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Dissertacao Marcus Vinicius Pelegrini

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MARCUS VINÍCIUS PELEGRINI

ESTUDO DE MATERIAIS PIEZOELÉTRICOS DA FAMÍLIA III-V

OBTIDOS POR SPUTTERING REATIVO VISANDO SUA APLICAÇÃO

EM SENSORES E MEMS

São Paulo
2010
MARCUS VINÍCIUS PELEGRINI

ESTUDO DE MATERIAIS PIEZOELÉTRICOS DA FAMÍLIA III-V

OBTIDOS POR SPUTTERING REATIVO VISANDO SUA APLICAÇÃO

EM SENSORES E MEMS

Dissertação apresentada à Escola


Politécnica da Universidade de São Paulo
para a obtenção do título de Mestre em
Engenharia

São Paulo
2010
MARCUS VINÍCIUS PELEGRINI

ESTUDO DE MATERIAIS PIEZOELÉTRICOS DA FAMÍLIA III-V

OBTIDOS POR SPUTTERING REATIVO VISANDO SUA APLICAÇÃO

EM SENSORES E MEMS

Dissertação apresentada à Escola


Politécnica da Universidade de São Paulo
para a obtenção do título de Mestre em
Engenharia

Área de concentração: Microeletrônica

Orientadora: Profª. Titular


Inés Pereyra

São Paulo
2010
Este exemplar foi revisado e alterado em relação à versão original, sob
responsabilidade única do autor e com a anuência de seu orientador.

São Paulo, de agosto de 2010.

Assinatura do autor ___________________________

Assinatura do orientador _______________________

FICHA CATALOGRÁFICA

Pelegrini, Marcus Vinícius


Estudo de materiais piezoelétricos da família III-V obtidos
por sputtering reativo visando sua aplicação em sensores e
mems /
M.V. Pelegrini. -- ed.rev. --São Paulo, 2010.
127 p.

Dissertação (Mestrado) - Escola Politécnica da Universidade


de São Paulo. Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrô-
nicos.

1. Engenharia elétrica 2. Microeletrônica 3. Processos de mi-


croeletrônica 4. Atuadores piezelétricos I. Universidade de São
Paulo. Escola Politécnica. Departamento de Engenharia de
Sistemas Eletrônicos II. t.
DEDICATÓRIA

Aos meus amados pais Reynaldo


Pelegrini e Solidea Ap. Pelegrini por todo
o amor e carinho a mim dedicados ao
longo de minha vida.
AGRADECIMENTOS

À professora Inés Pereyra pela orientação, estímulo e principalmente pelas

inúmeras conversas, tanto ligadas a assuntos profissionais quanto pessoais, que

muito me auxiliaram no crescimento profissional e pessoal obtido durante esses dois

anos de trabalho de mestrado.

Aos meus pais que tanto amo Reynaldo Pelegrini e Solidea Ap. Pelegrini, aos

meus irmãos Marcelo e Eduardo, aos meus sobrinhos Natalia, Paulo Henrique, Luis

Gustavo, Valentina e Giovana, e a minha namorada Lígia Fernandes por serem

parte tão importante a minha vida.

Aos professores Dr. Marcelo Carreño, Dr. Marco Alayo e Dra. Marcia Fantini

pela ajuda na interpretação dos resultados.

Aos amigos do grupo de Novos Materiais e Dispositivos Dra. Katia Franklin,

Dra. Marcia Ribeiro, Dr. Alessandro Oliveira, Dr. Gustavo Rehder, Me. Hector Baez,

Me. Alexandre Lopes, Me. Daniel Orquiza, Maria Armas, Murilo Mielli e Alexandre

Gollub pela ajuda nas tarefas laborais principalmente pelos diversos momentos de

descontração.

Ao chefe da manutenção do laboratório Pedro Cruz pelas diversas idéias que

muito me ajudaram a desenvolver esse trabalho de mestrado.

Ao pessoal da sala limpa do Laboratório de Microeletrônica: Cristina, João,

Marco, Rita e Tereza, pelo precioso apoio no processamento em sala limpa.

Aos meus amigos Sérgio Marques, Leice Amurin, André Solci, Ricardo

Marques e Camila Previatti que mesmo sem poder me ajudar tecnicamente, me

escutaram, e muito, nos momentos de dificuldade deste projeto.

À FAPESP e ao CNPq pelo apoio financeiro.


“Nenhum homem é uma ilha isolada;

cada homem é uma partícula do

continente, uma parte da terra... E por

isso não perguntes por quem os sinos

dobram; eles dobram por ti”

John Donne
RESUMO

Neste trabalho, apresento um estudo sobre a fabricação e caracterização

físico-química de filmes finos de nitreto de alumínio (AlN) obtidos pela técnica de

pulverização catódica reativa por rádio frequência (r.f sputtering) utilizando um alvo

de alumínio puro. Visto que o AlN é um material que apresenta piezoeletricidade e

compatibilidade com a tecnologia MOS, o objetivo principal desse trabalho é definir

os parâmetros de processo de deposição que resultem em um material com

propriedades adequadas para sua utilização como elemento atuador e/ou sensor em

sistemas micro eletromecânicos (MEMS).

O estudo da influência dos parâmetros de processo foi realizado em três

etapas. Na primeira realizei um estudo preliminar sobre a influência da pressão de

processo e potência de r.f. Na segunda etapa realizei um estudo sobre a influência

da relação entre o gás reativo (N2) e o pulverizante (Ar) nas características físico-

químicas do material. Na 3º etapa estudei o efeito da temperatura de deposição nas

características do filme que apresentou as propriedades mais propícias para

aplicações em MEMS.

Propriedades como índice de refração, composição química e stress residual

não apresentaram grandes variações com a mudança da composição gasosa da

atmosfera de deposição, no entanto, os resultados de difração de raios-X mostraram

que os filmes obtidos com 30% de N2 possuem maior cristalização na direção que

apresenta maior piezoeletricidade, sendo assim, mais favorável para ser utilizado

como sensor/atuador na fabricação de MEMS. No estudo sobre o efeito da


temperatura de deposição verificamos que o filme crescido a 250°C apresentou as

melhores propriedades para as aplicações em MEMS desejadas.

Para finalizar o trabalho a constante piezoelétrica de carga foi obtida utilizando

capacitores de placas paralelas de molibdênio e o AlN como dielétrico, obtendo um

coeficiente piezoelétrico de carga d33 de 0,5 pm/V.

Palavras chave: Nitreto de alumínio. Sputtering reativo. Piezoeletricidade e

MEMS
ABSTRACT

I present a study on the production and physicochemical characterization of

aluminum nitride thin films (AlN) obtained by r.f. reactive magnetron sputtering, using

a target of pure aluminum. Since AlN is a material that presents piezoelectricity and

compatibility with MOS technology, the main objective of this work is to define the

process parameters that will result in a material with properties suitable for its use as

an actuator / sensor in micro electromechanical systems (MEMS).

The process parameters influence study was performed in three steps. First I

conducted a preliminary study on pressure process and rf power influence. In the

second step was studied the influence of the reactive (N2) and sputtering (Ar) gas

ratio on the material physical and chemical properties. Last but not least, I studied

the temperature deposition effects in the AlN thin film obtained in the gas ratio which

presented the most favorable properties for MEMS applications.

Properties such as refractive index, chemical composition and residual stress

did not show considerable variations with changing in the atmosphere deposition,

however X-ray diffraction results showed films obtained with 30% N2 have higher

crystallization in (002) direction, which is the one with greater piezoelectricity

response and thus, more favorable to be used as sensor / actuator in MEMS

fabrication. The study on deposition temperature effects has shown maximum (002)

crystallization direction is achieved in films grown at 250° C.

Piezoelectric coefficient was defined using parallel plate capacitors method

using AlN as dielectric resulted in a d33 piezoelectric coefficient of 0,5 pm/V.

Keywords: Aluminum nitride, Reactive sputtering, Piezoelectricity and MEMS.


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1-1 – Diagrama esquemático de uma micro-bomba (esquerda) e a

fotografia de uma micro-bomba utilizando esse sistema de atuação. .......... 20

Figura 1-2 – Representação de um cristal piezoelétrico em seu estado de

equilíbrio (a), ao ser tracionado (b) e comprimido (c). .................................. 22

Figura 1-3 – Representação cartesiana dos índices piezoelétricos. ............................. 24

Figura 1-4 – Material ferroelétrico antes (a), durante (b) e após (c) a polarização

por uma fonte externa de tensão. ................................................................. 24

Figura 1-5 – Representação das ligações entre os átomos de alumínio e

nitrogênio (a) e da estrutura cristalina Wurtzite de sua célula unitária

(b). ................................................................................................................ 28

Figura 2-1 – Diagrama da câmara de deposição utilizada na fabricação dos

filmes de AlN deste trabalho. ........................................................................ 33

Figura 2-2 – Foto do equipamento de sputtering reativo utilizado na deposição

dos filmes deste trabalho.............................................................................. 34

Figura 2-3 – Representação do degrau definido para a medida de espessura. ............ 37

Figura 2-4 – Espectro típico de FTIR de um filme de nitreto de alumínio

fabricado nesse trabalho. ............................................................................. 39

Figura 2-5 – Representação ilustrativa dos modos vibracionais moleculares. .............. 39

Figura 2-6 – Diagrama esquemático de um interferômetro de Michelson. .................... 40

Figura 2-7 – Diagrama esquemático de um Elipsômetro. ............................................. 43


Figura 2-8 – Espectro ideal de RBS que leva em consideração somente os

fatores físicos(a). Espectro real que leva em consideração as

flutuações estatísticas e os fatores aleatórios(b). ......................................... 46

Figura 2-9 – Representação de um feixe de luz incidente, refletido e transmitido

em uma amostra de espessura d. ................................................................ 47

Figura 2-10 – Representação esquemática da transição entre a banda de

condução e de valência de forma direta e indireta. ...................................... 50

Figura 2-11 – Espectro da emissão de raios-X por um alvo de Molibdênio em

função da tensão de aceleração aplicada ao alvo. ....................................... 55

Figura 2-12 – Ilustração da emissão de raios-X contínuo (a), e do decaimento

eletrônico para emissão de raios-X característico (b)................................... 55

Figura 2-13– Difração de raios-X entre dois planos cristalográficos de um cristal

com parâmetro de rede d. ............................................................................ 57

Figura 2-14 – Difratograma de raios-X de uma amostra de nitreto de alumínio. ........... 58

Figura 2-15 – Exemplo da curva ajustada ao pico de difração referente a

orientação (002). .......................................................................................... 59

Figura 2-16 – Deformação do substrato devido ao stress residual compressivo

ou tensivo. .................................................................................................... 63

Figura 2-17 – Diagrama esquemático do sistema de alavanca óptica utilizada

nas medidas de raio de curvatura do substrato. ........................................... 66

Figura 2-18 – Resposta piezoelétrica em função de um campo elétrico  (a)

sem e (b) com aplicação de campo elétrico externo. ................................... 69


Figura 2-19 – Capacitância em função da frequência de um capacitor fabricado

com dielétrico de AlN. C0 é sua resposta sem aplicar potencial

elétrico dc externo e CV sua capacitância aplicado um potencial

elétrico externo dc de 2 V. ............................................................................ 70

Figura 3-1 – Ilustração da máscara utilizada na litografia para definição dos

capacitores utilizados na determinação do coeficiente piezoelétrico

de carga, e da configuração final dos dispositivos. ...................................... 76

Figura 4-1 – Taxa de deposição em função do fluxo de N2 da 2° série de

deposições obtida por perfilometria e por elipsometria. ............................... 83

Figura 4-2 – Concentração percentual dos átomos de Al e N em função do fluxo

de N2. ........................................................................................................... 84

Figura 4-3 – Espectros de FTIR em função da composição gasosa da

atmosfera de deposição. .............................................................................. 86

Figura 4-4 – Representação da estrutura cristalográfica do nitreto de alumínio e

dos planos cristalográficos (100) e (002)...................................................... 88

Figura 4-5 – Difratogramas dos filmes de AlN em função da composição da

mistura gasosa da atmosfera de deposição. ................................................ 89

Figura 4-6– Exemplo do ajuste de uma curva lorentziana a um pico de difração

de modo a determinar o tamanho de grão cristalográfico e o grau de

cristalização do filme. ................................................................................... 91

Figura 4-7 – Fotos de HRTEM de secção transversal dos filmes 30/70 (a) e

70/30 (b). ...................................................................................................... 93


Figura 4-8 – Índice de refração em função da composição gasosa da atmosfera

de deposição obtido por elipsometria. .......................................................... 95

Figura 4-9– Índice de refração obtido através dos dados de transmitância para

o filme fabricado em uma atmosfera de deposição composta por 20

% de N2 em função do comprimento de onda. ............................................. 96

Figura 4-10 – Coeficiente de absorção em função da energia do feixe incidente

para a amostra 70/30 ................................................................................... 97

Figura 4-11 – Stress residual em função do fluxo de N2 na mistura gasosa. ................ 99

Figura 4-12 – Pontos experimentais da evolução da espessura corroída de AlN

em função do tempo, e reta ajustada aos pontos para determinar sua

taxa de corrosão para TMAH(10%wt) a 80°C. ........................................... 103

Figura 4-13 – MEV das linhas definidas em AlN por corrosão úmida em TMAH. ....... 104

Figura 4-14 – Espectros de FTIR do AlN depositados a 150°, 250° e 350°C

para substrato de Si(100) (a), Si(111) (b). .................................................. 106

Figura 4-15 – Comparação entre os espectros de FTIR do filme depositado a

250°C sobre Si (100) e Si (111). ................................................................ 107

Figura 4-16 – Taxa de deposição em função da temperatura de deposição para

os filmes fabricados com 70sccm de argônio e 30 sccm de

nitrogênio. ................................................................................................... 109

Figura 4-17 – Difratogramas das amostras depositadas sobre (a) Si (100) e (b)

Si (111) a 150°, 250° e 350°C. ................................................................... 111

Figura 4-18 – Comparação entre os difratogramas de AlN depositado sobre Si

(100) e Si (111)........................................................................................... 112


Figura 4-19 – Variação da capacitância em função da tensão aplicada entre as

placas de um capacitor de placas paralelas utilizando o SiO2 como

dielétrico. .................................................................................................... 115

Figura 4-20 – Variação da capacitância em função da tensão aplicada entre as

placas de um capacitor de placas paralelas utilizando o AlN como

dielétrico. .................................................................................................... 115

Figura 4-21 – Vista superior do capacitor fabricado para o estudo da

piezoeletricidado do AlN. Os círculos destacam a presença de

defeitos em sua superfície. ......................................................................... 117


LISTA DE TABELAS

Tabela 2.1 – Diversos conceitos associados a medida do coeficiente

piezoelétrico dxy. ........................................................................................... 67

Tabela 3.1 – Séries de deposição e seus parâmetros de processo. ............................. 74

Tabela 3.2 – Relação dos tipos de substratos utilizados nas deposições. .................... 75

Tabela 4.1 – Parâmetros de deposição da primeira série de deposições e suas

respectivas taxas de deposição.................................................................... 79

Tabela 4.2 – Grau de texturização na direção, e tamanho de grão na direção

(002) dos filmes fabricados. ......................................................................... 92

Tabela 4.3 – Largura a meia altura (FWHM) do pico de absorção referente a

ligação Al-N ................................................................................................ 108

Tabela 4.4 – Grau de texturização e tamanho de grão cristalográfico na direção

(002) dos filmes fabricados sobre Si (100) e Si (111)................................. 113


SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO TEÓRICA E JUSTIFICATIVA ........................................ 18

1.1. O nitreto de alumínio .................................................................................. 26

CAPÍTULO 2 - PROCEDIMENTOS EXPERIMENTAIS .................................................. 30

2.1. A técnica de deposição por Sputtering ....................................................... 30

2.2. Técnicas de caracterização ........................................................................ 34

2.2.1. Perfilometria .............................................................................................. 35

2.2.2. Espectroscopia de absorção na região de infravermelho (FTIR) .............. 37

2.2.3. Elipsometria .............................................................................................. 41

2.2.4. Espectroscopia por retro espalhamento Rutherford (RBS) ....................... 43

2.2.5. Absorção óptica na região do visível......................................................... 47

2.2.6. Difração de raios-X (XRD) ........................................................................ 53

2.2.7. Medida do stress residual ......................................................................... 61

2.2.8. Determinação do coeficiente piezoelétrico................................................ 67

CAPÍTULO 3 - METODOLOGIA .................................................................................... 73

CAPÍTULO 4 - RESULTADOS E DISCUSSÃO.............................................................. 77

4.1. Estudo preliminar sobre as condições de deposição do AlN (1ª série

de deposições) .................................................................................................. 77

4.2. Estudo sobre a influência da composição gasosa entre Ar e N2 nas

propriedades físico/químicas do AlN (2ª série de deposições) .......................... 81


4.2.1. Taxa de deposição .................................................................................... 82

4.2.2. RBS........................................................................................................... 83

4.2.3. FTIR .......................................................................................................... 85

4.2.4. Difração de raios X.................................................................................... 87

4.2.5. Índice de refração ..................................................................................... 93

4.2.6. Espectroscopia na região do visível (Uv-Vis) ............................................ 96

4.2.7. Stress residual .......................................................................................... 98

4.2.8. Testes de Corrosão................................................................................. 101

4.3. Estudo da influência da temperatura de deposição nas

características do AlN (3ª Série de deposições).............................................. 104

4.3.1. FTIR ........................................................................................................ 105

4.3.2. Taxa de deposição .................................................................................. 108

4.3.3. Difração de raios-X ................................................................................. 109

4.4. Determinação do coeficiente piezoelétrico de carga dos Filmes de

AlN 113

CAPÍTULO 5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................. 118

5.1. Conclusões ............................................................................................... 118

5.2. Sugestões para trabalhos futuros ............................................................. 120


CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO TEÓRICA E JUSTIFICATIVA

O presente trabalho visa obter e determinar algumas das propriedades físico-

químicas de filmes da família III-V obtidos pela técnica de pulverização catódica

reativa, doravante denominada sputtering reativo, visando o desenvolvimento de

sistemas micro eletromecânicos (MEMS) como sensores e atuadores. As

propriedades físico-químicas dos filmes fabricados foram estudadas pelas técnicas

de absorção no infravermelho por transformada de Fourier (FTIR), elipsometria,

perfilometria, espectroscopia por retro espalhamento de Rutherford (RBS), difração

de raios-X (XRD) e absorção na região do visível (UV-Vis).

