado pelo ato de conhecimento, uma vez que a verdade é o que o ilumina
verdade),sem que mais nada lhe seja solicitado, sem que seu ser seja
que não significa, é claro, que a verdade seja obtida sem condição.
concerne à espiritualidade.141
técnicas de ascese e das práticas de e sobre si, de modo que qualquer um que
utilizar o método adequado, terá acesso a verdade. Desse modo, está aberto o
Ao tratar do tema das razões que fizeram, pouco a pouco, com que a noção
Michel Foucault, na mesma aula de 6 de janeiro de 1982, deixa claro que, embora
tenha dito que o momento cartesiano fora o responsável por essa sobreposição ao
cuidado de si, este corte no entanto não foi bruscamente consumado, com que por
tempo, e o marco desse processo deve ser buscado, mas não do lado Teologia.
a pela fé, a qual passa a ser a base de sustentação do conhecimento, não mais o
- ocidental e, em
142
De fato, Descartes postula uma moral provisória e defende posições estoicas. Ver formulações no Discurso
do método.
143
Cf. Foucault (2004, p. 36).
109
importante a ser observado é que, a partir do século XVIII, foi colocada a questão da
para se chegar à verdade. Houve muitas formas de interrogação; Foucault cita como
Espinosa, vê-se que, para ele, o acesso à verdade está ligado em sua própria
toda a filosofia do século XIX, poderíamos ver, em alguns filósofos, como, por
no ato de conhecer parece ser exaltada. “Em todas estas filosofias – escreve
ascese cartesiana (método = exercício) que está em jogo, justamente o liame entre o
cartesiana e esta filosofia do século XIX, pois é uma filosofia que coloca
144
Ibid, p. 37-38.
145
Cf. Foucault (2004, p. 38).
110
destaca-se o período da idade de ouro da cultura de si mesmo, que pode ser situado
nos dois primeiros séculos de nossa era, séculos I e II, e coincidem com o momento
si está vinculado ao exercício da ação política. Cuidar de si para cuidar dos outros,
governar-se para bem governar os outros é o que Sócrates diz faltar a Alcibíades;
sua educação foi deficiente, este não apreendera a cuidar de si, como pode querer
exercício da política.
O que Foucault inicialmente nos mostra é que este princípio não tem uma
privilégio de quem detinha uma posição social, econômica e política; estes poderiam
atenção a ti mesmo, aplica o teu espírito sobre ti, toma consciência das qualidades
rivais, como também a necessidade de ele descobrir sua inferioridade para tentar
superá-las. Sócrates reclama que falta a Alcibíades a tekhné que lhe permitiria bem
governar a cidade e competir, ao menos como igual, com seus rivais. Como se vê, a
quanto como uma condição de passar do privilégio estatutário a uma ação política
146
Cf. Foucault (2004, p. 44).
112
que ele recebera educação de um escravo ignorante que nada poderia ensinar-lhe.
sai das mãos dos pedagogos e está para entrar no período da atividade política. O
cuidado de si aparece, assim, não como uma função geral de toda a existência, mas
como um momento necessário na formação do jovem que tem como destino a ação
política.148
Alcibíades eclode com a urgência de ter que se ocupar com a cidade e se consagrar
à vida política. Tem segurança para fazê-lo por causa de seu status, mas por não
é este eu enquanto sujeito, este eu que devo ocupar-me, a fim de poder governar,
janeiro, na qual é dito que a expressão ocupar-se consigo mesmo “quer designar a
rodeia, aos objetos de que dispõe, como também aos outros com os quais se
147
Cf. Foucault (2004, p. 48).
148
Ibidem, p. 48-49.
113
relaciona, ao seu próprio corpo e enfim a ele mesmo”.149 Assim procura definir o que
é o si mesmo que devemos nos ocupar. Com o si mesmo não se queria designar a
mesmo.150
princípio ético para toda a existência, não o sentido pedagógico e político do texto de
cuja compreensão Foucault se dedica em seus últimos cursos, até o fim de sua vida,
uma vez, a referência ao gnôthi seautón, ao preceito délfico, e mais uma vez o
149
Cf. Foucault (2004, p. 71).
150
Idem.
114
Foucault:
Desta feita então, temos o gnôthi seautón, por assim dizer em todo
longa história do cuidado de si, e que terá um forte peso ou, pelo
e romana.151
importa e nenhum dos dois elementos deve ser considerado em proveito do outro,
alma que conhece a si com o divino, relação que tem efeitos pedagógicos e políticos
151
Cf. Foucault (2004, p. 84-85).
152
Ibidem, p. 87.
