Why Read Nietzsche Oswaldo Giacoia
Why Read Nietzsche Oswaldo Giacoia
Why Read Nietzsche Oswaldo Giacoia
Sem extravasar os limites dos livros desta série, Folha Explica Nietzsche se
propõe a ser uma apresentação geral do homem e do filósofo Friedrich Nietzsche. Seu
objetivo é fazer com que o leitor se familiarize com os conceitos, as figuras e o estilo de
Nietzsche — não para depois encerrá-los em qualquer câmara da memória, mas sim
para despertar seu interesse e estimulá-lo a seguir adiante. Aceitar o desafio de
Nietzsche implica, sobretudo, pensar independentemente; e por isso, ás vezes, também
contra Nietzsche.
1Heidegger. "Wer ist Nietzsches Zarathustra?"; em: Vorträge und Aufsätze. Pfullingen: Neske Verlag, 1954; p. 102.
2 Epígrafe de A Gaia Ciência; em Nietzsche. Obra Incompleta. Trad. Rubem Rodrigues Torres Filho. Col. Os
Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974: p 195.
1. A CRISE DOS VALORES
3Logos: palavra grega que significa "palavra", "discurso" e "razão"; termo que dá origem à palavra lógica e que, em
sentido amplo, é equivalente à racionalidade.
conhecimento leva á perda de consistência dos valores absolutos; a partir daí, denunciar
todas as formas de mistificação pelas quais o homem moderno oblitera sua visão dos
perigos de sua condição; por fim, destruídos os falsos ídolos — e esses são os valores
mais venerados pelo homem moderno — assumir corajosamente o risco de pensar novos
valores, abrir novos horizontes para a experiência humana na história.
Nietzsche viveu e pensou em profundidade a crise que se abatia sobre a
Europa ao final do século 19. Filha de seu próprio tempo, sua obra submete a uma
crítica impiedosa todas as esferas da cultura. Porém, ao exigir do homem moderno que
tome consciência das conseqüências, das possibilidades e dos limites de seu saber e agir,
Nietzsche coloca questões que até hoje prosseguem conosco. Num de seus mais belos e
célebres textos, põe em cena o drama de nossa condição:
"Não ouvistes falar daquele homem louco que, em plena manha clara, acendeu
um candeeiro, correu para o mercado e gritava incessantemente: 'Procuro Deus!
Procuro Deus?'— E, como lá se reunissem justamente muitos daqueles que não
acreditavam em Deus, provocou ele então grande gargalhada. 'Perdeu-se ele, então?',
dizia um. 'Ter-se-ia extraviado, como uma criança?', dizia outro.'Ou se mantém oculto?
Tem ele medo de nós? Embarcou no navio? Emigrou?' — desse modo gritavam e riam
entre si. O homem louco saltou em meio a eles e trespassou-os com o oUiar. 'Para onde
foi Deus?', clamou ele,'eu vos quero dízê-lo! Nós o matamos, vós e eu! Nós todos somos
seus assassinos? Como, porém, fizemos isso? Como pudemos tragar o oceano? Quem
nos deu a esponja para remover o horizonte inteiro? Que fizemos nós quando
desprendemos esta Terra de seu sol? Para onde se move ela, então? Para onde nos
movemos nós? Longe de todos os sóis? Não nos precipitamos sem cessar? E para trás,
para o lado, para frente, de todos os lados? Há ainda um alto e um baixo? Não erramos
como através de um nada infinito? Não nos bafeja o espaço vazio? Não ficou mais frio?
Não vem, sem cessar, sempre a noite e mais noite? Não se tem que acender candeeiros
pela manhã? Nada ouvimos ainda do rumor dos coveiros,que sepultam Deus? Nada
sentimos ainda do cheiro da decomposição divina? — também os deuses se
decompõem! Deus morreu! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como é que nos
consolamos, nós os assassinos de todos os assassinos? Aquilo de mais santo e poderoso
que o universo possuiu até agora sangrou sob nossos punhais — quem enxuga de nós
esse sangue? Com que água poderíamos nos purificar? Que cerimônias de expiação,
que divinos jogos teríamos de inventar? A grandeza desse feito não é demasiado grande
para nós? Não teríamos que nos tomar, nós próprios, deuses, para apenas parecer
dignos dele? Jamais houve um feito maior — e sempre quem tenha apenas nascido
depois de nós pertence, por causa desse feito, a uma história mais elevada do que foi
toda história até agora!' — “Aqui, calou-se o homem louco e mirou de novo seus
ouvintes. Também estes silenciavam e olhavam-no com estranhamento. Finalmente, ele
arrojou o candeeiro ao solo, de modo que este se estilhaçou e apagou.'Chego cedo
demais', disse ele então; 'não estou ainda no tempo oportuno. Esse acontecimento
formidável está ainda a caminho e peregrina — ele ainda não penetrou nos ouvidos dos
homens. Relâmpago e trovão precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo,
feitos precisam de tempo, mesmo depois de consumados, para serem vistos e ouvidos.
Este feito está ainda mais distante deles do que os astros mais remotos —, e todavia eles
o consumaram'. Conta-se ainda que, no mesmo dia, o homem louco teria entrado em
diversas igrejas e nelas entoado seu requiem aetemam Deo. Conduzido para fora e instado
a falar, teria ele replicado sempre apenas isto: 'O que são, então, as igrejas, se não criptas
e mausoléus de Deus?” 4
A passagem descreve o sentimento de abandono que, como vazio opressivo,
esmaga a consciência do homem moderno. Os cínicos escarnecedores, reunidos na
praça do mercado, somos também nós, vencedores do combate da ciência contra as
trevas da ignorância. Apenas nós, homens modernos, não estávamos conscientes da
dimensão épica de nosso próprio feito, nada sabíamos da tragédia que
desencadeáramos, nela precipitando nosso mundo.
Friedrich Nietzsche é o pensador a quem coube apreender filosoficamente a
experiência intelectual que marca nosso destino, ao tentar levar até suas conseqüências
extremas o impulso crítico que anima o pensamento filosófico da modernidade. Não se
pode, porém, extrair as últimas conclusões desse impulso crítico sem retomar á sua
origem, isto é, para Nietzsche, á metafísica de Platão. Por essa razão, uma das primeiras
e mais fundamentais tarefas que Nietzsche se atribui é a de refutar e destruir a
metafísica platônica.