Outras características também estudadas nesse trabalho foram o stress

residual e a constante piezoéletrica de carga. Este estudo foi realizado junto ao

Grupo de Novos Materiais e Dispositivos (GNMD), do laboratório de Microeletrônica

do Departamento de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de

São Paulo (LME/PSI/EPUSP).

A motivação em desenvolver esse trabalho esta fundamentada no fato de que

os MEMS vêm adquirindo crescente aplicabilidade em diversas áreas tecnológicas.

Do ponto de vista comercial esses dispositivos já são utilizados em diversas

aplicações como, por exemplo, no acionamento de airbags, por meio de

acelerômetros, em cabeças de impressão de impressoras jato de tinta, além de

apresentar aplicações promissoras nas indústrias médica [1], automobilística, bélica

e de comunicações [2,3]. Estes dispositivos também são utilizados no

desenvolvimento de micro-sensores [4] e micro-atuadores [5], permitindo a interface

homem-máquina na conversão de sinais elétricos em movimento e vice-versa.

18
As estruturas MEMS podem ser classificadas em dois grupos: sensores e

atuadores.

No grupo dos sensores, as estruturas são desenvolvidas de modo a

responderem, em geral, na forma de uma deformação física da estrutura a estímulos

que podem ser tanto físicos quanto químicos. A resposta desses sensores podem

ser observadas através de uma variedade de fenômenos físicos, dentre eles, se

destacam os efeitos ópticos e elétricos. As estruturas e dispositivos desse grupo são

projetados para apresentar mudanças na resistência elétrica (piezoresistividade),

capacitância ou carga (piezoeletricidade), quando sujeitas a uma deformação por

exemplo. Assim, projetando geometrias adequadas, podem ser obtidos dispositivos

(sensores) sensíveis a diversas grandezas como, por exemplo: aceleração, pressão,

temperatura, variação química, fluxo de gases entre outros.

Já os atuadores são dispositivos projetados geralmente para realizar algum

trabalho e seu funcionamento usualmente é baseado em eletrostática,

piezoeletricidade e forças térmicas ou magnéticas. São exemplos de atuadores:

micro-chaves, posicionadores, micro-válvulas e micro-bombas. Esses dispositivos

representam um papel vital para o avanço tecnológico em diversas áreas

principalmente no campo da micro-fluídica [6], onde são utilizados para a fabricação

das micro-bombas, responsáveis pela movimentação do fluído.

Na Figura 1-1 é apresentado um diagrama esquemático de uma micro-bomba

bem como uma fotografia de um sistema micro-fluídico utilizando esse dispositivo.

19
Figura 1-1 – Diagrama esquemático de uma micro-bomba (esquerda) e a fotografia de uma micro-
bomba utilizando esse sistema de atuação [7].

O Grupo de Novos Materiais e Dispositivos (GNMD) vem desenvolvendo

trabalhos na área de MEMS desde 2002, sempre utilizando filmes finos

semicondutores e isolantes obtidos por Deposição Química a Vapor Assistida por

Plasma (PECVD), seja como material estrutural ou como material de sacrifício e/ou

mascaramento durante os processos de fabricação. A motivação para desenvolver

MEMS baseados em materiais PECVD deriva da longa experiência do grupo na

obtenção e otimização destes materiais. Em particular, foram desenvolvidos filmes

com propriedades otimizadas e promissoras para aplicações em MEMS e MOEMS

[8], a saber, filmes de carbeto de silício (a-SiC:H) e oxinitreto de silício (a-SiOxNy), os

quais apresentam baixo stress interno, alta estabilidade mecânica e excelente

seletividade em processos de corrosão química. Desta forma, nos últimos anos

foram fabricadas desde estruturas passivas e genéricas relativamente simples

utilizando uma única foto máscara, como grades, membranas, vigas, cantilevers e

pontes auto sustentadas [9,10,11,12,13], até sistemas mais complexos como

protótipos de micro-motores eletrostáticos [14], sistemas atuados por efeito

20
termoelétrico e que implementam movimento sincronizado (ciliar) [15,16,17], sistemas

de micro-relés ópticos [18] e matrizes de micro-lâmpadas [19].

Tendo em vista a experiência que o grupo de pesquisa adquiriu no decorrer

desses anos na fabricação de MEMS atuados termicamente, é de grande interesse

incorporar novos materiais na produção desses dispositivos, ampliando assim, as

possibilidades de acionamento dessas estruturas, pois uma das maiores

desvantagens do acionamento térmico é a baixa resposta em frequência, limitada

principalmente pela velocidade de dissipação térmica do material utilizado na

fabricação do dispositivo. Dentre as diversas possibilidades de acionamento das

estruturas MEMS, a que me despertou maior interesse foi a atuação piezoelétrica,

devido à possibilidade de fabricação de dispositivos com alto sinal de saída, baixo

ruído e principalmente alta frequência de operação.

O princípio de funcionamento de materiais piezoelétricos é relativamente

simples, baseia-se no fato de que alguns materiais, ao serem expostos a um campo

elétrico, apresentam uma deformação proporcional a esse sinal elétrico, sendo o

inverso também verdadeiro, ou seja, ao se deformar esse mesmo material, ele

produzirá uma variação no campo elétrico que o rodeia [20], como representado na

Figura 1-2. Para ser piezoelétrico o material deve ser cristalino e sua rede

cristalográfica deve possuir assimetria de cargas elétricas, como por exemplo, as

redes hexagonais, a saber, aproximadamente 66% [21] das redes cristalinas

conhecidas têm essa característica, e, portanto, apresentam algum grau de

piezoeletricidade.

Devido ao fato dos cristais piezoelétricos não apresentarem obrigatoriamente

simetria de cargas elétricas [20], ou seja, serem elétricamente anisotrópicos, a

resposta a uma perturbação externa varia tanto com a direção da força em relação à

21
orientação cristalográfica, como com as diversas direções cristalográficas. Dessa

maneira, as constantes físicas (constantes piezoelétricas), que relacionam o tipo de

força aplicada (elétrica ou mecânica) com a intensidade da resposta do material

apresentam dois sub-índices para caracterizá-las: o primeiro representa a direção do

campo elétrico ou a direção de polarização gerada em resposta a um stress aplicado

ao cristal, já o segundo representa a direção de deformação do material em resposta

a um campo elétrico ou a direção da força aplicada no cristal. Geralmente campo

elétrico e polarização são vetores, ou seja, tensores de ordem 1, no entanto

deslocamento e stress são tensores de ordem 2, portanto, a princípio, a descrição

desses tensores seria uma matriz [3x3], porém, como esses tensores são simétricos,

eles podem ser reduzidos de ordem utilizando a notação de Voigt, passando a ser

um vetor de ordem 6, com os pontos reescritos da seguinte maneira [20]:

Figura 1-2 – Representação de um cristal piezoelétrico em seu estado de equilíbrio (a), ao ser
tracionado (b) e comprimido (c).

11 → 1; 22 → 2; 33 → 3; 21 e 12 → 4; 23 e 32 → 5; 31 e 13 → 6

Representando o tensor stress ou deslocamento com a letra S temos:

  


    →       
  

22
Esses sub-índices têm o mesmo princípio do plano cartesiano, no entanto as

coordenadas x, y e z são substituídas pelos números 1, 2 e 3 respectivamente, e os

coeficientes 4, 5 e 6 representam forças de cisalhamento aplicadas aos eixos x,y e z

respectivamente, como pode ser observado na Figura 1-3. A direção de polarização

normalmente coincide com o eixo 3, o qual corresponde com o eixo de maior

parâmetro de rede do cristal.

O coeficiente piezoelétrico de carga é mais usual na definição da

piezoeletricidade de um material, representado pela letra “d”, que define a amplitude

da deformação em função de um campo elétrico, ou a carga gerada em função de

um stress aplicado ao cristal, por exemplo:

• d33 representa a polarização induzida na direção 3 por unidade de

stress aplicado no eixo 3, cuja unidade é Coulomb por Newton [C / N ],

ou o deslocamento gerado no eixo 3 por unidade de campo elétrico

aplicado no eixo 3, em metros por volt [m / V].

• d15 representa a polarização induzida na direção 1 por unidade de stress

de cisalhamento aplicado no eixo 2, cuja unidade é Coulomb por

Newton [C / N ], ou deslocamento de cisalhamento gerado no eixo 2 por

unidade de campo elétrico aplicado no eixo 1, em metros por volt

[m / V].

Há uma grande variedade de materiais piezoelétricos desde cerâmicas poli-

cristalinas como o titanato zirconato de chumbo (PZT), cerâmicas cristalinas, cristais

orgânicos, polímeros e até mesmo o osso humano. Em geral, sua classificação e

feita em duas categorias: Ferroelétricos e não ferroelétricos.

23
Figura 1-3 – Representação cartesiana dos índices piezoelétricos.

Noss materiais ferroelétricos


ferroelétricos, os domínios cristalográficos do material

apresentam uma direção de polarização própria, resultante da presença de dipolos


dipolo

elétricos, possibilitando que sejam alinhados por um campo elétrico externo e assim

permanecer mesmo após a remoção desse campo [22], como representado na

Figura 1-4.. Já os materiais não ferroelétricos não apresentam essa característica e,

portanto, devem ser orientados no momento de sua fabricação, pois caso contrário,

mesmo que cada cristal individualmente


individualmente apresente um alto coeficiente piezoelétrico,

o efeito no material como um todo será pequeno devido a anulação de movimentos

em sentidos opostos.

Figura 1-4 – Material ferroelétrico


ferro antes (a), durante (b)) e após (c) a polarização por uma fonte
externa de tensão.

24
Devido à grande quantidade de aplicações interessantes que a

piezoeletricidade possibilita na fabricação de MEMS, novos materiais têm sido

pesquisados para atender as novas necessidades do mercado que exigem

dispositivos livres de chumbo (lead free) e cada vez menores. A crescente

miniaturização dos dispositivos é um dos principais motivos que impedem que as

cerâmicas atuais, como por exemplo, o titanato de bário, sejam utilizadas na

fabricação de MEMS, pois, para serem obtidas, requerem temperaturas muito

elevadas, em torno de 1000°C, e métodos de preparação não convencionais à

industria microeletrônica, dificultando, desta forma, a integração desses dispositivos

com a eletrônica de controle, e impedindo também que o conhecimento em micro-

fabricação atual seja utilizado na fabricação de MEMS utilizando esses materiais

piezoelétricos.

Dentre esses novos materiais pesquisados compatíveis com os processos de

microeletrônica, se destacam os materiais da família III-V. Em especial o grupo dos

III-nitretos, representado pelo nitreto de alumínio (AlN), nitreto de gálio (GaN), nitreto

de índio (InN) e nitreto de titânio (TiN), vem despertando bastante interesse dos

pesquisadores devido ao fato de que os III-nitretos são capazes de se cristalizar na

forma hexagonal Wurtzite. Uma das características dessa estrutura é a falta de

centro de simetria de cargas, fazendo com que materiais dessa natureza geralmente

apresentam propriedades como piezoeletricidade e piroeletricidade [23]. Outras

características que fazem com que os III-nitretos se destaquem dentre os outros

materiais da família III-V é a boa estabilidade térmica [24] e o alto ponto de fusão

(~2800ºC) [25], além do fato da banda de energia proibida (Eg) destas ligas variar

em uma larga faixa de energia, desde 6,2 até 1,9 eV [26], o que possibilita que esses

25
materiais sejam utilizados tanto como isolantes ou como semicondutores, além das

diversas aplicações ópticas como filtros e guias de onda.

Diversas técnicas de deposição têm sido reportadas na obtenção de filmes da

família III-V, como, por exemplo, deposição química a vapor [27], epitaxia por feixe

molecular [28], deposição assistida por feixe de íons e sputtering reativo [29]. Dentre

esses processos de deposição, a técnica de sputtering reativo é a que tem

apresentado os melhores resultados quanto ao crescimento desses filmes, pois

possibilita que eles sejam depositados com alto grau de precisão [30], tanto na

espessura, quanto na estequiometria.

1.1. O nitreto de alumínio

Dentro da família dos III-nitretos, o nitreto de alumínio (AlN) é o material que

apresenta o maior coeficiente piezoelétrico, dureza elevada, resistência a corrosão e

alta resistividade. Além dessas propriedades, esse material também apresenta

grande potencial de aplicação na área de ondas acústicas de superfície (surface

acoustic waves – SAW) devido a sua grande taxa de propagação acústica

(aproximadamente 5500 m/s), e baixas perdas de transmissão, fazendo com que

este material seja muito atrativo para aplicações em altas frequências, como, por

exemplo, telefonia celular. Outra aplicação que vem sendo largamente estudada é

sua utilização como dielétrico e/ou isolante para substituir do óxido de silício. A

saber, o AlN apresenta condutividade térmica que varia entre 140 e 270 W/mK e

uma constante dielétrica de aproximadamente 8 para uma frequência de 1KHz [31],

26
enquanto que o SiO2 apresenta uma condutividade térmica de apenas 1,38 W/mK

[32] e uma constante dielétrica de 3,9 [33], favorecendo, portanto, a utilização do AlN

como substituto ao SiO2, pois, ao utilizarmos materiais com maior condutividade

térmica, a dissipação de temperatura pelo dispositivo é efetuada de forma mais

eficiente, fazendo com que falhas causadas por super aquecimento sejam

reduzidas, além de aumentar o tempo de vida dos dispositivos. O stress desse

material é mais uma característica muito interessante, pois, quando obtido pela

técnica de sputtering reativo, pode ser variado de compressivo a tensivo de acordo

com a pressão de processo [34] (fluxo de N2 + Ar) viabilizando diversas aplicações

na área de MEMS.

O AlN pode se cristalizar tanto na forma cúbica quanto na hexagonal, sendo

que neste último caso sua estrutura também pode ser chamada de Wurtzite, pois o

arranjo cristalino de seus átomos é o mesmo do mineral com esse nome. Na

configuração hexagonal, devido à falta de centro de simetria de cargas, o material

poderá apresentar comportamento piezoelétrico.

Na forma cristalina Wurtzite do AlN tanto os átomos de alumínio como os de

nitrogênio apresentam hibridização do tipo sp3 [35], com três orbitais semi-completos

e o 1 orbital, vazio no caso do alumínio, e cheio no caso do nitrogênio. Assim cada

átomo de nitrogênio está rodeado por outros quatro átomos de alumínio, como visto

na

Figura 1-5 (a), com três ligações Al0-N(i) e outras três Al(i)-N0(i= 1, 2 e 3) com

distância de 0,1885 nm, nomeadas de B1 e uma ligação Al0-N0 com 0,197 nm

nomeada de B2, o ângulo N0-Al0-N(i) é de 107,7° e o entre N(i)-Al(0)-N(i) é de 110,5°. O

caráter distorcido do tetraedro formado pelas ligações Al-N é devido justamente pelo

fato de um dos quatro orbitais ser diferente, pois a ligação química realizada entre o

27
orbital vazio do Al e o cheio do N, nomeada B2, tem um caráter mais iônico que as

demais ligações, levando-a a ser menos energética que as demais e, portanto

distorcendo a estrutura.

Na

Figura 1-5 (b) é apresentado o esquema da estrutura cristalina Wurtzite do AlN,

com constantes de rede a=b=0,3110 nm e c= 0,4980 nm [36], e com as ligações do

tipo B2 se estendendo paralelas ao eixo c.