115
sabemos agora que poderemos governar e que aquele que tiver feito
agora a estabelecer estas três relações conforme ao que está dito na aula de 13 de
janeiro de 1982.
governantes ou, ao mesmo tempo, um dever dos governantes, porque eles têm que
como um dever para a vida toda; porém na filosofia grega e no texto que serviu de
duas limitações. A primeira é que para ocupar-se consigo é preciso ter capacidade,
tempo, cultura etc. A segunda limitação é que o ocupar-se consigo tem por
finalidade fazer do indivíduo que tem esta tarefa alguém diferente em relação à
portanto, sem tempo para o cuidado de si. Ocupar-se consigo é uma atividade
153
Cf. Foucault (2004, p. 90).
116
de algum modo, pertence a uma elite moral almejada pelos filósofos e exigida
àqueles que exercem ou vão exercer em função de sua origem social a ação
política; portanto, devem preparar-se para tal função. Vemos assim que o cuidado
preparação pedagógica.154
aprender ainda que tardiamente a prática do cuidado de si. Terão necessidade dela
tanto o jovem que tivera uma precária educação quanto o velho que chegara à
maturidade sem aprender como cuidar de si. É preciso ocupar-se consigo por toda a
ocupar-se consigo não visa a ação política, é uma preparação moral que deve
acompanhar o homem por toda a sua existência até a velhice, época da vida em que
já é tarde demais para adquirir tal preparação, e para qual devemos está
muito nítido em Platão; porém, pouco a pouco, ele se dissocia e a erótica dos
uma relação com o que é denominado mestre do cuidado. Foi o que aconteceu à
154
Cf. Foucault (2004, p. 94).
155
Ibidem, p. 95.
117
época helenística e romana, com exceções que Foucault destaca, em que a relação
com o mestre, revelada nas correspondências, é mais que entre mestre e discípulo,
é de dois amantes.156
Com a demarcação dos séculos I e II, Foucault passa a cobrir um período que
vai do estoicismo romano, desenvolvido por Musonis Rufus, até Marco Aurélio, ou
período foi escolhido porque, em seu modo de ver, constitui uma verdadeira idade
sem condição de status. Não é mais uma prerrogativa dos jovens que exerceriam o
poder.
poder político. Ocupar-se consigo é uma atividade que tem valor por si mesmo e
156
Cf. Foucault (2004, p. 95-96).
157
Ibidem, p. 101.
158
Ibidem, p. 103.
118
elementos. O epimeleia heatoû significa bem mais que uma atitude de espírito.
propósito do cuidado de si que vai além desse olhar dessa vigilância necessária
torno de si mesmo, ou voltar-se para si. E assim apresenta uma série de expressões
para designar este giro em torno de si: “retirar-se em si, recolher-se em si, ou ainda
domínio e soberania como ser mestre de si, quer se trate de sensações tais como
Sêneca e Epicteto e servem para mostrar como o cuidado de si, tal como
159
Cf. Foucault (2004, p. 104-105).
160
Ibidem, p. 105.
161
Ibidem, p. 105-106.
119
demarcado, este ocorre segundo dois eixos e duas dimensões. Primeiro, é extensivo
permanente que deve durar a vida toda do indivíduo; durante toda a vida deve-se ter
cuidados com a própria alma. Daí a expressão: “Nunca é demasiado cedo nem
demasiado tarde para ter cuidados com a própria alma”.162 A atividade de ter
cuidados com a própria alma deve ser praticada quando se é jovem e quando se é
velho. Porém, dependendo do período que se está na vida, esta atividade possui
também uma relação pessoal com o mestre do cuidado, e como exemplo são
cuidado de si, que envolve uma formação obtida em uma escola, é citada a escola
de que agora não é visando o exercício da prática política, mas qualquer atividade
profissional, uma vez que a formação é para vida. São apresentados os seguintes
162
Cf. Foucault (2004, p. 108).
163
Ibidem, p. 108-109.
120
de si.164
um aspecto corretivo, que, segundo o modo de ver foucaultiano, torna-se cada vez
E assim resume: “na prática de nós mesmos, devemos trabalhar para expulsar,
expurgar dominar este mal que nos é interior, nos libertar e nos desembaraçar dele”.
E acrescenta:
164
Cf. Foucault (2004, p. 115).
121
formar: deve também e principalmente corrigir um mal que está lá. 165
com maior razão o espírito humano, que é flexível, poderá também ser
endireitado”.166
aproximação se inicia desde que a prática de si passa a ter como função maior
corrigir, reparar, restabelecer um estado que nunca talvez tenha existido, mas cujo
medicina.167
165
Ibidem, p. 116.
166
Ibidem, p. 116-117.
167
Cf. Foucault (2004, p. 119).
122
si mesmo.168
atividade do filosofar será uma terapia para alma. O indivíduo deve procurar as
escolas de filosofia a fim de poder curar sua alma de feridas. A escola de filosofia é
e com o corpo.
II é a nova importância e o novo valor que a velhice passa a ter. Na cultura antiga, a
ambíguo.
velhice era honrosa, mas não desejável. O que ocorre a partir dos séculos I e II é
168
Ibidem, p. 120.