Figura 1-5 – Representação das ligações entre os átomos de alumínio e nitrogênio (a) e da
estrutura cristalina Wurtzite de sua célula unitária (b).

Tendo em vista que o nitreto de alumínio é um material que se destaca dentre

os demais compostos da família III-V devido as propriedades mencionadas e,

embora ele possua uma constante piezoelétrica menor que as cerâmicas PZT, d33=

5,7 e 30 pm/V [73,74] respectivamente, ao contrário das cerâmicas PZT, o AlN é

compatível com a tecnologia CMOS [37]. Todas essas qualidades aliadas fazem com

que seja muito interessante fabricar estruturas MEMS utilizando esse material, de

28
modo a acioná-las piezoeletricamente, possibilitando assim aplicações como, por

exemplo, sensores e atuadores piezoelétricos [38,39].

Desta forma, pelas diversas possibilidades que se abrem ao utilizar o AlN,

neste projeto de mestrado produzi este material, pela técnica de sputtering reativo, e

o caracterizei visando obter propriedades como alta piezoeletricidade, stress residual

controlado, entre outras características, de modo a utilizá-lo como elemento ativo

(piezoelétrico) na fabricação de MEMS.

29
CAPÍTULO 2 - PROCEDIMENTOS EXPERIMENTAIS

Este capítulo é dedicado a apresentação dos procedimentos experimentais

utilizados nesse trabalho, o qual será organizado da seguinte maneira:

primeiramente será apresentada uma breve descrição do princípio de funcionamento

da técnica de deposição por pulverização catódica, mais conhecida como

“sputtering”, utilizada na fabricação dos filmes desse trabalho, bem como a

apresentação do sistema de deposição utilizado. Em seguida, serão apresentadas

os métodos de caracterização utilizados, seu principio de funcionamento, e o

objetivo de utilizá-los na análise das propriedades dos filmes fabricados.

2.1. A técnica de deposição por Sputtering

A deposição por pulverização catódica, doravante denominada de sputtering, é

uma técnica de deposição física a vapor (PVD - Physical Vapor Deposition) [40] para

obtenção de filmes finos. Essa técnica se baseia no choque de átomos ionizados

altamente energéticos de um gás contra a superfície de um alvo. Como a energia

desse choque é suficientemente alta para romper as ligações químicas entre os

átomos do alvo, eles são ejetados em todas as direções, inclusive aquela em que se

encontra o substrato, ao se encontrarem com uma superfície qualquer eles perdem

parte de sua energia ao se adsorverem, se condensam, e formam o filme desejado.

Geralmente o gás utilizado nessa técnica de deposição é inerte e pesado, de modo

a não reagir com o alvo e transferi-lo a maior energia possível. No entanto, quando
30
se deseja depositar um filme com composição química diferente daquela do alvo, um

gás reativo pode ser adicionado na atmosfera de deposição, reagindo com as

moléculas pulverizadas do alvo no seu caminho até o substrato, ou até mesmo na

própria superfície de deposição. Ao adicionarmos o gás reativo na mistura gasosa a

técnica de deposição passa a se chamar sputtering reativo. Em geral o gás inerte

mais utilizado é o argônio (Ar), no entanto, para deposição de materiais de número

atômico elevado gases mais pesados como o criptônio (Kr) e o xenônio (Xe) [41]

também podem ser utilizados.

Existem basicamente duas formas de fornecer energia para ionizar o gás e

atraí-lo contra o alvo, nesse trabalho uma breve comparação será apresentada a

seguir.

A primeira possibilidade é a utilização de um potencial negativo constante (DC)

aplicado ao alvo, que repele os elétrons já presentes no gás, os quais em geral são

gerados termicamente, e que ao se chocarem contra átomos do gás de sputtering

removem um elétron de sua eletrosfera, ionizando-o. O elétron removido juntamente

com o elétron gerado termicamente são acelerados, e, consequentemente um efeito

avalanche é estabelecido, resultando na formação de um plasma. Os íons gerados

são então atraídos contra a superfície do alvo pelo potencial DC negativo e, ao se

chocarem contra ele, removem átomos de sua superfície. Um dos problemas que

apresenta a técnica de sputtering DC é que durante o processamento de alvos

isolantes, cargas positivas se acumulam sobre a superfície do alvo, repelindo os

íons positivos e, consequentemente, diminuindo muito a taxa de deposição do filme.

Para solucionar esse inconveniente Wehner [42] propôs aplicar um sinal

alternado no alvo para que as cargas positivas não se acumulassem. Nessa forma

de sputtering como os elétrons apresentam maior mobilidade do que íons positivos,

31
dado um alvo dielétrico, mais elétrons serão acumulados sobre o alvo no ciclo

positivo do sinal alternado do que íons positivos no ciclo negativo, levando o alvo a

adquirir um potencial negativo denominado de potencial de auto polarização. Esse

potencial é crescente até o ponto em que a grande quantidade de íons positivos

atraídos pelo potencial de auto polarização faça com que a superfície do alvo se

carregue positivamente, nesse instante, mais elétrons são atraídos para anular

essas cargas e se acumulam novamente no próximo ciclo positivo do sinal

alternado. Nesse tipo de sputtering os íons são acelerados contra o alvo por um

efeito secundário à aplicação do potencial alternado ao alvo, o chamado potencial de

auto-polarização, que é gerado pelo acúmulo de elétrons, e não diretamente pelo

sinal alternado, pois como citado anteriormente, os íons apresentam uma massa

mais elevada que o elétron, logo uma inércia maior, não respondendo às variações

do sinal aplicado ao alvo [43].

Nos sistemas atuais, em ambas as técnicas apresentadas, outro elemento

chamado de magnetron faz parte do sistema, esse magnetron nada mais é que um

conjunto de imãs permanentes incorporados logo abaixo do alvo. O campo

magnético produzido por esses imãs faz com que os elétrons fiquem confinados e

orbitando na região próxima do alvo, elevando assim a taxa de ionização do gás e,

consequentemente, aumentando a densidade do plasma, o que permite utilizar uma

menor pressão de trabalho, além de aumentar a taxa de deposição do material.

Todos os filmes depositados neste trabalho foram obtidos pela técnica de r.f.

magnetron sputtering reativo. Um diagrama da câmara de deposição (Figura 2-1), e

uma fotografia do sistema de sputtering utilizado na deposição dos filmes (Figura

2-2) são apresentados a seguir. A frequência de r.f. utilizada nesse equipamento é

fixa em 13,56MHz, aplicada a um substrato circular de 4 polegadas (10,16 cm) de

32
diâmetro. Os principais parâmetros de processo que podem ser controlados no

sistema utilizado são: pressão de processo (mTorr), densidade de potência de r.f.

(W/cm2), fluxo dos gases (sccm) e temperatura do substrato (°C).

A remoção dos gases residuais desse sistema de deposição é realizado por

uma bomba turbomolecular da Edwards STP 1003C de 3600 m3/h em série com

uma bomba rotatória Edwards E2M8 de 80 m3/h. A inserção de gases é controlada

por controladores de fluxo de massa (mass flown controller - MFC), enquanto a

pressão de processo é controlada por uma válvula gaveta automática entre a bomba

turbomolecular e a câmara de deposição, o controle de temperatura do substrato é

feito por um termopar colocado junto ao porta amostra, e o aquecimento feito por

uma lâmpada halôgena. O sistema utilizado também é provido de uma pré-câmera

para o carregamento/descarregamento das amostras, a qual evita que o vácuo seja

perdido no interior da câmara de deposição.

Figura 2-1 – Diagrama da câmara de deposição utilizada na fabricação dos filmes de AlN deste
trabalho.

33
Figura 2-2 – Foto do equipamento de sputtering reativo utilizado na deposição dos filmes deste
trabalho.

2.2. Técnicas de caracterização

Nesse trabalho a caracterização dos filmes fabricados foi feita pelas técnicas

de perfilometria que tem por objetivo determinar a espessura do filme depositado e,

portanto, sua taxa de deposição; absorção de infravermelho por transformada de

Fourier (FTIR) para estudar as ligações químicas presentes; elipsometria para

determinação do índice de refração e a espessura do filme depositado;

espectroscopia por retro espalhamento de Rutherford (RBS) que estuda a

composição química; absorção na região do visível (UV-Vis) a qual tem por objetivo

34
determinar o gap óptico e validar os resultados de índice de refração e espessura; e

finalmente difração de raios-X (XRD) para verificar a orientação cristalográfica dos

filmes.

Além dessas técnicas de caracterização também foi obtido o stress residual

dos filmes pela medida do raio de curvatura do substrato e a constante piezoéletrica

de carga, a qual será obtida através de medidas de capacitância com e sem

polarização DC.

A seguir são descritas sucintamente as diferentes técnicas de caracterização

utilizadas nesse trabalho.

2.2.1. Perfilometria

O perfilômetro é um instrumento eletromecânico que mede o perfil de

superfícies de materiais sólidos através do movimento horizontal de uma agulha que

percorre a superfície da amostra [44]. Esta agulha se encontra acoplada

mecanicamente ao núcleo de um transformador diferencial linearmente variável

(Linear Variable Differential Transformer, LVDT). O alto grau de precisão do

equipamento permite que a agulha caminhe sobre a superfície da amostra

detectando variações ou defeitos na superfície do material que causam translações

verticais na agulha e, consequentemente, mudanças na posição do núcleo do LVDT.

Estas mudanças no LVDT produzem um sinal proporcional ao deslocamento vertical

da agulha.

35
Por se tratar de uma técnica de contato mecânico de alta precisão, este

equipamento deve ser operado numa área que apresente o mínimo de vibrações

mecânicas, já que estas podem causar erros apreciáveis na medida. Essa

caracterização tem como objetivo determinar a espessura dos filmes depositados

para que então seja possível determinar sua taxa de deposição.

Vale citar o compromisso entre dois parâmetros muito importantes nessa

técnica que são a velocidade de varredura e a força aplicada pela agulha contra a

amostra. Ao analisarmos o perfil da superfície de uma amostra, se a velocidade de

varredura da ponta for muito elevada e com baixa força, a agulha pode não

contornar todos os detalhes da superfície da amostra, no entanto, se aplicarmos

uma força demasiada sobre um filme macio, como por exemplo, o fotorresiste,

podemos danificar a amostra, além de sujar a ponta da agulha.

Como se trata de uma técnica que mede variações de topografia em uma

superfície, as amostras devem apresentar um degrau entre o substrato e o filme, de

modo que se possa medir a espessura do mesmo (Figura 2-3).

Nas amostras aqui analisadas o degrau foi definido por uma máscara mecânica

a qual impede a deposição do filme sobre uma determinada área do substrato,

deixando o restante livre para a deposição do filme.

O aparelho utilizado foi um perfilômetro Tencor, modelo Alpha Step 500,

localizado no Laboratório de Microeletrônica da Escola Politécnica da Universidade

de São Paulo. Esse aparelho pode medir variações de altura de até 10nm, a agulha

utilizada é de diamante com um diâmetro de 12,5 µm. Para evitar vibrações

excessivas o equipamento foi montado sobre uma mesa de isolamento vibratório. De

modo a obter resultados confiáveis, apesar da grande precisão do aparelho e dos

filmes depositados terem espessuras maiores que 100nm, três pontos de medida em
36
um mesmo substrato foram tomados e a média simples desses pontos foi assumida

como espessura do filme.

Figura 2-3 – Representação do degrau definido para a medida de espessura.

2.2.2. Espectroscopia de absorção na região de infravermelho (FTIR)

A espectroscopia na região do infravermelho [45] é uma ferramenta de grande

importância para engenharia de materiais na obtenção de informações estruturais

dos materiais estudados em. Suas aplicações abrangem áreas de análise tanto

qualitativas como quantitativas.

Sabe-se que a energia de uma molécula é a soma de suas energias rotacional,

vibracional e eletrônica. No entanto, enquanto as transições eletrônicas são

responsáveis por absorção ou emissão na região do visível e ultravioleta, a energia

vibracional é responsável por absorção na região do infravermelho, pois em

temperatura ambiente a vibração dessas moléculas em relação a sua posição de

equilíbrio, é da ordem de até 0,1Å, com frequências que variam de 1012 a 1014 Hz.

Essa frequência, bastante específica para cada tipo de ligação molecular, é da

37
mesma ordem de grandeza da radiação infravermelha*. Por essa razão ao se incidir

uma radiação infravermelha com a mesma frequência da vibração natural das

moléculas do material analisado, haverá uma mudança no estado vibracional, que

se for acompanhada por uma mudança no momento dipolar, ou seja, na energia das

moléculas, uma banda de absorção será observada no espectro de infravermelho.

Esse espectro nada mais é que um gráfico da percentagem da radiação absorvida

(ou transmitida) em função do número ou comprimento de onda incidente. A análise

de um espectro de infravermelho permite obter informações tanto sobre o tipo de

ligação presente no material, quanto sobre a quantidade relativa dessas ligações.

Quanto mais espesso for o material, maior será a intensidade dos picos de absorção

(transmissão), o que faz necessário a normalização dos espectros pela espessura

do filme fino, possibilitando assim que conclusões semi-quantitativas possam ser

obtidas. Um espectro típico de uma amostra de nitreto de alumínio, já normalizado

pela espessura, é apresentado na Figura 2-4, onde se observa uma banda de

absorção bastante intensa em torno de 700 cm-1 referente às ligações do tipo Al-N.

Algumas ligações, apesar de serem entre os mesmos átomos, aparecem em

mais de um comprimento de onda nos espectros de FTIR, isso ocorre pelo fato de

que um mesmo tipo de ligação pode vibrar de forma diferente e, portanto, entrar em

ressonância com comprimentos de onda diferentes. Uma representação ilustrativa

destes modos vibracionais pode ser visto na Figura 2-5 [45].

* A radiação infravermelha esta compreendida entre 0,77µm~1000µm.

38
AlN

Intensidade [u.arb]

500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000


-1
Número de onda [cm ]

Figura 2-4 – Espectro típico de FTIR de um filme de nitreto de alumínio fabricado nesse trabalho.

Figura 2-5 – Representação ilustrativa dos modos vibracionais moleculares.

A técnica de caracterização por infravermelho comum consiste na utilização de

um monocromador para selecionar cada comprimento de onda de luz. Um sistema

de grades, filtros e fendas separam a luz em diferentes frequências e cada uma

destas regiões de frequência (∆ν) do espectro de energia incide sobre a amostra. A

resposta da amostra para cada ∆ν é medida no detector sequencialmente. No caso

de um espectrômetro de infravermelho por transformada de Fourier (FTIR), a luz não

é separada em frequências individuais, mas é modulada por um interferômetro de

39
Michelson, cujo diagrama esquemático é apresentado na Figura 2-6, incidindo na

amostra ao mesmo tempo. Nesse interferômetro a radiação infravermelha

proveniente da fonte passa por um espelho fixo semitransparente que reflete metade

da intensidade a um espelho fixo e a outra metade para um espelho móvel, em

seguida esse feixe é recombinado construtiva ou destrutivamente dependendo da

posição do espelho móvel e direcionado para a amostra.

Espelho
Móvel

Detector

Espelho
Amostra Fixo

Fonte de
Infravermelho
Figura 2-6 – Diagrama esquemático de um interferômetro de Michelson.

Finalmente o espectro de absorção/transmissão será obtido através da

transformada inversa de Fourier do interferograma da intensidade do feixe

transmitido em função da posição do espelho móvel.

40
Os resultados dos espectros medidos pelo FTIR não são visualizáveis

diretamente sendo necessário um computador para realizar manipulação

matemática (utilizando transformada rápida de Fourier) obtenção do espectro de

absorção/transmissão da amostra na região do infravermelho [46].

Neste trabalho as medidas foram realizadas em um espectrômetro de

infravermelho por transformada de Fourier (FTIR) da BIO RAD modelo QS 300,

pertencente ao Laboratório de Microeletrônica da Escola Politécnica da Universidade

de São Paulo.

2.2.3. Elipsometria

O elipsômetro [47] é um instrumento óptico que mede mudanças no estado de

polarização de feixes colimados de luz monocromática polarizada causadas pelas

reflexões em superfícies. Essa técnica envolve a incidência de um feixe colimado,

elipticamente polarizado, de luz monocromática sobre a superfície de uma amostra e

a posterior determinação do estado de polarização do feixe refletido. Os parâmetros

ópticos obtidos a partir da diferença entre os estados de polarização do feixe

incidente e refletido, em combinação com teoria física de filmes finos, permitem

determinar o valor do índice de refração e da espessura da amostra medida [48].

Algumas características citadas a seguir fazem com que a elipsometria seja

uma técnica muito aplicada na caracterização de filmes finos. São elas:

• Permite a determinação do índice de refração (n) em filmes finos com

espessuras desconhecidas (somente um valor aproximado da espessura

41
é necessário, obtido geralmente por perfilometria, pela taxa de

deposição ou pela coloração do filme ao ser visto perpendicularmente ao

olho humano).

• Não requer ambiente ou condições especiais, tais como ambiente

evacuados ou aquecimento da amostra para a realização da medida;

• Não requer prévia preparação das amostras;

• É uma técnica não destrutiva.

Um diagrama esquemático do elipsômetro utilizado nesse trabalho pode ser

visto na Figura 2-7. Esse elipsômetro apresenta uma fonte de luz não polarizada, a

qual é colimada e passa por um polarizador e um compensador de quarto de onda

que tem por objetivo polarizar a luz elipticamente, fazendo assim que ela apresente

componentes Ep e Es como visto na Figura 2-7. Quando o feixe incidente interage

com o filme ocorrem mudanças no estado de polarização da luz que é refletida, e as

componentes Ep e Es são convertidas em Rp e Rs respectivamente. A etapa de

análise do feixe refletido é composta por um analisador rotativo e um filtro de

comprimento de onda. Na condição em que o analisador rotativo obtiver a condição

nula ou mínima do feixe refletido, o detector produzirá uma corrente proporcional ao

ângulo de fase das componentes de polarização do feixe. Esse parâmetro junto com

a análise matemática realizada pelo próprio equipamento permite obter entre outras

informações o índice de refração e a espessura do filme analisado.

O equipamento utilizado foi um Rudolph Research-Auto EL NIR-3/4D/SS1

existente no Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da

Universidade de São Paulo, onde os comprimentos de onda de 405, 638 e 830 nm

podem ser utilizados.

42
Figura 2-7 – Diagrama esquemático de um Elipsômetro.

2.2.4. Espectroscopia por retro espalhamento Rutherford (RBS)

A técnica de RBS é um tipo de espectroscopia que permite determinar a

composição química do material [49]. Esta técnica consiste basicamente na

incidência de um feixe mono energético de íons, geralmente de H+ ou He+, com

energia na ordem de 2 MeV, que ao incidir sobre a superfície da amostra

apresentam uma probabilidade de serem repelidos elasticamente pelo núcleo dos

átomos da amostra (átomo estacionário). Doravante o ato de repulsão entre esses

elementos será definido como choque. Quando ocorre o choque o íon incidente é

espalhado em diferentes ângulos com energia menor que a inicial, pois parte dela foi

transferida no choque ao átomo estacionário. Um detector capta esses íons

espalhados e emite um sinal elétrico proporcional a sua energia, esse sinal por sua

43
vez é então contabilizado em um canal referente a energia do íon espalhado

detectado.

A técnica de RBS se baseia praticamente em quatro fatores, sendo três deles

físicos e um estatístico.

Fator Cinemático (K): O íon incidente, ao se chocar elasticamente com o

átomo da amostra, transfere parte de sua energia para o átomo estacionário e a

parte restante da energia do íon corresponde a uma fração da energia incidente,

chamado de fator cinemático K, sendo (0<K<1). Quão maior for a massa do átomo

estacionário maior será o valor de K. Esse fator é o que define a necessidade de

utilizarmos como partículas incidentes íons leves de H+ ou He+, pois nessa técnica

não há possibilidade de análise de átomos com massa menor do que a massa da

partícula incidente, pois isso faria com que o fator cinemático fosse menor que zero

e, logo, mesmo se chocando contra um átomo estacionário o íon incidente não

retornaria para ser detectado;

Diferencial da Seção de Choque (Г): Mede a probabilidade de ocorrer o

choque entre as partículas incidentes e os átomos da amostra. Quanto maior for o

tamanho do átomo estacionário maior será a probabilidade de ocorrer o choque,

sendo assim, maior o número de íons espalhados que o detector irá recolher. Vale

ressaltar que o detector só recolhe os íons espalhados em um determinado ângulo

sólido Ω, portanto o valor a ser utilizado deve ser o diferencial de Г, ou seja, dГ/dΩ;

Seção Transversal de Freamento (ε): Em sua grande maioria os íons

incidentes não se chocam com os átomos da superfície da amostra, penetrando no

filme e interagindo com as nuvens eletrônicas dos átomos do material, essa

interação faz com que os íons percam energia, e caso eles venham a colidir com

algum átomo estacionário e retornar ao detector, esse irá contabilizar esse íon em

44
um canal de energia diferente não correspondente àquele átomo. Essa perda de

energia é representada pela seção transversal de freamento, que é dependente da

densidade do material, da distância percorrida antes de haver o choque e dos

ângulos de incidência e espalhamento dos íons;

Flutuações estatísticas e outros fatores aleatórios: O íon ao incidir dentro

do material interage de forma aleatória com as nuvens eletrônicas dos átomos do

material, onde ora pode passar mais perto do núcleo do átomo, perdendo mais

energia, ora passando em média mais longe do núcleo. Essa variação faz com que

ao percorrer a mesma distância dentro do material analisado, ao se chocar com o

mesmo elemento, dois íons possam ser contabilizados em canais de energia

diferentes. O espectro também pode ser influenciado por fatores aleatórios como

variação da energia dos íons incidentes, erros no detector devido a ruídos, dentre

outros. Todos esses fatores aleatórios somados introduzem um comportamento

gaussiano que é somado ao espectro, como pode ser observado na Figura 2-8.

As medidas de RBS foram realizadas no equipamento pertencente ao

Laboratório de Materiais e Feixes Iônicos do Instituto de Física da USP (LAMFI-

USP). O RBS do LAMFI conta essencialmente com um acelerador eletrostático tipo

Pelletron-Tandem, modelo 5SDH, fornecido pela NEC dos EUA, que alcança 1,7 MV

de tensão máxima no terminal. Acopladas ao acelerador existem duas câmaras de

alto vácuo sendo que uma delas é para análises de RBS e a outra para análise

PIXE.

A câmara para análise de RBS tem 43 cm de diâmetro interno e 15 cm de

altura. O detector encontra-se montado com um ângulo θ de 170º em relação à

incidência do feixe.

45
Figura 2-8 – Espectro ideal de RBS que leva em consideração somente os fatores físicos(a).
Espectro real que leva em consideração as flutuações estatísticas e os fatores
aleatórios(b).

Para determinar a composição química da amostra se utiliza o programa

SIMNRA [50]. Nesse programa primeiramente são fornecidos os dados

experimentais obtidos, resultando em um espectro experimental. O segundo passo é

introduzir os parâmetros utilizados no experimento, tais como energia e tipo do feixe

incidente, ângulo de detecção dos íons retro espalhados, entre outros. O terceiro

passo é indicar as características da amostra analisada como número e espessura

de cada camada de filme na amostra, o substrato deve ser considerado como uma

camada, e quais átomos estão presentes em cada uma dessas camadas. A partir

desses dados iniciamos a simulação, ajustando a espessura e a concentração

atômica de cada camada, de modo a obter um espectro simulado que represente de

maneira fiel o espectro experimental.

O substrato utilizado para essa técnica de caracterização foi o carbono amorfo

ultra denso (UDAC – Ultra dense amorphous carbon), pois é um material leve,

comparado com os elementos presentes na amostra, evitando a sobreposição do

sinal do substrato com o do filme.


46
2.2.5. Absorção óptica na região do visível

As medidas de absorção óptica consistem basicamente na incidência de um

feixe de radiação eletromagnética, que varia desde o ultravioleta até o

infravermelho∗, varrendo, portanto, toda a faixa do espectro visível. Quando uma da

radiação incidente em uma dada frequência é absorvida pelo material, resultando

em transições eletrônicas entre os estados das bandas do material, fazendo com

que um elétron presente na parte superior da banda de valência adquire energia

suficiente para transitar para a parte inferior da banda de condução, ou seja,

atravessar a banda proibida (gap óptico), obtendo-se um espectro da radiação

absorvida, ou transmitida, em função do comprimento de onda incidente.

Dado um feixe de luz, com intensidade I0, incidindo sobre uma amostra, uma

porção Ir dessa intensidade será refletida pela amostra e uma fração It será

transmitida como representado esquematicamente na Figura 2-9.

Figura 2-9 – Representação de um feixe de luz incidente, refletido e transmitido em uma amostra
de espessura d.

∗ O equipamento utilizado varia sua fonte luminosa de 300nm a 1200nm.

47
A partir dessa representação se definem a transmitância (T), a refletância (R) e

a absorbância (A) como:


= (2.1)



= (2.2)


1
 =  (2.3)


É conhecido que a intensidade da luz dentro do material decai

exponencialmente com sua espessura (d) e com o coeficiente de absorção (α) do

material [51], sendo assim a intensidade I no ponto imediatamente após a interface

ar/material (onde d=0+∆d, sendo que ∆d tende a 0) é igual a:

 = ( −  )! "#$ (2.4)

Colocando I0 em evidência temos:

 =  (1 − )! "#$ (2.5)

Logo a intensidade de luz transmitida desconsiderando as múltiplas reflexões

material/ar será:

 =  (1 − )! "#$ (2.6)

Isolando α obtêm-se a expressão:

 (1 − )
! "#$ = (2.7)


 (1 − )
)(!"#$ ) = ) (2.8)


48
 (1 − )
−+, = ) (2.9)


1 (1 − )
+ = − ) (2.10)
, 

Onde:

Io é a intensidade incidente da radiação;

It é a intensidade transmitida da radiação;

Ir é a intensidade refletida da radiação;

T é a transmitância;

R é a refletância;

d é a espessura do filme;

α é o coeficiente de absorção do filme.

É conhecido que em materiais semicondutores amorfos existem estados

permitidos na banda proibida (gap óptico), os quais se estendem na forma de

caudas, devido a esse fato não existe uma banda proibida bem definida, sendo,

portanto, necessário adotar alguns critérios para determinar essa característica do

material. Um método bastante utilizado para determinar o gap desses materiais é o

método de Tauc [52].

Já para materiais cristalinos, como idealmente não existem estados permitidos

dentro da banda proibida, a transição dos elétrons entre a banda de valência e a de

condução se dá de forma mais abrupta, podendo ocorrer de forma direta ou

indiretamente como representado na Figura 2-10.

No caso dos cristais de transição direta, o elétron de maior energia da banda

de valência pode mudar para o estado de menor energia da banda de condução

49
sem que haja mudança em seu momento. A energia necessária para essa transição

é transmitida ao elétron por um fóton.

Figura 2-10 – Representação esquemática da transição entre a banda de condução e de valência


de forma direta e indireta.

Já no caso dos materiais de transição indireta, o elétron não pode realizar a

transição entre o nível mais energético da banda de valência para o nível menos

energético da banda de condução sem que haja mudança de seu momento, essa

mudança é feita pela absorção de um fônon. Como na transição indireta o elétron

necessita absorver dois tipos diferentes de elementos, um fóton e um fônon, essa

transição é menos provável de ocorrer, o que resulta em um material menos

absorvente que um de transição direta.

Uma possibilidade de se determinar se o material cristalino apresenta uma

transição direta ou indireta é analisar seu coeficiente de absorção.

Na transição direta, o coeficiente de absorção (α) pode ser relacionado com a

frequência da radiação incidente pela seguinte fórmula [51]:

+ ≈ ∗ 1ℎ3 − 4 (2.11)

50
Onde:

67 ∗ 68 ∗ /
5  (2 )
67 ∗ + 68 ∗
∗ ≈ (2.12)
);ℎ 68 ∗

ℎ;
ℎ< = (2.13)
=
Sendo:

Eg é a banda proibida (gap óptico);

mh* é a massa efetiva da lacuna;

me* é massa efetiva do elétron;

q é a carga elementar (1.60×10−19 coulombs);

n é a parte real do índice de refração;

h é a constante de Planck (6,62 ˣ 10-34 J ˣ s ou 4,135 ˣ 10-15 eV ˣ s);

c é a velocidade da luz no vácuo (~2,9 ˣ 10-8 m/s);

λ é o comprimento de onda incidente.

lembrando que a equação (2.12) ignora outras fontes de absorção tais como defeitos

em contornos de grão, atração entre elétrons e lacunas criadas, dentre outras.

Já para os materiais de transição indireta a equação que descreve o coeficiente

de absorção é dada por:

(ℎ3 − 4 + H ) (ℎ3 − 4 − H )
+≈ + (2.14)
4 4
!IJ K M − 1 1 − !IJ K− M
L L

Onde:

Ep é a energia do fônon;

k é a constante de Boltzmann;

T é a temperatura absoluta [K].


51
Analisando a equação (2.14) se ao realizar um gráfico de hν por α2 e se obtiver

uma reta, se pode concluir que se trata de um material de transição direta, com um

gap óptico que pode ser obtido pela extrapolação da reta para α = 0. No caso de um

material de transição indireta, o gráfico de hν por α1/2 resultará em uma reta e,

novamente o gap do pode ser obtido pela mesma extrapolação apresentada

anteriormente (assumindo que Ep ≈ 0).

Como o AlN não é necessariamente um semicondutor amorfo, podendo

apresentar cristalização parcial ou total, e que de acordo com a literatura esse

material apresenta um gap direto, é possível inferir a respeito da sua cristalinidade

ao se observar os valores do coeficiente de absorção (α) em função de hν, além de

possibilitar realizar uma estimativa do valor de seu gap óptico.

Para obter o coeficiente de absorção (α), como descrito na equação (2.10), são

necessários tanto os dados da transmitância quanto os da refletância do material. As

informações sobre a luz transmitida podem ser obtidas pela geometria mais comum

em um espectrofotômetro de absorção no visível, uma vez que o detector

geralmente se encontra após a amostra a ser analisada. Já os dados referentes a

refletância do material são obtidos ao se acoplar um acessório ao equipamento,

chamado de esfera integradora, a qual irá colimar a radiação refletida em todas as

direções pelo material e direcioná-la ao detector. Essas medidas foram realizadas

em um espectrofotômetro VARIAN CARY 500 UV - Vis NIR, pertencente ao

laboratório de cristais iônicos, filmes finos e datação (LACIFID) do instituto de física

da Universidade de São Paulo.

52
2.2.6. Difração de raios-X (XRD)

A técnica de difração por raios-X permite determinar parâmetros estruturais

como orientação e o parâmetro de rede de um cristal.

Os raios-X são uma forma de radiação eletromagnética, cujo comprimento de

onda está na ordem de 10-10 m. Normalmente a produção de raios-X é feita pela

desaceleração dos elétrons ao se chocarem contra um alvo positivamente

carregado. Ao se aproximarem da eletrosfera do alvo, os elétrons incidentes são

repelidos e desacelerados bruscamente, a energia dissipada por essa

desaceleração brusca é liberada de diversas formas como, por exemplo, pelo

aquecimento do alvo e pela emissão de raios-X [53].

Os raios-X liberados pela rápida desaceleração dos elétrons ao se

aproximarem da eletrosfera dão origem a um espectro de emissão contínua,

conhecida como radiação branca, pois, assim como a luz branca, essa radiação é

formada por diversos comprimentos de onda. No entanto nem todos os elétrons

perdem energia da mesma maneira, existem os que dissipam sua energia de forma

gradativa por sucessivas repulsões, emitindo fótons em diversas energias e aqueles

que transmitem toda a energia em uma única repulsão, neste caso a energia do

elétron incidente é transmitida a um único fóton.

Ao se aumentar o potencial de aceleração dos elétrons contra o alvo, ou seja,

sua energia, a intensidade dos raios-X obtidos também aumentará, como observado

na Figura 2-11 para potenciais de aceleração de 5 a 25 kV, no entanto, ao observar

o espectro obtido para a maior energia de aceleração (25 kV) se observam dois

picos, os quais são chamados de radiação característica. A liberação desse tipo de

53
energia ocorre quando os elétrons incidentes têm energia suficiente para ultrapassar

a barreira formada pela nuvem eletrônica mais externa dos átomos do alvo e, caso

se choquem contra um elétron da camada mais interna da eletrosfera de um átomo

poderá remover esse elétron, deixando um estado vazio dentro de uma camada da

eletrosfera. Como as camadas mais internas apresentam uma energia menor, o

estado vazio dentro da eletrosfera é rapidamente recomposto por um elétron de uma

camada mais externa e a energia desse decaimento eletrônico é liberada na forma

de um fóton com energia muito bem definida e específica para cada tipo de metal

utilizado como alvo. A energia desse fóton será decrescente quão mais distante do

núcleo for a camada do elétron ejetado, e também variará de acordo com a origem

do elétron que recompôs o estado vazio gerado. A radiação característica Kα é

devida a um decaimento de um elétron da camada L para a K, já um decaimento

Kβ é decorrente de um decaimento da camada M para a K, como observado na

Figura 2-12. Existem também as radiações menos prováveis como, por exemplo, Lα,

proveniente do decaimento de um elétron da camada M para L e assim por diante.