169
Cf. Foucault (2004, p. 134).
123
vida bem cuidada. Nesta forma de prática de si, o idoso tem uma nova definição:
aquele que liberado de todos os desejos físicos, livre de todas as ambições políticas
a que agora renunciou, tendo adquirido toda a experiência possível, o idoso será
significado.
bem preparada por uma longa prática de si, é o ponto em que o eu,
preparar para uma velhice ideal, vista como uma conquista e não como um fardo
que devemos enfrentar. “Deve-se viver para ser velho, pois então que se encontrará
a tranquilidade, o abrigo, o gozo de si. [...] Deve-se consumar a vida antes da morte,
deve-se completar a vida antes que chegue o momento da morte, deve-se atingir a
ampliação da prática do ocupar-se consigo. Esta passa a não mais ser uma
170
Ibidem, p. 135.
171
Idem.
172
Cf. Foucault (2004, p.137).
124
consigo mesmo e ponto final. Isto significa que o cuidado de si parece surgir como
espécie de lei ética universal. Também, o cuidado de si não pode ser considerado
na cultura helenística e romana como uma espécie de lei geral. Quanto a isto são
consigo, caso não se tenha uma vida em que se possa ter ócio. Esta forma de vida
afirmado como uma lei universal válida para todo indivíduo, qualquer
173
Ibidem, p. 138.
174
Cf. Foucault (2004, p. 139).
125
epicuristas.175
como ser humano enquanto tal que se cuida de si; este cuidado dá-se sempre e
todos, mas de fato poucos são capazes de ocupar-se consigo. Os motivos são
De tudo o que foi dito sobre o cuidado de si, no curso de 1982, fica a ideia de
que o cuidado de si é uma prática de poucos, apesar de toda a importância que teve
175
Ibidem, p. 140.
176
Ibidem, p. 141-142.
177
Ibidem, p. 146.
126
conquista, não é fácil, exige muito de quem se dispõe a efetivá-lo; não é para
qualquer um, e os filósofos que se tornaram mestres do cuidado são pessoas que
dos modos de vida adotados pela maioria, afirmando, desse modo, uma vocação
não universal do princípio, mas uma vocação particular que implica em modos de
estas práticas de si se relacionam com uma severidade moral que marca este
moralização feita de uma forma mais ou menos autoritária pelo poder político. De
outro lado, temos os textos dos primeiros séculos, em que encontramos menos
interdições sobre os atos do que uma insistência sobre a atenção que se deve ter
código que define os atos proibidos, mas de uma intensificação da relação consigo
tornou-se o cerne de uma arte da existência nos séculos I e II. Esse tema foi se
178
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade III. O cuidado de si. 1995, p. 46-47.
127
dimensões e formas de uma cultura de si. Esta expressão, cultura de si, significa
cuidado de si, qualidade a qual ele já havia afirmado no curso de 1982. O cuidado
de si de tornou-se, em resumo:
disponível para si próprio. Mas, segundo Foucault, é com Epicteto que se atinge a
mais alta elaboração filosófica do tema do cuidado de si. “O cuidado de si, para
todo o tempo e durante toda a vida. Aperfeiçoar a própria alma com a ajuda da razão
é uma regra igualmente necessária para todos os homens. E um dos preceitos que
179
Cf. Foucault (1995, p. 50).
180
Ibidem, p. 53.
128
orienta este cuidado é que “nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para
príncipe que vela pelos seus súditos, os cuidados que se deve ter
a si. Esse tempo reservado a si pode ser fixado no decorrer do dia ou da noite. O
quanto Epicteto e Marco Aurélio fazem referências a este tempo dedicado a si. É
para, por exemplo, pôr em prática um exame de consciência, que é uma das
Segundo Foucault, esse tempo dedicado a si não é vazio, mas sim povoado
181
Cf. Foucault (1995, p. 53).
182
Ibidem, p. 55-56.
183
Ibidem, p. 56.
129
solicita-se conselhos, ou eles são fornecidos àqueles que deles necessitam. Enfim,
que implica uma verdadeira prática social. O cuidado de si não constitui um exercício
Foi no quadro desta cultura de si, de seus temas e de suas práticas que foi
desenvolvida, nos primeiros séculos de nossa era, a reflexão da moral dos prazeres
sexual enquanto substância ética é sempre da ordem da força, da força contra qual
é preciso lutar e sobre a qual o sujeito deve assegurar sua dominação; neste
184
Cf. Foucault (1995, p. 56-57).
185
Ibidem, p. 59.
186
Ibidem p. 72.