Em 1912 Max Von Laue propôs e realizou um experimento onde utilizou os

fenômenos de difração, já conhecidos na época para radiação eletromagnética na

faixa do visível, utilizando raios-X, pois esse apresenta um comprimento de onda na

faixa de poucos Angstroms, ou seja, da mesma ordem, ou até mesmo menor, que os

espaçamentos interatômicos. Como Laue realmente observou as figuras de difração

esperadas, um grande interesse surgiu na comunidade cientifica da época. Nesse

mesmo ano William Henry Bragg e seu filho William Lawrence Bragg formularam a

equação de Bragg (equação 2.20) [54], assumindo que a posição dos picos de

difração poderiam ser determinadas assumindo que os raios-X são refletidos pelos

planos paralelos de uma rede cristalina, como visto na Figura 2-13.


54
Figura 2-11 – Espectro da emissão de raios-X por um alvo de Molibdênio em função da tensão de
aceleração aplicada ao alvo.

Figura 2-12 – Ilustração da emissão de raios-X contínuo (a), e do decaimento eletrônico para
emissão de raios-X característico (b).

Consideremos dois planos paralelos P1 e P2 separados por uma distância d.

Os feixes incidentes 1 e 2 estão em fase. Para que os feixes 1’ e 2’ fiquem em fase e


55
consequentemente haja interferência construtiva, as seguintes condições devem ser

obedecidas para o feixe 2’:

Q + QR = )= (2.15)

Ou seja, o incremento de caminho percorrido pelo feixe 2’ deve ser igual a um

número inteiro de comprimento de onda. Como o ângulo formado entre

SQ = RSQ = T (2.16)

Q = QR  Q + QR = 2Q (2.17)

2Q = )= (2.18

E por definição trigonométrica tem-se:

Q
= WX) T (2.19)
,7UV

A partir das equações (2.18) com (2.19) obtemos a equação de Bragg:

2,7UV WX) T = )= (2.20)

Onde:

,7UV = Parâmetro de rede;

= = Comprimento de onda incidente;

) = É um número inteiro de períodos;

T = Ângulo de incidência dos raios-X.

Nesse trabalho foi utilizado o método de difratometria de pó, com a varredura

do ângulo em 2θ, utilizando a geometria θ – θ, na qual o feixe incidente e o detector

se movem ao mesmo tempo em θ com a amostra fixa. Quando um feixe é difratado

e coletado pelo detector, esse gerará um pulso elétrico que é convertido em uma

contagem pelo programa que controla o equipamento. O resultado dessa técnica é

um difratograma, que nada mais é que um gráfico das contagens coletadas pelo

detector em função do ângulo de incidência/reflexão (2θ).

56
Figura 2-13– Difração de raios-X entre dois planos cristalográficos de um cristal com parâmetro de
rede d.

Nesse trabalho os difratogramas são apresentados em contagens por segundo

(cps), ao invés de utilizar o número de contagens em função de 2θ, de modo a

normalizar o eixo Y caso o tempo de coleta de dados variasse de uma amostra para

outra. Um exemplo de um difratograma obtido neste trabalho é apresentado na

Figura 2-14, na qual se observa principalmente dois picos em 33,1° e 36,0°. O

pico mais intenso em 36,0° é referente ao plano (002) do AlN, já o pico menos

intenso em 33,1° pode ser atribuído tanto ao substrato de silício utilizado (100) como

à orientação (100) do AlN, o tópico 4.2.4 nos resultados e discussão explorará mais

esse assunto. Além desses picos o AlN também pode apresentar picos em 37,9°,

49,8°, 59,3°, 66,1°, 71,4°, referentes aos planos (101), (102), (110), (113) e (112) [55]

respectivamente, já um difratograma de um filme de alumínio puro pode apresentar

picos em 38,4°, 44,7°, 65,1° e 78,2°, referentes aos planos (111), (200), (220) e

(311) [56] respectivamente. Apesar desses materiais apresentarem picos de difração

para ângulos (2θ) maiores que 60°, esses picos são de baixa intensidade, e,

portanto os difratogramas apresentados nesse trabalho foram obtidos somente até

60°. Ao analisarmos a posição dos picos de AlN e de Al verificamos que não há

sobreposição de picos, facilitando a interpretação dos dados.


57
AlN
(002)
1000
Contagens por segundo [cps]

Si
(100)
100

10

30 35 40 45 50 55 60

Figura 2-14 – Difratograma de raios-X de uma amostra de nitreto de alumínio.

Para determinar se um material apresenta crescimento preferencial de uma

determinada orientação se deve calcular seu grau de texturização e comparar seus

resultados com os de um material totalmente aleatório, ou seja, poli-cristalino que

não apresente crescimento preferencial em nenhuma orientação. Para realizar essa

comparação primeiramente as áreas referentes a todos os picos presentes no

difratograma do filme fabricado são somadas, a qual pode ser chamado de AT (área

total), e então a área referente a cada pico de difração é dividida pela área total AT,

se obtendo assim o grau de texturização do material em estudo. Tanto a área

referente a cada pico, como sua largura a meia altura (FWHM – Full Width Half

Maximum ), foram obtidas ajustando uma curva ao pico de difração como mostra a

Figura 2-15. Já para o filme totalmente aleatório, ao invés de utilizarmos a área de

cada pico, utilizamos a intensidade de cada pico do padrão fornecido pelo Centro

58
Internacional de Dados de Difração (ICDD – International Centre for Diffraction

Data). Portanto, para determinar se um filme apresenta crescimento preferencial de

uma determinada direção, seu grau de texturização deve ser maior do que o de um

material totalmente aleatório e quanto mais próximo de 1 esse valor estiver, mais

orientado naquela direção o material estará.

AlN 70/30
(002) Lorentziana ajustada
10000

Área = 6616 u.arb.


o
Si Centro = 35,61
Intensidade [cps]

(100) Largura = 0,38


o

1000

100

30 33 36 39 42 45 48 51 54 57 60

Figura 2-15 – Exemplo da curva ajustada ao pico de difração referente a orientação (002).

Outra característica que também foi extraída dos difratogramas foi o tamanho

de grão cristalográfico, o qual pode ser calculado utilizando a fórmula de Scherrer

[57] onde:

50,99 ∗ =
Y7UV = (2.21)
[7UV ∗ ;W T7UV

59
Onde:

Dhkl = tamanho de grão cristalográfico [Å];

λ = comprimento de onda utilizado [Å];

Bhkl = largura a meia altura (FWHM);

[7UV = alargamento devido ao tamanho finito do grão cristalino;

b = alargamento instrumental.

Quando a curva ajustada ao pico for uma lorentziana:

R7UV = [7UV + \ (2.22)

Ou quando a curva ajustada for uma Gaussiana:

R7UV  = [7UV  + \  (2.23)

As medidas realizadas foram feitas em um difratômetro de Raios-X Rigaku,

modelo Ultima+, pertencente ao Laboratório de Cristalografia do Instituto de Física

da Universidade de São Paulo, o qual utiliza radiação do Cu Kα (1.5418Å),

sintonizada por um monocromador de grafite de orientação [0002] e parâmetro de

rede de 3,354 Å. Um detector de cintilação foi utilizado para detectar os raios-X

espalhados. O alargamento instrumental desse equipamento é de 0,1°.

60
2.2.7. Medida do stress residual

Grande parte dos filmes obtidos artificialmente apresenta algum tipo de stress

(tensão mecânica), independente da técnica de deposição utilizada, decorrente de

fenômenos ligados tanto a fatores internos quanto externos à estrutura do material

obtido.

O termo stress residual representa a soma do stress intrínseco, extrínseco e

térmico presentes no filme.

O stress intrínseco é gerado no processo de deposição do filme, onde,

utilizando o modelo de crescimento de filmes de Volmer-Weber [58], ao ocorrer o

encontro das ilhas de deposição, formadas a partir dos sítios ativos da superfície do

substrato, a energia relacionada com esse novo contorno de grão esta associada a

formação de stress intrínseco, sendo que, quanto menor o tamanho de grão, maior

será o stress desenvolvido no filme [59]. Fatores como pressão, taxa, temperatura e

técnica de deposição, como também tipo de substrato (diferença de cadeias

atômicas) [60] estão relacionados à formação desse tipo de stress.

Já o stress extrínseco, do ponto de vista da técnica de deposição por

sputtering, é praticamente decorrente do bombardeamento da superfície do filme em

crescimento por átomos e íons energéticos [61], os quais causam a incorporação de

impurezas, além de causar uma repulverização da superfície do filme. Um fator que

está diretamente relacionado com a transferência de momento pelos íons incidentes

na superfície do filme é o livre caminho médio da fase gasosa, ou seja, a pressão de

processo. Quanto maior o livre caminho médio, mais perpendicularmente à

superfície do filme os íons tendem a chegar, transferindo-o um maior momento, já

61
para um menor livre caminho médio, os íons tendem a ser espalhados em diversas

direções, diminuindo a transferência de momento ao filme em crescimento.

O stress térmico é basicamente decorrente da diferença entre o coeficiente de

expansão térmica do filme e do substrato, pois os filmes geralmente são depositados

a uma temperatura diferente da qual ele será utilizado. Esse tipo de stress pode ser

facilmente calculado pela equação abaixo caso as propriedades do filme sejam bem

conhecidas.

_`
]=^ a b+` − +c d($ −  ) (2.24)
1 − <`

Onde:

] =Stress térmico do filme;

Εf =Módulo de elasticidade do filme;

<` =Número de Poisson do filme;

+` =Coeficiente de expansão térmica do filme;

+c = Coeficiente de expansão térmica do substrato;

$ =Temperatura de deposição do filme;

 =Temperatura de utilização do filme.

Ao se depositar um filme fino o stress residual pode causar a curvatura do

substrato, a qual dependendo do tipo de stress, como observado na Figura 2-16,

causará uma curvatura positiva ou negativa do substrato. No caso do stress

compressivo o substrato é comprimido pela expansão do filme paralelamente a

superfície, esse tipo de stress pode causar defeitos como envergamento, bolhas e

até mesmo a separação entre o filme e substrato, já no stress tensivo o substrato é

tensionado pelo filme, devido ao fato de que o filme apresenta um menor coeficiente

62
de expansão térmica que o substrato, esse tipo de stress pode resultar em trincas

nos filmes depositados. Em ambos os casos quanto maior for a espessura do filme

depositado mais pronunciada será a curvatura do substrato.

Figura 2-16 – Deformação do substrato devido ao stress residual compressivo ou tensivo.

Existem diversas possibilidades para se quantificar o stress como, por

exemplo, as técnicas de medida do raio de curvatura do substrato [62], fabricação de

microestruturas [63], microscopia Raman [64] e difração de raios X [65]. Dentre essas

possibilidades, a que se destaca pelo fato de ser uma técnica simples e de fácil

implementação, pois não é necessária a fabricação de estruturas específicas, muito

menos utiliza equipamentos sofisticados como, por exemplo, um difratômetro de

raios X, é a medida do raio de curvatura do substrato, a ser descrita posteriormente,

sendo essa, portanto, a técnica que será utilizada nesse trabalho.

A determinação do stress residual pela medida de curvatura do substrato se

baseia no trabalho de Stoney [62], que a princípio relacionou o stress residual de

películas metálicas com o raio de curvatura do substrato, o qual era circular, no

entanto trabalhos posteriores como o de Preissig [66] demonstraram a possibilidade

de utilizar a equação de Stoney para outros formatos de substrato e filmes não

metálicos. Como geralmente silício é utilizado como substrato na maioria dos

estudos de filmes finos e suas propriedades são bem conhecidas, essa equação se

63
torna bastante útil, pois somente se baseia na espessura do substrato e do filme e

no número de Poisson e módulo de elasticidade do substrato, como apresentado a

seguir.

1 c ,c 
] = K M^ a (2.25)
g 6(1 − <c ) ,`

Onde:

] =Stress residual do filme;

Εh =Módulo de elasticidade do substrato;

<c =Número de Poisson do substrato;

,c =Espessura do substrato;

,` =Espessura do filme;

g =Raio de curvatura do substrato.

Como a maioria dos substratos utilizados já apresenta alguma curvatura devido

ao processo de fabricação, necessita-se medir a curvatura do substrato antes e após

a deposição do filme, subtraí-las e então obter a curvatura decorrente do stress

residual do filme. A equação que leva em consideração essa curvatura prévia do

substrato é denominada de equação de Stoney modificada a qual é apresentada

abaixo.

1 1 c ,c 
] = ^ − a^ a (2.26)
` i 6(1 − <c ) ,`

Onde:

` = Raio de curvatura com o filme;

i = Raio de curvatura sem o filme.

64
Para determinar a curvatura do substrato prévia e posteriormente a deposição,

foi utilizado uma alavanca óptica. Esse sistema consiste em um feixe de laser que

passa por uma lente divergente, em seguida, por uma matriz de pontos e, por fim, é

refletido pela superfície do substrato para um anteparo. Uma câmera digital tira uma

fotografia dos pontos no anteparo e um programa desenvolvido no próprio grupo de

pesquisa por Rehder [67] calcula a distância entre o centro desses pontos (Figura

2-17).

O programa calcula o raio de curvatura do substrato utilizando a equação de

Stoney modificada [67], que leva em consideração a distância entre os pontos na

amostra (∆X), no anteparo gerado por um espelho plano utilizado como padrão (∆E)

e a no anteparo gerado pelo substrato (∆S). O caminho óptico (L) utilizado foi de

0,943 m. Apesar do caminho óptico e da distância entre os pontos na amostra serem

pequenos, podendo acarretar erros na determinação da distância entre eles, o erro é

minimizado ao se utilizar os 36 pontos gerados pela matriz de furos, distribuídos em

6 linhas, sendo que cada linha apresenta mais 6 pontos cada. A distância média

entre os pontos é calculada da seguinte maneira:

Primeiramente se calcula a média simples entre a distância entre os pontos de

cada linha e, posteriormente, se obtém a distância média eles realizando a média

entre a média das distâncias de cada linha, obtendo-se assim uma boa estatística da

distância essas distâncias, possibilitando utilizar um caminho óptico e uma distância

entre os pontos na amostra relativamente pequenos.

65
Figura 2-17 – Diagrama esquemático do sistema de alavanca óptica utilizada nas medidas de raio
de curvatura do substrato [67].

Visto como é obtida a distância entre os pontos, o raio de curvatura do

substrato é obtido por:

kl
g = 2j (2.27)
k − k
Onde:

g = Raio de curvatura do substrato;

j = Caminho óptico percorrido pelo feixe;

ΔS = Distância entre os pontos no anteparo gerados pela amostra;

ΔX = Distância entre os pontos na amostra;

ΔE = Distância entre os pontos no anteparo gerados pelo espelho.

66
2.2.8. Determinação do coeficiente piezoelétrico

Diversas técnicas são reportadas na literatura para a determinação do

coeficiente piezoelétrico de carga dos materiais tanto por métodos diretos como

indiretos. Na

Tabela 2.1 é apresentado um resumo dos diversos métodos que podem ser

utilizados para caracterizar o coeficiente piezoelétrico de carga, bem como o efeito

físico associado ao método.

No entanto, salvo o método capacitivo, as técnicas apresentadas nessa tabela

para a determinação do coeficiente piezoelétrico de carga para filmes finos são de

difícil implementação, pois se tratam da obtenção desse parâmetro diretamente, ou

seja, se aplica um potencial e se verifica uma deformação ou aplicada uma pressão

se mede a carga gerada. Como o deslocamento de um filme fino piezoelétrico é da

ordem de alguns nanômetros, mesmo quando potenciais elevados, na ordem de kV

são aplicados, equipamentos sofisticados são necessários para que essa pequena

deformação seja mensurável. No caso de utilizar os cantilevers, um fator que

dificulta utilizar essa técnica é a necessidade do domínio tecnológico para fabricar

estruturas auto sustentadas.

Tabela 2.1 – Diversos conceitos associados a medida do coeficiente piezoelétrico dxy.


Método Causa – Efeito
Laser [68] Potencial – Deslocamento
Difração de raios X [69] Potencial – Deslocamento
Microscopia de força atômica Potencial – Deslocamento
[70]
Cantilever [71] Pressão – Carga
Carga [72] Pressão – Carga elétrica
Capacitivo [73, 74] Potencial – Variação de
capacitância

67
Devido à necessidade de utilizar equipamentos sofisticados ou então de

fabricar estruturas auto sustentadas, como é o caso dos cantilevers, optei por utilizar

nesse trabalho o método capacitivo, o qual apesar de ser um método não direto da

medida do coeficiente piezoelétrico, é de fácil implementação como descrito a

seguir.

Nesse método o coeficiente piezoelétrico é obtido ao se medir a capacitância

de um capacitor de placas paralelas com a camada dielétrica feita com o material

piezoelétrico que se deseja caracterizar. O coeficiente piezoelétrico é extraído da

variação de capacitância desse capacitor com e sem polarização DC.

A teoria relacionada a esse método capacitivo é explicada a seguir.

É conhecido que o comportamento de um capacitor de placas paralelas é dado

pela equação (2.28) [75]:

p p
Q = (2.28)
q
Onde:

p = Permissividade do vácuo;

p = Permissividade relativa ou constante do dielétrico;

 = Área do capacitor;

q = Espessura do dielétrico.

A partir do valor medido da capacitância, a equação (2.28) pode ser utilizada

para determinar a permissividade do dielétrico, que no nosso caso será a o AlN, o

qual, em temperatura ambiente, não apresenta variação de sua permissividade

dielétrica quando exposto a um potencial contínuo (dc). Quando um campo elétrico

68
dc (rs ) é aplicado a uma estrutura, como exemplificado na Figura 2-18 (b), sua

espessura aumenta em δt enquanto a área diminui em δA [76].

A A-dA

t E
t+dt

(a) Sem Campo (b) Com Campo


Figura 2-18 – Resposta piezoelétrica em função de um campo elétrico rs (a) sem e (b) com
aplicação de campo elétrico externo.

Essas modificações nas dimensões do dielétrico resultam na mudança da

capacitância do dispositivo, como observado na Figura 2-19, e pode ser calculada

usando a seguinte expressão:

p p( − u)
Qt = (2.29)
(q + uq)

Relembrando a notação utilizada dos coeficientes piezoelétricos, onde os sub-

índices 1, 2 e 3 representam os eixos cartesianos x, y e z respectivamente e que por

convenção é assumido que o eixo definido por 3 é paralelo ao campo elétrico

aplicado rs . Dessa maneira a variação na espessura δt e a variação na área δA

estão correlacionados com os coeficientes longitudinal (d33) e transversal (d31) de

carga respectivamente [20], onde o sinal negativo na variação de área é devido sua

redução como representado Figura 2-18.


69
Figura 2-19 – Capacitância em função da frequência de um capacitor fabricado com dielétrico de
AlN. C0 é sua resposta sem aplicar potencial elétrico dc externo e CV sua capacitância
aplicado um potencial elétrico externo dc de 2 V [74].

uq = v |, | (2.30)

−v |, |
u = (2.31)
q

Levando em consideração a conservação de volume do material, e também

que não houve variação de sua densidade devido a deformação, assume-se que o

coeficiente piezoelétrico de carga longitudinal (d33) é igual a duas vezes o latitudinal

(d31) chegando a seguinte relação, a qual além de ser válida para cerâmicas de

titanato zirconato de chumbo, ou PZT [20], é uma boa aproximação para outros

filmes como, por exemplo, o AlN:

70
|, | = 2|, | (2.32)

No entanto, quando se deseja utilizar uma relação mais precisa, que não faça

nenhuma suposição quanto a variação de densidade, deve-se utilizar a seguinte

relação, onde x varia entre 2 e 2,5 [20].

|, | = I |, | (2.33)

Onde para cerâmicas PZT vale:

uq u
= 2 (2.34)
q 

E para casos mais gerais se tem:

uq u
= I (2.35)
q 
Reescrevendo a equação (2.29):

u
p p x1 − y
Qt =  (2.36)
u,
q x1 + y
q
u
x1 −y
Qt = Q  (2.37)
uq
x1 + q y

Sendo:

u
x1 −  y
Q = (2.38)
uq
x1 + q y

Onde Cr parte da relação:

Qt = Q × Q (2.39)

Inserindo a equação (2.35) na equação (2.38) se obtém:

71
(1 − Q )
uq = q (2.40)
(I " + Q )

(Q − 1)
u =  (2.41)
(Q + I)

Onde para fins práticos, levando em consideração a conservação de

densidade, x pode ser aproximado para 2.

Portanto ao se aplicar um campo elétrico dc (rs ) ao dielétrico piezoelétrico, as

variações de dimensões resultarão na mudança da capacitância do dispositivo,

como exemplificado na Figura 2-19. Conhecendo a espessura inicial do dielétrico (t)

e a razão (Cr) é possível determinar os coeficientes piezoelétricos d33 e d31 a partir

das equação (2.30) e (2.31).

Essas medidas foram realizadas em um medidor de parâmetros RLC FLUKE,

modelo PM6304, utilizando um sinal de 200 Hz com amplitude de 1 Vpp,

pertencente ao departamento de sistemas eletrônicos da Escola Politécnica da

Universidade de São Paulo.

72
CAPÍTULO 3 - METODOLOGIA

A produção dos filmes de nitreto de alumínio (AlN) foi organizada em três

séries de deposições. Na primeira série o objetivo foi obter resultados preliminares

sobre o crescimento dos filmes em relação a potência de r.f. aplicada, pressão e

temperatura de processo e por esse motivo nessa série somente a taxa de

deposição foi caracterizada. Na segunda série de deposições procurei encontrar a

razão entre os fluxos de Ar e N2 que favorecesse principalmente o crescimento de

filmes de AlN com orientação cristalográfica (002), pois essa é a que apresenta

maior coeficiente piezoelétrico, uma vez que tinha como objetivo utilizar esses filmes

em MEMS atuados piezoeletricamente. Verificada a melhor razão entre os fluxos

gasosos, utilizarei essa composição gasosa para depositar a terceira série de

deposições, a qual verificará a influência da temperatura de deposição nas

propriedades dos filmes depositados.

Os filmes foram obtidos a partir da pulverização catódica (sputtering) de um

alvo puro de alumínio (99,99%) em uma atmosfera composta de uma mistura

gasosa de argônio (Ar) e nitrogênio (N2), a qual será apresentada no decorrer desse

trabalho da forma X-Y, onde X refere-se ao fluxo de argônio e Y ao de nitrogênio,

ambos em sccm (centímetros cúbicos padrão por minuto). A câmara de deposição

foi previamente evacuada a pressões menores que 4x10-7 Torr, de modo a eliminar

impurezas da atmosfera de deposição. Na Tabela 3.1 são apresentadas as três

séries de deposição realizadas e seus os respectivos parâmetros de processo.

73
Tabela 3.1 – Séries de deposição e seus parâmetros de processo.
Parâmetros de processo
Temperatura Mistura
Pressão de Potência de
de deposição gasosa Ar-N2
processo [mTorr] r.f. [W/cm2]
[°C] [sccm]
0,122, 0,612 e
1° série 5e2 25 e 250 10-20 e 80-20
1,23
2° série 2 250 1,23 Variável
3° série 2 150, 250 e 350 1,23 70-30

As técnicas de caracterização utilizadas nesse trabalho foram:

• Perfilometria que tem por objetivo determinar espessura dos filmes e

consequentemente sua taxa de deposição [Å/min];

• Absorção de infravermelho por transformada de Fourier (FTIR) para

estudar as ligações químicas presentes;

• Elipsometria para determinar tanto o índice de refração (n) quanto a taxa

de deposição;

• Espectroscopia por retro espalhamento de Rutherford (RBS) para obter

a composição química;

• Absorção na região do visível a qual tem por objetivo validar os

resultados do índice de refração obtidos por elipsometria, e determinar o

coeficiente de absorção e o gap óptico;

• Difração de raios-X (XRD) para verificar a orientação cristalográfica dos

filmes.

Além disso, também foram caracterizados o stress residual pela medida do raio

de curvatura do substrato, e a constante piezoelétrica de carga [d31] utilizando o

método capacitivo.

74
Devido necessidade de utilizar substratos específicos para cada tipo de técnica

de caracterização, a Tabela 3.2 apresenta uma relação dos tipos de substratos

utilizados nesse trabalho e as respectivas técnicas de caracterização nas quais eles

foram utilizados.

Tabela 3.2 – Relação dos tipos de substratos utilizados nas deposições.


Tipo de substrato Tipo de caracterização
Carbono amorfo
RBS
Ultra Denso
Quartzo Absorção no visível
Silício p(111) Elipsometria, XRD e FTIR
Elipsometria, XRD, FTIR,
Silício p(100) Perfilometria, Stress residual e
testes de corrosão

Além do tipo de substrato, cada técnica de caracterização também se

diferencia quanto a espessura ideal da camada a ser analisada como, por exemplo,

as técnicas de RBS e elipsometria são mais acuradas quando utilizado filmes com

espessuras na ordem de 1000 Å, enquanto que para caracterizar o gap óptico,

através da absorção na região do visível, e o stress residual é mais aconselhável

utilizar espessuras na ordem de alguns micrometros, sendo assim necessária a

deposição de mesmo filme, ou seja com a mesma composição gasosa, duas vezes

para a obtenção desses parâmetros.

Na fabricação dos capacitores de placas paralelas para obtenção do

coeficiente piezoelétrico de carga, o dispositivo foi fabricado utilizando as seguintes

etapas de processo:

1. Deposição da primeira camada de molibdênio com espessura de 1µm pela

técnica de sputtering, utilizando um fluxo de argônio de 100 sccm a uma

pressão de 2 mTorr, e uma densidade de potência de r.f. de 1,23 W/cm2;


75
2. Deposição de 0,6µm de AlN;

3. Deposição de 0,5 µm de molibdênio com os mesmo parâmetros da primeira

camada;

4. Litografia para definição dos capacitores;

5. Corrosão do molibdênio utilizando solução de nitrato cérico amoniacal (vide

item 4.2.8);

6. Remoção do fotorresiste com acetona seguida pela corrosão do AlN em

solução de TMAH a 80°C (vide item 4.2.8).

Na Figura 3-1 é apresentada a máscara utilizada para a definição dos

capacitores, bem como uma representação dos capacitores ao final do processo de

fabricação.

Figura 3-1 – Ilustração da máscara utilizada na litografia para definição dos capacitores utilizados
na determinação do coeficiente piezoelétrico de carga, e da configuração final dos
dispositivos.

76
CAPÍTULO 4 - RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nesse capítulo serão apresentados e analisados os resultados das três séries

de deposições realizadas nesse trabalho. As séries de deposições serão

apresentadas individualmente, e seus resultados apresentados de acordo com o tipo

de caracterização utilizada.

4.1. Estudo preliminar sobre as condições de deposição do AlN


(1ª série de deposições)

Como o estudo de filmes de nitreto de alumínio (AlN) é inédito no grupo de

novos materiais e dispositivos (GNMD), no qual foi realizado esse trabalho de

mestrado, a primeira série de deposições foi programada com o objetivo de se obter

resultados preliminares quanto ao o crescimento dos filmes em relação a potência

de r.f. aplicada, pressão e temperatura de processo, por essa razão somente as

taxas de deposição desses filmes foram caracterizadas. Essa série foi dividida em

três etapas. Na primeira, se verificou a influência da potência de r.f., a qual foi

variada de 0,123 à 0,617 W/cm2. Na segunda, foi variada a pressão de processo de

5 para 2 mTorr e incrementada ainda mais a potência de r.f. de 0,617 para 1,23

W/cm2. Na terceira e última etapa, foi variada a composição gasosa da atmosfera de

deposição e a temperatura de obtenção dos filmes. Os resultados, juntamente com

seus respectivos parâmetros de processo de cada etapa desta série são

apresentados na Tabela 4.1.


77
Analisando a Tabela 4.1, se observa que na 1ª etapa ao aumentar a potência

de r.f. a taxa de deposição, que para 0,122 W/cm2 foi nula, aumentou para 3 Å/min,

no entanto esta taxa é muito baixa para aplicações em MEMS, onde são

necessárias espessuras na ordem de poucos micrometros. Em função desse

resultado, na 2ª etapa a pressão de processo foi diminuída de 5 para 2 mTorr e a

taxa de deposição praticamente sextuplicou, resultado que pode ser atribuído ao

maior livre caminho médio das moléculas dentro do plasma e, consequentemente,

ao aumento da probabilidade do alumínio ejetado do alvo chegar ao substrato. A

maior taxa de deposição, aliada ao fato de que em menores pressões as moléculas

de AlN tendem a chegar perpendicularmente à superfície do substrato, favorece o

crescimento colunar dos cristais de AlN e, portanto, favorecendo a obtenção de uma

maior constante piezoelétrica, fez com que a pressão de processo de 2 mTorr fosse

escolhida para as demais séries de deposição. Pressões menores que 2 mTorr não

foram estudadas pois o plasma, no sistema de deposição utilizado nesse trabalho,

fica instável.

Como citado anteriormente para aplicações em MEMS é desejável ter taxas de

crescimento que possibilitem a deposição de filmes de poucos micrometros e,

portanto, a taxa de 17 Å/min, obtida na segunda etapa ainda não é apropriada para

as aplicações desejadas para esses filmes. Por esse motivo, a densidade de

potência de r.f. foi duplicada de 0,617 para 1,23 W/cm2 e, desta forma se obteve

uma taxa de deposição mais razoável de 67 Å/min. Potências maiores que 1,23

W/cm2, a qual corresponde aos 100 W aplicados ao alvo circular de 4 polegadas

(10,16 cm) de diâmetro utilizado, não foram aplicadas pois o sistema de deposição

não o permite.

78
Tabela 4.1 – Parâmetros de deposição da primeira série de deposições e suas respectivas taxas
de deposição.
Parâmetros de processo
Pressão de Temp. Potência Mistura Taxa de
processo deposição de r.f. gasosa deposição
[mTorr] [°C] [W/cm2] Ar/N2 [sccm] [Å/min]
5 25 0,123 10/20 0
1ª etapa
5 25 0,617 10/20 3
2 25 0,617 10/20 17
2ª etapa
2 25 1,23 10/20 67
2 25 1,23 100/0 257
Filme não
3ª etapa 2 25 1,23 80/20
aderiu
2 ~250 1,23 80/20 163

Uma vez determinada a pressão de trabalho e a potência de r.f. a intenção da

3ª etapa era analisar o efeito da mistura gasosa à temperatura ambiente, assim foi

depositado inicialmente um filme somente com Ar na mistura gasosa, ou seja, um

filme de alumínio puro sem aquecimento proposital do substrato, para depois variar

a mistura gasosa para depositar um filme de AlN. No entanto, a deposição do AlN

resultou em um filme que não aderiu a superfície do substrato, provavelmente

devido ao stress residual do filme, acreditamos que os filmes depositados nas

etapas anteriores aderiram à superfície do substrato provavelmente devido as suas

menores espessuras e, consequentemente, a força gerada pelo stress residual do

filme não foi capaz de o descolar do substrato. Também não deve ser

desconsiderado o fato de que em baixas taxas de deposição os átomos se

acomodam melhor na superfície do substrato, resultando em um menor stress

residual. Assim foi depositado um filme com aquecimento proposital do substrato em

torno de 250°C, como mostra a ultima linha da Tabela 4.1, o qual apresentou boa

aderência, além de uma maior taxa de deposição visto que a composição gasosa

também foi alterada para mais rica em argônio.

79
A temperatura de deposição é apresentada como “em torno de 250°C” devido

ao fato de que o sistema de aquecimento do substrato, realizado por uma lâmpada

halógena, do equipamento de sputtering, que nunca havia sido utilizado, entrava em

curto-circuito com o plasma aos ligá-los simultaneamente, queimando a etapa de

potência responsável pelo controle da temperatura. Assim, para que fosse possível a

deposição das amostras nessa parte do trabalho, a 3ª etapa da primeira série de

deposições foi obtida como segue:

• Aquecimento da amostra à 300°C, e estabilização da temperatura

durante 10 minutos;

• Deposição durante 5 minutos do filme com a lâmpada desligada, tempo

esse em que a temperatura do substrato diminuía para 200°C;

• Aquecimento da amostra novamente a 300°C e estabilização da

temperatura por mais 10 minutos.

Esse procedimento foi realizado sucessivamente até se obter o tempo de

deposição desejado. A temperatura de 250°C, obtida pela média simples entre a

temperatura do início (300°C) e a do final da deposição (200°C), foi assumida como

sendo a temperatura aproximada de deposição.

80
4.2. Estudo sobre a influência da composição gasosa entre Ar e N2 nas
propriedades físico/químicas do AlN (2ª série de deposições)

Antes de iniciar a deposição da 2° série, o problema com o aquecimento do

substrato foi solucionado ao se colocar entre a etapa de potência, responsável pelo

controle da lâmpada halógena e a rede elétrica, um transformador de isolação,

relação de espiras de 1:1, o qual deixou o potencial da lâmpada flutuante, evitando

que o plasma entrasse em “curto-circuito” com a lâmpada, possibilitando assim que

as deposições fossem feitas com o controle de temperatura ligado.

Em função dos resultados da série anterior e dos resultados da literatura que

reportam temperaturas em torno de 250°C [81], como sendo a que resulta em filmes

com características mais propensas para uso em MEMS, a temperatura escolhida

para esta nova série, que tem por objetivo estudar o efeito da mudança da mistura

gasosa nas propriedades dos filmes de AlN, foi de 250°C. As amostras depositadas

são nomeadas de acordo com a mistura gasosa utilizada na sua deposição e o

código de nomeação funciona da seguinte maneira, amostra X-Y, onde X é o fluxo

de argônio e Y o fluxo de nitrogênio, onde X+Y sempre igual a 100 sccm, por

exemplo, a amostra 80-20 apresenta 80 sccm de argônio e 20 sccm de nitrogênio na

mistura gasosa. Como algumas caracterizações são apresentadas somente em

função do fluxo do nitrogênio, para saber a quantidade de argônio nessas amostras

basta subtrair o fluxo de nitrogênio de 100.