130
Todo esse trabalho que é preciso realizar sobre si, através de exercícios e
sobre si mesmo, sobre suas ações, sobre seus desejos. Aqui as práticas de si são
fundamentais para que o homem torne-se sujeito de desejo, e não tão somente
existente sobre o uso dos prazeres mostra que, ao lado das prescrições médicas,
existe toda uma reflexão moral sobre a atividade sexual e seus prazeres, marcando
si que busca estabelecer a plena soberania sobre si. Essa arte de si mesmo já não
insiste nos excessos aos quais é possível entregar-se, ela sublinha cada vez mais a
fragilidade do indivíduo em relação aos diversos males que a atividade sexual pode
forma universal à qual se está ligado e que para todos os humanos se fundamenta
as práticas e todos os exercícios pelos quais se pode manter o controle sobre si.
187
Cf. Foucault (1995, p. 234).
131
CAPÍTULO IV
feitas nos anos de 1975 a 1984. Assim, tivemos uma avaliação do sujeito e das
afasta da visão tradicional que insiste em fazer da filosofia grega uma filosofia do
“sujeito ausente”.
do interesse pela política nos anos de 1980, em virtude do interesse pela ética, ou o
exemplo. A conclusão é que não houve, uma vez que, conforme mostramos, em que
o foco será o próprio modo de fazer filosofia presente na antiguidade, modo que
inspira Foucault e Hadot e marca os estudos que Foucault realiza em seus últimos
escritos.
como base textual o diálogo travado pelos dois e bruscamente interrompido com o
retorno das preocupações políticas nos últimos cursos, como já salientado. E, para
afirmando ter lido os seus livros e estes terem sido de grande valia. Cabe a nós
133
perguntar em que Hadot foi valioso para Foucault? A que livros de Hadot se refere
desvio até a filosofia antiga em virtude de seu projeto genealógico. Ou seja, o projeto
de fazer uma genealogia do poder na modernidade a partir dos anos de 1970 e uma
genealogia da ética a partir 1980. Assim, ao darem livre curso às noções de askesis
estudiosos das obras finais de Foucault. Contudo, não implica em tarefa fácil, já que
Não obstante, sua presença é constante nos textos de 1980, porém de forma
indireta, como de forma indireta aparece nos textos foucaultianos os filósofos, não é
outros filósofos na forma de comentário. Isto não significa que não considere a
os exercícios espirituais têm para Hadot, conforme afirma Francisco Ortega na obra
alusão a uma temática religiosa que leva aos jesuítas e ao fundador da Companhia,
Santo Inácio de Loyola. Comentando o livro de Hadot, que não está preocupado
com religião, Ortega ressalta que a noção de filosofia como exercício é uma
sujeito”, de 1982. A pergunta que pode ser formulada aos dois filósofos é: para que
evadir no céu platônico das abstrações indiferente às coisas desse mundo, o filósofo
188
ORTEGA, Francisco. A amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999, p. 52-53.
189
Ibidem, p. 53.
190
FOUCAULT, Michel. Entretien avec Michel Foucault. In: Dits et écris II. Paris: Gallimard, 2001.
191
FOUCAULT, Michel. À propor de a généalogie de l’ éthique: un aperçu du travail en cours. In: Dits et écrits II.
Paris: Gallimard, 2001.
135
não pode ficar indiferente às implicações práticas de suas ideias, e a filosofia não é
Segundo Ortega, tanto para Foucault quanto para Hadot, a filosofia é uma
ascese, e hoje é importante atualizá-la, mas não em sua acepção cristã e moderna
Ortega, para a pergunta o que é filosofia e para que serve, ambos, Foucault e Hadot,
Contudo, a noção de espiritualidade tem uma fortuna crítica conhecida, por ter
sido identificada pela tradição cristã com a espiritualidade cristã. Este não é o caso
pensamento secular, e assim deverá encontrar para essa noção outros operadores
ponto na sequência.
192
ORTEGA, op. cit., p. 58.
193
Cf. Ortega (1999, p. 58).
136
Jean François Pradeau, em seu texto “O sujeito antigo de ética moderna. Acerca dos
Pierre Hadot reprova é o fato de nas análises da cultura de si, Foucault ter
todos os antigos não um dobrar-se sobre si, mas ao contrário, uma transcendência
ordenar. Transformar-se a si mesmo, na ética antiga, não pode significar nada além
de se conformar a uma ordem que não é individual, nem mesmo humana, mas é
universal.195
essa carência é explicável, porque o recurso ao pensamento antigo que faz Foucault
194
PRADEAU, Jean François. O sujeito antigo de uma ética moderna. Acerca dos exercícios espirituais antigos
na história da sexualidade de Michel Foucault. In: Foucault: a coragem da verdade. Frédéric Gros (org.).
São Paulo: Parábola editorial, 2004, p. 145.
195
Ibidem, p. 138.
137
interesse pelos gregos enquanto tais; seu interesse era traçar uma
retiro.197
elas destaca a entrevista de 1983, com Dreyfus e Rabinow, de grande valor para
definir a concepção de filosofia como prática de vida. A filosofia como arte de viver,
como estética da vida, como estética da existência. Na visão de Hadot, são bem
196
Ibidem, p. 145.