Os resultados das caracterizações físico-químicas serão apresentados e

discutidos de acordo com a técnica utilizada.

81
4.2.1. Taxa de deposição

Como a perfilometria mede basicamente a topografia da superfície da amostra,

uma parte do substrato foi protegida mecanicamente, impossibilitando a deposição

de filme nessa região, e a espessura foi definida como sendo a variação de

topografia entre a parte com filme e a parte sem filme do substrato. Para diminuir o

erro da medida cada substrato foi medido três vezes e a espessura depositada foi

obtida pela média simples entre esses três resultados ( ver item 2.2.1).

A técnica de elipsometria também foi utilizada para determinar a espessura e,

posteriormente, a taxa de deposição de modo a verificar a confiabilidade das

próprias medidas de elipsometria, pois o elipsômetro, na configuração que se

encontra, está trabalhando em seu limite de confiabilidade para os filmes de AlN,

como está exposto nos resultados do índice de refração apresentados no item 4.2.5.

Na Figura 4-1 são apresentados os resultados da taxa de deposição em função do

fluxo de N2 para ambas as técnicas de caracterização.

Ao analisar essa figura se nota, primeiramente, que os resultados de

elipsometria convergiram com os obtidos por perfilometria, dando indícios que os

resultados de índice de refração obtidos por essa técnica são confiáveis. Observa-se

também que quanto mais argônio há na mistura gasosa maior é a taxa de deposição

do filme, resultado esse que está completamente de acordo com as expectativas,

uma vez que, como exposto na descrição do processo de sputtering, o argônio é o

gás responsável pela remoção dos átomos da superfície do alvo de alumínio e o

nitrogênio é somente um gás que tem por objetivo reagir com os átomos já ejetados

do alvo.

82
400
Taxa obtida por perfilometria
350 Taxa obtida por elipsometria
Taxa de deposição [A/min]

300

250

200

150

100

50

0
10 20 30 40 50 60 70 80
Fluxo de nitrogênio [sccm]
Figura 4-1 – Taxa de deposição em função do fluxo de N2 da 2° série de deposições obtida por
perfilometria e por elipsometria.

4.2.2. RBS

A caracterização por RBS é uma técnica de análise largamente utilizada em

ciência dos materiais para determinar sua composição química. As medidas de RBS

foram realizadas no Laboratório de Análise de Materiais por Feixes Iônicos do

Instituto de Física da USP (LAMFI-USP).

Na Figura 4-2 é apresentado a concentração percentual dos átomos de

alumínio e nitrogênio em função do fluxo de N2 na atmosfera de deposição. Observa-

se que na região onde o filme obtido ficou visualmente transparente não houve
83
variação estequiométrica considerável, já para os filmes que apresentaram um

caráter metálico, também avaliado visualmente, a concentração de Al aumenta à

medida que a concentração de N2 diminui, o que era de se esperar, uma vez que

não há nitrogênio suficiente na atmosfera de deposição para reagir com todo

alumínio removido do alvo. A mudança entre filme transparente e metálico ocorre de

forma bastante abrupta e coincide justamente com o ponto onde ocorreram as

mudanças nos espectros de FTIR a serem expostos a seguir.

Filme Filme
80
metálico transparente
Al
Concentração Percentual [%]

70 N

60

50

40

30

20
5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75
Fluxo de nitrogênio [sccm]
Figura 4-2 – Concentração percentual dos átomos de Al e N em função do fluxo de N2.

84
4.2.3. FTIR

Estas medidas são de grande importância para a área de materiais, pois

possibilitam obter informações sobre as ligações químicas presentes no material.

Neste trabalho foi utilizado um espectrômetro de infravermelho por transformada de

Fourier (FTIR) da BIO RAD modelo QS 300, pertencente ao Laboratório de Micro

Eletrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Os espectros de FTIR são apresentados normalizados pela espessura.

A literatura reporta que o AlN apresenta modos vibracionais ópticos

transversais (TO) e longitudinais (LO) em ~611, ~670, ~890 e ~912 cm-1, relativos

aos modos A1(TO), E1(TO), A1(LO) e E1(LO) respectivamente, que são sensíveis

ao infravermelho [77,78,79]. Na Figura 4-3 são apresentados os espectros dos filmes

depositados sobre Si (100) em função das diversas misturas gasosas estudadas

nesta série. Observa-se nesses espectros a presença de uma única banda de

absorção centralizada em 678 cm-1, referente ao modo vibracional E1(TO) da ligação

AlN, o pequeno desvio de seu valor característico (670 cm-1) é atribuído ao stress

residual que distorce a célula unitária, resultando em variações do pico de energia

da bandas de absorção [80].O filme obtido com 70 sccm de argônio e 30 sccm de

nitrogênio apresenta em 1100 cm-1 uma pequena banda de absorção, a qual se

refere a óxido de silício resultante da diferença entre a espessura de óxido de silício

nativo presente no substrato utilizado como referência e o utilizado na deposição do

filme.

É observado que quanto menos N2 a mistura gasosa tiver mais intensa fica a

banda de absorção localizada em 678 cm-1, no entanto, esse aumento contínuo

85
apresenta um máximo para o filme depositado com 20 sccm de N2 e diminui quando

se reduz ainda mais a concentração de N2, como se observa no filme depositado

com 18 sccm de N2. A normalização pela espessura feita nos espectros de FTIR

permite comparar quantitativamente o número relativo de ligações presentes nos

filmes analisados, sendo assim, posso relacionar a variação da intensidade do pico

com a quantidade relativa das ligações químicas presentes no material, dessa

maneira, posso concluir que a quantidade de ligações do tipo AlN esta variando

nessa faixa de composições gasosas estudada, no entanto essa variação não era

esperada se levado em consideração os resultados de RBS, observados na Figura

4-2, que não mostram variação na composição química desses filmes.

678
Ar-N2
82-18
80-20
70-30
60-40
Intensidade [u.a]

50-50
30-70

400 600 800 1000 1200 1400 1600


-1
Número de onda [cm ]
Figura 4-3 – Espectros de FTIR em função da composição gasosa da atmosfera de deposição.

Ao realizar a medida da largura a meia altura da banda de absorção do pico

localizado em 678 cm-1 dos espectros de FTIR, de modo a verificar a ordem

86
estrutural dos filmes fabricados, obtive resultados muito similares entre as próprias

amostras, o que indica, aparentemente, que não houve variação de ordem estrutural

desses filmes, porém como ocorreu uma diminuição nas ligações do tipo Al-N com o

aumento da concentração de N2, era esperado que outros tipos de ligações tivesse

aumentado, uma vez que não ocorreu variação na composição química desses

filmes, no entanto como os espectros de FTIR não mostraram o aparecimento de

outros tipos de ligação, acredito que esse aumento tenha ocorrido em ligações que

não são sensíveis a incidência normal de infravermelho utilizada nos experimentos,

como os modos ópticos longitudinais (LO), ou então em ligações não polares do tipo

Al-Al ou N-N, que só apareceriam em espectroscopia RAMAN, sendo possível

concluir que, apesar de não ter havido variação da largura a meia altura do pico

referente a ligação AlN, houve variação das ligações químicas presentes nos filmes.

4.2.4. Difração de raios X

As medidas de difração de raios-X, também conhecida como XRD (X-Ray

Difraction), foram efetuadas com o intuito de se verificar em quais orientações

cristalográficas os filmes estavam se formando, e são de extrema importância para

esse trabalho, pois diferentes orientações apresentam diferentes coeficientes

piezoelétricos.

Essas medidas foram efetuadas em um difratômetro de raios-X Rigaku, modelo

Ultima+, pertencente ao laboratório de cristalografia do Instituto de Física da

Universidade de São Paulo, com radiação Cu Kα de 1.5418Å.

87
A orientação cristalográfica dos grãos em um filme é determinada pelo

crescimento preferencial de certos planos do cristal sobre outros. Como citado na

seção 1.1 e representado na Figura 4-4, a estrutura Wurzite dos filmes de AlN

apresenta dois tipos de ligações entre Al-N, batizadas de B1 e B2, sendo a energia

da ligação B1 maior que a da B2 [36]. Nessa estrutura o plano (100) é composto de

ligações do tipo B1, enquanto o plano (002) é formado por ligações B1 e B2.

Figura 4-4 – Representação da estrutura cristalográfica do nitreto de alumínio e dos planos


cristalográficos (100) e (002).

Na Figura 4-5 apresento os difratogramas dos filmes obtidos para as diversas

misturas gasosas estudadas. É possível observar que para as amostras 50/50,

70/30 e 82/18 somente dois picos de difração são observados. O pico em 33,1° pode

ser atribuído tanto ao substrato de silício (100) utilizado, como a orientação (100) do

AlN, no entanto, devido a pequena largura a meia altura desse pico, o grão dessa

orientação é grande, logo, esse pico é atribuído ao substrato, como confirmado pela

medida de um substrato limpo de Si (100), onde esse pico também é observado, e o

88
valor de largura a meia altura é igual ao pico presente nos difratogramas dos filmes

de AlN. Em 35,9° há a reflexão referente a orientação (002) do nitreto de alumínio

[55]. Na amostra 80/20, além da reflexão do plano (002) se observam outros dois

picos em 37,6° e 49,5°, referentes às reflexões dos planos (101) e (102)

respectivamente, os quais são planos de transição entre o plano (100) e o (002). A

amostra 30/70 apresenta dois pequenos picos em 34,7° e 48,8° que talvez possam

ser atribuídos as orientações (002) e (102) sucessivamente, mesmo havendo uma

discrepância em torno de 1° de seus valores específicos que são 36,0° e 49,8°,

acredito que essa variação possa ser atribuída ao fato dos cristais serem pequenos,

como verificado pela grande largura a meia altura desses picos.

AlN Ar/N2
10000 (002) 30/70
50/50
70/30
Si 80/20
Intensidade [cps]

(100)
1000 82/18
Si(100)

AlN
100 (101)
AlN
(102)

10
30 32 34 36 38 40 42 44 46 48 50 52 54 56 58 60

Figura 4-5 – Difratogramas dos filmes de AlN em função da composição da mistura gasosa da
atmosfera de deposição.

89
Analisando a Figura 4-5 se observa que o aumento na concentração de argônio

na composição gasosa da atmosfera de deposição, produz um aumento gradativo

na intensidade do pico relativo à orientação (002), a qual apresenta o maior

coeficiente piezoelétrico, até atingir seu máximo na amostra 70/30. Esse aumento da

orientação (002) para concentrações maiores de argônio pode ser provavelmente

explicado pelo fato de que o argônio é o maior responsável por fornecer energia ao

sistema e, consequentemente favorecer a formação de ligações que necessitam de

mais energia, como é o caso das ligações do tipo B2, no entanto, essa explicação

não é válida para os filmes obtidos com fluxo de argônio maior que 70 sccm, pois a

intensidade da orientação (002) passa a diminuir e outros planos cristalográficos

passam a ser observados, como no caso do filme 80/20 onde além da orientação

(002) ter diminuído outras duas orientações apareceram e no filme 82/18, o material

passa a ser quase que amorfo.

Acredito que esse comportamento se deve ao fato de que argônio em excesso

na mistura gasosa entrega excessiva energia ao sistema, rompendo as ligações

mais fracas do tipo B2, resultando em uma amorfização do filme. Um

comportamento semelhante a esse foi observado por J.P.Kar [81] onde os filmes

depositados com temperaturas entre 200 e 300°C eram mais orientados no eixo c,

ou seja, apresentavam maior orientação (002) que o filme depositado a 400°C.

Tanto o valor da área relativa a cada pico quanto o valor da largura a meia

altura foram obtidos a partir da curva ajustada a cada pico, que no caso dos filmes

fabricados nesse trabalho, a que melhor se ajustou foi uma curva de lorentziana,

como representado na Figura 4-6 para o filme obtido com 70 sccm de argônio.

90
AlN 70/30
(002) lorentziana
10000

Área = 6616 u.arb.


Si o
Intensidade [cps]

Centro = 35,61
(100) o
1000 FWHM = 0,38

100

30 33 36 39 42 45 48 51 54 57 60

Figura 4-6– Exemplo do ajuste de uma curva lorentziana a um pico de difração de modo a
determinar o tamanho de grão cristalográfico e o grau de cristalização do filme.

Na Tabela 4.2 é apresentado o grau de texturização das diversas orientações e

o tamanho de grão cristalográfico da orientação (002) dos filmes fabricados. Ao

analisarmos essa tabela podemos observar que, apesar do filme 80/20 apresentar

um grande tamanho de grão cristalográfico, seu grau de texturização é menor que

dos filmes 70/30 e 50/50. O tamanho de grão da amostra 50/50 se mostrou maior

que o do filme 70/30, no entanto, apesar do grau de texturização de ambas as

amostras serem iguais, julgando pela intensidade de seus picos, é possível concluir

que a amostra 70/30 apresenta uma maior quantidade de material nessa direção,

uma vez que essas amostras apresentam praticamente a mesma espessura.

Em função desses dados concluo que a composição gasosa composta por 70

sccm de argônio e 30 sccm de nitrogênio favorece mais a deposição de filmes

91
orientados na direção (002), a qual é a que apresenta maior coeficiente

piezoelétrico.

Tabela 4.2 – Grau de texturização na direção, e tamanho de grão na direção (002) dos filmes
fabricados.
Padrão Amostra Amostra Amostra Amostra Amostra
Orientação
amorfo 82/18 80/20 70/30 50/50 30/70
(100) 0,33 -- -- -- -- 0,91
(002) 0,20 1 0,97 1 1 --
(101) 0,26 -- 0,01 -- -- --
(102) 0,08 -- 0,02 -- -- 0,08
(110) 0,13 -- -- -- -- --
Tamanho de grão
108 477 423 493
orientação (002) [Å]

De modo a visualizar como os filmes de AlN crescem, é apresentado na Figura

4-7 duas fotografias de corte transversal de microscopia eletrônica de transmissão

de alta resolução (HRTEM). Nessa figura uma das fotografias (a) é referente a

amostra 30/70 a qual apresentou pouca orientação na direção (002) sendo quase

amorfo, e a outra (b) é referente a amostra 70/30 a qual apresentou o maior

favorecimento de crescimento nessa direção. Ao analisar essas fotografias se nota

claramente que a amostra 70/30 apresenta regiões onde o crescimento se dá de

forma colunar, com um tamanho estimado de grão de aproximadamente 50 nm,

enquanto que a amostra 30/70 apresentou o crescimento pouco orientado, com

alguns pequenos domínios em direções variadas.

92
(a) (b)

50 nm

AlN AlN

Si

Figura 4-7 – Fotos de HRTEM de secção transversal dos filmes 30/70 (a) e 70/30 (b).

4.2.5. Índice de refração

A elipsometria é uma técnica de caracterização que possibilita determinar tanto

o índice de refração quanto a espessura de um filme fino. Essas medidas foram

realizadas em um elipsômetro da Rudolph Research, modelo Auto EL NIR-

3/4D/SS1, existente no Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da

Universidade de São Paulo, em um comprimento de onda de 638 nm.

O estudo bibliográfico sobre as características ópticas dos filmes de AlN

indicou que este material apresenta índice de refração em torno de 2,1. No entanto,

como esse valor de índice de refração se encontra justamente no limite superior de

confiabilidade do elipsometro utilizado, outro método para determinar esse

parâmetro do material também foi necessário, de modo a confirmar os dados obtidos

por elipsometria. É nesse sentido que se optou por realizar experimentos de


93
absorção na região do visível, que além de possibilitar o cálculo do índice de

refração também permitem determinar o gap óptico do filme. Essas medidas foram

realizadas em um espectrofotômetro da marca Shimadzu, modelo UV-1650 PC,

pertencente ao Laboratório de Micro Eletrônica da Escola Politécnica da

Universidade de São Paulo.

Na Figura 4-8 é apresentado a variação do índice de refração em função do

fluxo de nitrogênio, nota-se que, com exceção do filme depositado com 18 sccm de

N2, o índice de refração praticamente não variou, dentro do erro experimental, em

função da composição gasosa utilizada, resultado esperado uma vez que também

não foi observada variação significativa na composição química obtida por RBS. O

índice de refração de 2,5 obtido para o filme depositado com 18 sccm de N2 não

representa realmente o índice de refração do material analisado, pois essa

composição gasosa resulta em um filme metálico, para o qual a técnica de

elipsometria não é adequada, no entanto o resultado é apresentado para ilustrar

uma vez mais a região onde ocorre a transição entre os filmes transparentes e

metálicos.