197
Cf. Pradeau (2004, p.145-146).
138
como o exercício de aprender uma arte de viver, em vez de ser apenas aprendizado
de teorias.
filosofia deixa de ser vista como um trabalho de si sobre si. Hadot esclarece que
essa ruptura ocorre na Idade Média, o momento em que a filosofia deixa de auxiliar
A partir de Descartes o sujeito para ter acesso à verdade não precisa realizar um
verdade, o suficiente é o método, este é que importa, pois qualquer sujeito é capaz
que podemos dizer é que Foucault não fez História da Filosofia, seu projeto foi sobre
genealogia da ética, entendendo por isso um estudo das condutas individuais, que
nas últimas obras e nos cursos, com a genealogia do poder feita nos anos de 1970.
O recuo até a antiguidade representa a busca por uma alternativa à condução das
história não-cartesiana da subjetividade, que deverá dar vazão a noções como prática,
exercício, dispositivo, etc. Como ele mostra no verbete sobre sua filosofia no
Dictionnaire des philosophes, o qual ele assina com o pseudônimo Maurice Florence,
razão pura. Parece, então, que há um liame entre a askesis e a crítica, mas como
entender que o exercício da crítica e da filosofia pode ir adiante sem qualquer tese
doutrinal?
algumas aulas, que serão aqui destacadas, nas quais Foucault ressalta o papel que
como Sêneca e Epicteto. Existe uma estreita relação entre virtude e askesis; como
também uma separação conceitual entre a ascese cristã e a ascese filosófica, como
veremos.
virtude e askesis, esta é apresentada como uma virtude adquirida através de uma
a virtude se adquire por uma askesis é de longa data, é uma ideia encontrada nos
do fenômeno. Existe uma longa história das relações entre máthesis/askesis, entre
filosófica:
198
ORTEGA, Francisco. Amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999,
p. 57-58.
199
Cf. Foucault (2004, p. 382).
141
à verdade.200
problema do sujeito em sua relação com a prática conduz a algo diferente da lei,
seja ela a constituição que governa a polis ou a norma moral que submete o
indivíduo:
verdade, pode permitir ao sujeito não somente agir como deve agir,
significa entendê-la como uma renúncia, como a tradição cristã a entende, renúncias
cada vez mais severas, tendo como alvo e no limite a renúncia a si. 202 A askesis
entre os gregos não tinha como alvo a renúncia a si, ao contrário, implica em um
200
Ibidem, p. 383.
201
Ibidem, p. 385.
202
Ibidem, p. 386.
142
Foucault trabalha com a ideia de que a ascese grega não reduz, ela equipa,
ela dota. Esse equipar, esse dotar é denominado pelos gregos de paraskeué. E o
se produzir.205
paraskeué. Ela implica em uma comparação do sábio com o atleta. Assim como o
atleta, o sábio deve ser mais forte do que o que pode acontecer. Portanto, quem
203
Cf. Foucault (2004, p. 386).
204
Ibidem, p. 387.
205
Idem.
143
suficientes para permitir-nos ser mais fortes do que tudo que possa
A formação atlética do sábio visa preparar o homem eticamente para não ser
derrubado, não ser menos forte do que todos os golpes com que se possa deparar,
que possam ser desferidos pelas circunstâncias ou pelos outros, inclusive pelo
destino e a fortuna.
Foucault afirma que esta noção de paraskeué nos permite distinguir o atleta
um progresso em direção à santidade, para tanto deve voltar-se para uma vida
espiritualidade antiga têm de estar prontos para uma luta frente ao advindo do
constituição. Pergunta-se sobre do que é feito este equipamento que devemos nos
dotar e que permite responder sempre que necessário. Ele é constituído pelos lógoi
(discursos). E por lógoi é preciso entender mais que uma série de proposições, de
206
Ibidem, p. 388.
207
Cf. Foucault (2004, p. 389).
144
dizerem o que é verdadeiro ou o que precisa ser feito; eles são mais que ordens
208
Idem.
209
Ibidem, p. 390.
145
exercício para a vida, impedindo que a alma seja atingida quando chegar algum
infortúnio. Desse modo, o si mesmo se encontra dotado de um logos que faz parte
um retorno a si, uma preocupação com o sujeito, enquanto sujeito de ação que
constitui sua subjetividade a partir de suas ações. Por outro lado, a ascese cristã é
uma renúncia de si, em função da conduta ser submetida a preceitos revelados pela
ascese grega é filosófica, visa a preparação do sujeito para agir eticamente e está
filosófica é uma ascese da prática de si, o objetivo último não é uma renúncia a si;
possível, tendo como fim a sua própria existência.211 O segundo argumento afirma
que na ascese filosófica não se trata de regrar a ordem dos sacrifícios, da renúncia
210
Cf. Foucault (2004, p. 390-391).
211
FOUCAULT, op. cit., p. 400.
146
dotar-se do que se tem, ou possui por natureza; enfim, de constituir para si mesmo
aspecto, que define a ascese filosófica, a ascese da prática de si, não tem por
ascese filosófica212, bem mais do que a mera ginástica intelectual e a busca de uma
maior têmpera, e assim ele resume a ligação da ascese filosófica com o discurso
verdadeiro:
mas no sentido laico e secular. O laço esquecido não é senão o laço entre o homem
humano (kairós), depois de ter sido desfeito e distanciado pela ideia de método na
modernidade.
a última fase de suas pesquisas como sendo uma genealogia da ética, podemos
político como tema de suas preocupações, de modo que é possível dizer que ocorre
textos que marcam esse retorno ao político ao qual nos referimos aqui. E, para se
de si. Esse outro é o mestre de si, o diretor de consciência. Como diz Gros: “No
mim mesmo, a não ser por um outro que me exorta e me arranca de uma alienação
primeira”.215
sujeito cristão:
214
GROS, Fréderic. A parrhesia em Foucault (1982-1984). In: Foucault: a coragem da verdade. São Paulo:
Parábola Editorial, 2004, p. 155.
215
Ibidem, p. 156.
149
que o discípulo é quem desta vez deve calar. Como esclarece Gros: “O diretor de
existência antiga se caracteriza, com efeito, por uma tomada da palavra direta,
franca e que faz valer, para autenticar a verdade do que ele defende, sua própria
dizer verdadeiro do parrhesiasta e o bem dizer do retórico. Esta oposição pode ser
político pelo menos nos dois últimos anos de suas pesquisas. Conforme o
216
Idem.
217
Cf. Gros (2004, p. 156-157).
218
Ibidem, p. 157.
150
enunciar uma verdade que constitui uma convicção pessoal, ao passo que o
persuasão)”.219
verdade que pode ferir ao outro e que assume o risco de uma reação
positivos, a parrhesia se opõe a estas três formas de abordagens por ser uma
palavra proferida em público. Tem, portanto, uma dimensão política. Assim definida
outro, gera para ele risco, o perigo de uma reação violenta do destinatário”.220
seus cursos de 1982 a 1984. Sendo que a parrhesia política merece ser destacada
219
Idem.
220
Cf. Gros (2004, p. 158).
151
esta crise, merece ser destacada a aula de 8 de fevereiro de 1984, na qual Foucault
autocrática.
de morte e sempre se deparando com o seu contrário, a lisonja, que parece tomar
conta das democracias com a presença nefasta dos bajuladores, como diz Gros com
221
Ibidem, p. 159.
222
Cf. Gros (2004, p. 160).
152
da verdade”:
governar.223
Foucault se preocupou com a ética, mas também retorna a questões políticas com a
223
FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade: o governo de si e dos outros II. Curso do Collège de France
(1983-1984). São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. 57.
153
através de um éthos. Resta saber se, mais além da cisão entre a parrhesia e a
bajulador nas democracias, tal visão é final e se todo o comércio entre a retórica e a
linear, Foucault mudou a direção de suas pesquisas algumas vezes, fato que
continuidades. Isto é explicado pelo fato de, apesar das inflexões e dos
se desenvolve, visto que ele não abandona o interesse pelo sujeito. Em certos
momentos o foco é o sujeito que produz saber, então é o sujeito epistemológico que
o interessa. Em outros momentos, o foco passa a ser o sujeito que sofre efeitos do
ação que constitui sua subjetividade através de seu agir ético, e é o sujeito ético ou
Vale afirmar que é o sujeito, por que não dizer o homem, o interesse
políticas ou éticas é com o anthropos que está preocupado, embora tenha como
referido por nós, o homem o interessa sim, o homem enquanto forma e relação, não
tendo, portanto, uma essência, mas o resultado do embate entre poder e resistência.
filosófico de Foucault.
entrelaçadas, como ocorre nos dois cursos finais. Infelizmente, esta fase foi apenas
interesse epistemológico parece predominar nas obras de 1961, 1963, 1966, e 1969,
proposições científicas, ele prefere ficar com arqueologia e trabalhar conjuntos mais
amplos, reunidos frouxamente sob o vocábulo saber, indo da magia, passando pela
ciência, à filosofia.
poder.
acontecimentos, não temos controle sobre eles, são contingentes, e podemos dizer
justamente para que eles, na sua riqueza, na sua imprevisibilidade, não tragam
É por isso que existe sempre uma reserva, um medo do discurso livre. Medo que
resistir, de surpreender.
com o tema do poder que marca os trabalhos desse período, em busca de uma
vontade de saber, obras que evidenciam uma preocupação com a questão do poder,
tomando como eixo as relações interpessoais, e que também se faz presente nos
Um ponto de partida adotado por Foucault, para que se faça uma “genealogia
“dispomos da afirmação de que o poder não se dá, não se troca nem se retoma,
mas se exerce, só existe em ação, como também da afirmação de que o poder não
157
politicamente, para que a resistência não possa se dar. Mas, como disse Foucault,
vieram.225
Algo parecido já tinham dito Marx, Maquiavel e Hobbes antes, que também
veem no poder uma relação de força e de dominação, com a diferença de que eles
Foucault se preocupa com a micropolítica (microfísica, dirá ele) e o poder miúdo que
biopoder.
pesquisas. O que faz continua sendo genealogia, só que com uma alteração na
224
FOUCAULT, Michel. Genealogia do poder. In: Microfísica do poder. 13. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998, p.
174-175.
225
DELEUZE, Giles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 96.
158
por volta do século XVI até nossa modernidade, nos séculos XIX e XX. Quando
mesmo apenas político, mas o sujeito ético, indivíduo que se constitui a si mesmo
indivíduo e do filósofo moderno fizeram água e não prestam ajuda a mais ninguém:
ética das virtudes, ética deontológica, ética utilitarista, ética cristã. Uma característica
226
MUCHAIL, Salma Tannus. Foucault, simplesmente. Textos reunidos. São Paulo: Loyola, 2004.
159
do seu modo de fazer filosofia é não fazer filosofia ao modo do comentário, nem da
francês que recebe ascendência dos dois pensadores alemães. Nessa abordagem,
está ao lado de filósofos como Deleuze e Derrida e, diferente deles, não escreveu
nenhuma obra de história da filosofia. O que fez denominou de História dos sistemas
originalmente em inglês, repete ele uma vez mais o que fez em suas pesquisas e
como ele precisará em outros estudos, que o sujeito cria a respeito de si mesmo.
Como diz: “Tendo estudado o campo do poder tomando como ponto de partida as
227
FOUCAULT, Michel. Sexualidade e solidão. In: Michel Foucault. Ética, sexualidade e política. Ditos &
escritos v. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, p. 95.
160
partida passa ser a ética, mas com objetivos voltados para a política ou pelo menos
capazes de abrir-se à política, que retoma claramente nos cursos de 1983 e 1984, e
pensamento de Foucault afirmam, para além das recorrências, que seu pensamento
ruptura acaba por mostrar uma forte coerência do projeto foucaultiano. De fato,
161
poder, uma vez que o tema que orienta Foucault tanto na obra de 1976 como nas
pensar, de falar e de agir ou estar. Este pensamento da diferença acaba por nos
Referindo-se certa vez a Foucault a quem tanto admirava, Deleuze diz que o
pensador ilustre, mais velho do que ele e sempre meio distante, era fascinado pelos
– era antidialético, visto que, ao trabalhar as polaridades, ele não buscava encontrar
228
REVEL, Judith. Foucault, une pensée du discontinu. Paris: Mille et une, 2010. p. 305-308.
162
contexto filosófico francês, Foucault dirá que há dois tipos de filosofia comumente
linguagem de Oxford. Também Foucault faz análise da linguagem, chamada por ele
de salão.229
estabelecer a ponte entre a unidade linguística e a ação a que ela está encadeada,
discursivas, práticas de poder, etc. Daí uma pequena, mas importante diferença
trata-se de fazer ascese, sim, e toda ascese é um exercício ou uma ginástica, mas
uma ascese que visa a elevação espiritual de quem a pratica e a construção de uma
a discussão, resultando numa mente mais forte ou com melhor têmpera. Junto com
o exercício será preciso encontrar a crítica e a ideia, o que faz de Foucault não o
descontinuidades e da suspeita.
229
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 2º edição, Rio de Janeiro: Nau Editora, p. 139.
164
nosso século: nem o programa fregeano que muitos veem ter sido
Não iniciou um programa filosófico; sua obra torna-se cada vez mais
nome.230
Nietzsche e Heidegger para suas pesquisas, o uso que fez da História da Filosofia
230
RAJCHMAN, John. Foucault: a liberdade da filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987, p. 85.
165
jamais foi na forma de comentário ou de recensão histórica, que, segundo sua visão,
tanto com a História da Filosofia como com a história propriamente dita. Para muitos,
isto lhe valeu o título de historiador, embora o que fez denominou de História dos
Tal afirmação serve para tornar clara a ideia de que para Foucault o papel da
presente tal como ele deixa entrever na Ontologia do Presente sirva de pretexto para
Foucault numa outra perspectiva, diferentemente da via usual, que lhes reservará a
231
Cf. Rajchman (1987, p. 87).
166
históricos e textos literários, reforça a ideia que, para o pensador francês, a filosofia
não é uma doutrina, mas uma caixa de ferramentas, como ele diz. Seguindo esse
com a gênese de um pensamento ou de uma doutrina (influências, etc); ele não faz
perguntando pelo sentido da obra; ele vai além e o indaga como filósofo, colocando
seus problemas, abrindo seu próprio caminho e não hesitando até mesmo em
instrumentalizar e falsear Nietzsche, cujo resultado é pois um algo mais que diz
muito do seu modo de fazer filosofia. Ou, pelo menos, daquilo que ele costumou
pensamento”, bem como daquilo que no artigo assinado com o pseudônimo MF,
várias vezes citado por nós, ele chama de “história crítica da razão” à la Kant.
Todavia, mais do que Kant, é no confronto com Nietzsche que Foucault mostra
como ele concebe a natureza da filosofia e da prática filosófica, como viu Rajchman:
também o modo como queria ser tratado pela filosofia e os filósofos. Foucault não
pretendeu fazer escola, manifestou o desejo que seus textos fossem usados como
caixa de ferramentas para pensar a atualidade, por entender que a filosofia deva ser
233
Cf. Rajchman (1987, p. 98).
168
constatar que os livros de Foucault não podem ser considerados nem como tratados
de filosofia, nem como estudos históricos; sua filosofia revela um olhar atento sobre
escritos finais, traz uma reabilitação da ideia da filosofia como askesis, muito
próxima da ideia da filosofia como modo de vida, como afirma Pierre Hadot em obra
de Foucault:
234
De acordo com Foucault, citado por MUCHAIL, Salma Tannus. Foucault, simplesmente. Textos reunidos.
São Paulo: Loyola, 2004, p. 93.
235
Referência ao livro de HADOT, Pierre. La filosofia como forma de vida. Conversación con Jeanne Carlier y
Arnould L. Davidson. ALPHA, Decay, [s.d].
169
Com base no que foi dito pelos estudiosos do pensamento de Foucault aqui
citados e pelo próprio pensador, podemos concluir que Foucault teria aberto um
236
RAJCHAMAN, John. Foucault: a liberdade da filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987, p. 105.
170
5 CONCLUSÃO
Este trabalho teve como foco central a questão do sujeito em Foucault na fase
universais antropológicos, pois para ele os sujeitos não têm uma essência, eles se
que significa modernidade para Foucault, configurada a partir do século XVII até os
dias atuais. E significa uma atitude, não um período da história. Em sintonia com o
que pensa Kant e as artes, para Foucault a modernidade significa uma atitude crítica
que conduz à elaboração de si. A atitude moderna não aceita a si mesmo tal como
se é no fluxo dos momentos que passam ou que nos levam de roldão; ao contrário,
turbilhão das sensações: tal vai ser, afinal, a função da ética, da política e direito –
poderíamos dizer.
analisada pelo pensador francês se caracteriza não por uma atitude de maioridade
este poder e sofrer sua ação, posto que os indivíduos são constituídos por redes de
171
contrariar o ideal de modernidade das luzes e a entendida como uma atitude frente
modernas sociedades normatizadas substituíram a lei pela norma, o que existe são
dificultando para aquele que decide assumir uma atitude crítica, porquanto terá de
se confrontar não com uma lei, mas com uma verdade como norma.
característico das sociedades modernas, onde quase todos buscam estar de algum
modo enquadrados naquilo que é tido e aceito como normal, como padrão, pondo
pela liberdade de ser diferente; visa obter uma etiqueta de normal, portanto, aceito
vida, com o intuito de controlar todos os seus espaços; todavia, ao lado desse
sustentação na afirmação do sujeito ético, tema de sua preocupação nos anos 1980.
subjugação, tanto de forma ética como política. Damos ênfase ao enfoque ético e
escritos finais.
Foucault faz inúmeras referências, nos seus escritos de 1980, a uma invenção de si,
como objeto de elaboração, porquanto seria esta a relação que devemos manter
que em uma atitude ética. Existe assim uma correlação entre o ético e o político
Nesse sentido, é possível inferir que o problema não está nas formas de
governo modernas, que tiram a autonomia do homem diante delas, das quais não se
pode esquivar-se, tendo em vista duas alternativas: ou cede ao governo dos outros
predominante ser as práticas morais da antiguidade, ele não pode ser considerado
um pensador ético; e por também não apresentar uma teoria política, um projeto
político definido, não pode ser considerado um filósofo político no sentido estrito.
talvez. Mas em relação à ética, esta é pensada como uma prática, um êthos, uma
partir da cultura de si: é o que demonstra Gros ao afirmar que Foucault não
abandona o político para se dedicar à ética, o que faz é compilar o estudo das
Nessa ordem, o capítulo final não foi dedicado ao tema do sujeito conforme
tratado nos capítulos anteriores. O foco desta seção foi expor o modo de fazer
174
vida. Nesse sentido, faz uma espécie de recuperação da filosofia como askesis em
seus escritos finais. O que faz Foucault valorizar a filosofia como askesis no sentido
os limites de nossa maneira de pensar, de falar, de agir ou estar, e o faz para aceitar
o risco da diferença.
Por fim, podemos dizer que o grande desafio intelectual que se permitiu
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