Um programa desenvolvido no nosso grupo de pesquisas por Alvarado [82],

implementado em um software de programação matemática denominado

Mathematica®, foi utilizado para determinar o índice de refração pelo método

proposto por Cisneiros [83] com base nos dados de transmitância na região do

visível. Na Figura 4-9 é apresentado o resultado da variação do índice de refração

em função do comprimento de onda utilizando o programa acima citado, para os

dados de transmitância do filme depositado com um fluxo de 20 sccm de N2. A partir

disso se conclui, mais uma vez assim como na comparação feita entre a taxa de

94
deposição obtida por elipsometria e perfilometria, que os resultados obtidos por

elipsometria para um comprimento de onda de 638 nm são confiáveis.

2,6
Filme Filme
Metálico Transparente
2,5
Índice de refração [u.a.]

2,10

2,05

2,00
10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75
Fluxo de Nitrogênio [sccm]
Figura 4-8 – Índice de refração em função da composição gasosa da atmosfera de deposição
obtido por elipsometria.

95
3,6 Filme 80-20

3,4
Índice de refração [u.arb.]

3,2

3,0

2,8

2,6

2,4
(628 ; 2,13)
2,2

2,0
150 300 450 600 750 900 1050 1200
Comprimento de onda [nm]
Figura 4-9– Índice de refração obtido através dos dados de transmitância para o filme fabricado
em uma atmosfera de deposição composta por 20 % de N2 em função do comprimento
de onda.

4.2.6. Espectroscopia na região do visível (Uv-Vis)

Como citado na seção 2.2.5, o gap óptico do AlN é direto, e pode ser estimado

ao se analisar o comportamento do coeficiente de absorção (α) do material.

Na Figura 4-10 é apresentado o coeficiente de absorção em função da energia

do feixe incidente para a amostra 70/30, a qual cristalizou na direção (002), e 30/70,

a qual não apresentou crescimento preferencial nessa direção. Se pode observar

nessa figura que para ambas as amostras há uma saturação do coeficiente de

absorção para energias do feixe incidente maiores que 4,5 eV, o que me leva a

96
poder concluir que o gap óptico desses dois materiais é algo em torno de 4,5 eV, e

que a variação cristalográfica dessas amostras, assim como nos resultados de

índice de refração, não influenciaram nas características ópticas dos materiais

fabricados.

A literatura reporta que o AlN apresenta um gap direto de 6,1 eV, no entanto,

como citado anteriormente, os materiais fabricados nesse trabalho apresentaram um

gap de 4,5 eV, acredito que essa variação possa estar ligada ao grande stress

residual apresentado por essas amostras, a ser apresentado no próximo item, que

faz com que a estrutura cristalina do material se deforme, além de outras

características como defeitos do tipo contorno de grão, entre outros, que fazem com

que o material apresente maior absorção.

70/30
30/70
Coeficiente de absorção [cm ]
-1

10000

1000

100

1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 4,5 5,0 5,5 6,0 6,5 7,0
h ν [eV]
Figura 4-10 – Coeficiente de absorção em função da energia do feixe incidente para a amostra
70/30

97
4.2.7. Stress residual

Quando o objetivo principal é utilizar filmes finos para aplicações em MEMS é

crucial saber o stress residual desses materiais, pois essa caracterização permite

predizer se ao se retirar o apoio proveniente do substrato a estrutura suspensa irá

permanecer plana ou se curvará. Para calcular o stress residual em função do fluxo

de N2 foi utilizado a equação de Stoney [62] e com uma alavanca óptica determinado

o raio de curvatura do substrato antes e depois de deposição do AlN, ambos

explicados anteriormente na seção 2.2.7. Os resultados do stress residual e sua

dispersão são apresentados na Figura 4-11.

De modo a ter uma melhor estatística e apurar melhor do erro inerente a essa

caracterização, apesar da alavanca óptica obter o raio de curvatura do substrato

utilizando 36 pontos, o que resulta em uma boa estatística, efetuei essa

caracterização em dois substratos diferentes, porém o filme neles depositado foi

obtido ao mesmo tempo, por essa razão apresento nos resultados a seguir dois

pontos para cada fluxo, nomeados de amostra 1 e 2. Ao analisar essa figura

percebe-se que o stress residual não variou muito, dentro do erro experimental, para

os diferentes fluxos de N2, salvo o filme que foi depositado com 30 sccm de N2 , o

qual apresentou o menor stress residual em torno de 1 GPa compressivo. Esse

resultado é muito interessante para as aplicações objetivadas nesse trabalho, pois

foi justamente essa composição gasosa que favoreceu a deposição de um filme com

orientação cristalográfica preferencial (002) e consequentemente, uma maior

probabilidade de apresentar maior piezoeletricidade.

98
Em geral, para a fabricação de estruturas MEMS, é desejado que os materiais

apresentem stress residual o mais próximo possível do nulo, pois como citado no

item 2.2.7, quando o stress residual é muito elevado, defeitos no filme como trincas

ou, no caso da fabricação de microestruturas, envergamento do dispositivo, podendo

causar até mesmo sua ruptura.

Os filmes depositados nesta série, como observado na Figura 4-11,

apresentaram um stress residual muito elevado, fazendo com que, pelas razões

anteriormente expostas, seja necessária sua liberação de alguma forma para

viabilizar a fabricação de microestruturas auto-sustentadas.

0,0
Amostra 1
-0,5 Amostra 2

-1,0

-1,5
Stress [GPa]

-2,0

-2,5

-3,0

-3,5

-4,0
15 20 25 30 35 40 45 50 55 60
Fluxo de N2 [sccm]
Figura 4-11 – Stress residual em função do fluxo de N2 na mistura gasosa.

Uma das alternativas para se aliviar o stress residual de filmes finos é a

utilização de tratamentos térmicos. Esse processo tem por objetivo fornecer energia

99
térmica aos átomos que formam o material, de modo que, devido ao aumento de sua

energia eles sejam capazes de se acomodar de forma mais ordenada e,

consequentemente, reduzir o stress residual do filme.

O tratamento térmico foi realizado em uma atmosfera composta por 10% de

hidrogênio e o restante por nitrogênio e uma pressão de 30 mTorr, com a amostra

em uma temperatura de 250°C. A função do nitrogênio é manter um ambiente inerte,

de modo que não hajam contaminações por gases residuais presentes na câmera

de tratamento, já o hidrogênio tem por função fundamental reduzir qualquer oxigênio

que possa entrar no sistema por problemas de vedação.

A temperatura de tratamento foi ajustada para 250°C, pois as características

estruturais do filme mudam em temperaturas mais elevadas como citado

anteriormente.

Após 1 hora de tratamento térmico o stress residual dos filmes não diminuiu,

resultado similar foi observado por Hajas et. al [84], onde a diminuição do stress só

ocorreu em 900°C, no entanto nessa situação a morfologia do filme mudou. Ao

realizar o tratamento térmico na mesma temperatura da deposição a estrutura do

filme não muda o que é um aspecto importante, pois se deseja manter a orientação

(002) do material, no entanto mantendo sua estrutura seu stress também não varia.

Como não é possível reduzir o stress residual dos filmes após sua fabricação

com tratamentos térmicos, uma possibilidade que surge é a obtenção de filmes já

livres de stress, para tanto se deve diminuir a energia dos íons incidentes sobre a

superfície do filme, pois esses causam uma re-pulverização dos átomos

depositados, levando a defeitos intersticiais e vacâncias. Dois fatores estão

diretamente relacionados a energia dos íons incidentes, sendo um deles a potência

100
de r.f., a qual deve ser diminuída, e o outro a pressão de processo, que deve ser

aumentada, ambas variações visam diminuir a energia dos íons incidentes [85].

4.2.8. Testes de Corrosão

No processo de fabricação de microestruturas uma etapa que sempre se

encontra presente é a corrosão, seja ela química ou física. Neste tópico descrevo os

testes que foram realizados de modo a identificar os reagentes que podem ser

utilizados para definir estruturas quando o nitreto de alumínio está presente, seja

como material estrutural ou de sacrifício.

Atualmente os materiais mais utilizados como camada estrutural e sacrificial na

fabricação de MEMS no grupo de novos materiais e dispositivos (GNMD) são o

cromo (Cr), carbeto de silício (SiC) e o oxinitreto de silício (SiOxNy) [15,16], os quais

podem ser corroídos por:

• Remoção de cromo: Solução composta por 160 gr. de nitrato cérico amoniacal,

800 ml de água deionizada e 45 ml de acido acético, em temperatura

ambiente (20°C).

• Remoção do carbeto e oxinitreto de silício – Corrosão por plasma reativo (RIE

– reactive plasma etch) realizado em uma atmosfera composta por 40 sccm

de CHF3 e 40 sccm de O2, a 100 mTorr de pressão e uma densidade de

potência de rádio frequência de 221 mW/cm2 sem aquecimento proposital do

substrato.

101
A experiência do GNMD mostrou que o tempo necessário à corrosão total de

um filme de 1 µm de cromo em solução de nitrato cérico amoniacal é de

aproximadamente 2 minutos, já para corrosão de 1 µm em RIE de CHF3 são

necessários cerca de 50 minutos no caso do filme ser de SiC e 30 minutos no caso

do SiOxNy. Os filmes de AlN obtidos foram expostos tanto a solução para remoção

de cromo como ao RIE de CHF3 por 2 horas, e, em ambos os testes, os filmes se

mostraram bastante inertes, com uma taxa de corrosão impossível de ser

determinada, pois o degrau formado entre a região atacada do filme e a parte

protegida, mesmo após as duas horas de teste, foi muito pequeno, ficando dentro da

faixa de imprecisão da medida de perfilometria.

Outra solução química testada foi o hidróxido de tetrametilamônio (TMAH).

Essa solução foi preparada com uma concentração de 10%(wt) em peso,

aproximada para concentração em volume, uma vez que o TMAH apresenta

densidade próxima a da água, em uma temperatura de 80°C. Para proteger uma

parte da superfície e, consequentemente, formar um degrau entre o filme atacado e

o protegido utilizei um filme de cromo.

Na Figura 4-12 é apresentado a espessura de AlN corroído em TMAH em

função do tempo, onde a taxa de corrosão de 16 nm/s foi obtida pelo coeficiente

angular da reta ajustada a esses pontos.

Esses resultados são bastante promissores devido ao fato que mostram que se

pode continuar utilizando a mesma tecnologia que o grupo de novos materiais e

dispositivos já domina, a qual utiliza o cromo como filme de mascaramento/sacrificial

na fabricação de microestruturas.

Na Figura 4-13 apresento duas fotografias obtidas por microscopia eletrônica

de varredura (MEV) mostrando uma linha que foi definida no AlN (70/30) utilizando

102
justamente como filme de mascaramento o cromo, que nesse caso já se encontra

removido. Se observa nessa figura que as laterais da linha se encontram bastante

irregulares, apresentando um aspecto serrilhado. Devido a essa aparência, acredito

que essas irregularidades possam estar relacionadas com o crescimento do filme,

como visto nos resultados de microscopia eletrônica de transmissão, apresenta um

crescimento colunar.

Uma alternativa a utilização de corrosão úmida, que pode apresentar os

inconvenientes da isotropia e tensão superficial dos líquidos, é a corrosão seca, a

qual, para filmes de AlN, pode ser realizada utilizando gases clorados [84].

AlN 70/30
1800

1500 Equação y = a + b*x


coef. angular = 16,12
1200
Espessura [nm]

900

600

300

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90
Tempo de corrosão [s]
Figura 4-12 – Pontos experimentais da evolução da espessura corroída de AlN em função do
tempo, e reta ajustada aos pontos para determinar sua taxa de corrosão para
TMAH(10%wt) a 80°C.

103
Figura 4-13 – MEV das linhas definidas em AlN por corrosão úmida em TMAH.

O microscópio eletrônico de varredura utilizado foi


foi um nanoSEM 400 da FEI

company, pertencente
ertencente ao laboratório de sistemas integráveis da universidade
unive de

São Paulo.

4.3. Estudo da influência da temperatura de deposição nas características do


AlN (3ª Série de deposições)

O objetivo dessa série de deposições foi verificar a influência da temperatura

de deposição nas propriedades dos filmes de AlN.

A composição gasosa dos filmes fabricados será de 70 sccm de argônio e 30

sccm de nitrogênio. Essa escolha se deve principalmente ao fato de que os filmes

obtidos nessas condições apresentaram menor stress residual e maior cristalização

na direção (002), a qual apresenta maior piezoeletricidade, características essas que

possibilitam a produção de filmes mais apropriados para aplicações em MEMS.

104
Os filmes depositados foram obtidos a temperaturas de 150°, 250° e 350°C, em

uma atmosfera composta de 70% de argônio e 30% de nitrogênio, com uma

densidade de potência de r.f de 1,23 W/cm2 e uma pressão de 2 mTorr.

Os resultados obtidos bem como a discussão de seus resultados serão

apresentados, assim como na 2ª série de deposições, de acordo com a técnica de

caracterização utilizada.

4.3.1. FTIR

Na Figura 4-14 é apresentado os espectros dos filmes de AlN obtidos nas

temperaturas de 150°, 250° e 350°C depositados sobre (a) silício(100) e (b) silício

(111). Para ambos os substratos utilizados se observa somente a presença de uma

única banda de absorção centralizada em 678 cm-1, referente ao modo vibracional

E1(TO) da ligação AlN.

A normalização pela espessura feita nos espectros de FTIR permite comparar

quantitativamente o número relativo de ligações presentes nos filmes analisados,

portanto, podendo relacionar a variação da intensidade do pico com a quantidade

relativa das ligações químicas presentes no material. Partindo do exposto, posso

concluir que a quantidade de ligações do tipo AlN é máxima, para ambos os tipos de

substrato para a temperatura de deposição de 250°C.

105
(a) Si (100) 150 C
o
678
o
250 C
o
350 C
Intensidade [u.arb]

400 600 800 1000 1200 1400 1600


-1
Número de onda [cm ]
(b) 678 Si 111 150 C
o

o
250 C
o
350 C
Intensidade [u.arb]

400 600 800 1000 1200 1400 1600


-1
Número de onda [cm ]
Figura 4-14 – Espectros de FTIR do AlN depositados a 150°, 250° e 350°C para substrato de
Si(100) (a), Si(111) (b).

106
Na Figura 4-15 é apresentado uma comparação entre o filme depositado sobre

Si(100) e (111) para a temperatura de 250°C, e se verifica que ambos os espectros

são praticamente iguais, o que nos leva a concluir que aparentemente o tipo de

substrato de silício não influencia nas características do filme depositado a 250°C.

Si (100)
Si (111)
Intensidade [u.arb]

400 600 800 1000 1200


-1
1400 1600
Número de onda [cm ]
Figura 4-15 – Comparação entre os espectros de FTIR do filme depositado a 250°C sobre Si (100)
e Si (111).

A ordem estrutural dos filmes fabricados foi analisada pela medida da largura a

meia altura (FWHM) da banda de absorção do pico localizado em 678 cm-1 dos

espectros de FTIR e seus resultados são apresentados na Tabela 4.3. Ao analisar

esses resultados se verifica que os filmes depositados a 350°C apresentam uma

maior desordem estrutural comparado com as outras temperaturas de deposição, e

que o filme depositado sobre substrato de silício (100), independente da temperatura

107
de deposição, apresentou um crescimento mais ordenado do que quando

depositado sobre Si (111).

Tabela 4.3 – Largura a meia altura (FWHM) do pico de absorção referente a ligação Al-N
FWHM
150°C 250°C 350°C
-1 -1
Si (100) 104 cm 104 cm 120 cm-1
Si (111) 117 cm-1 108 cm-1 143 cm-1

4.3.2. Taxa de deposição

Na Figura 4-16 são apresentados os resultados da taxa de deposição em

função da temperatura de obtenção dos filmes. Ao analisar essa figura notamos que

a taxa de deposição para os materiais depositados a 150°C e 250°C é igual a

aproximadamente 9 nm/min, enquanto que para 350°C esta em torno de 6 nm/min.

A partir desses resultados concluo que a maior temperatura de deposição faz com

que haja uma maior compactação do filme depositado, no entanto, levando em

consideração somente os resultados de FTIR apresentados, essa maior

compactação acarretou somente um pequeno aumento na desordem estrutural

desses filmes.

108
9,5

9,0
Taxa de deposição [nm/min]

8,5

8,0

7,5

7,0

6,5

6,0

5,5
100 150 200 250 300 350
o
Temperatura de deposição [ C]
Figura 4-16 – Taxa de deposição em função da temperatura de deposição para os filmes
fabricados com 70sccm de argônio e 30 sccm de nitrogênio.

4.3.3. Difração de raios-X

Na Figura 4-17 são apresentados os difratogramas dos filmes obtidos nessa

série de deposições sobre Si (100) e Si (111). Ao analisar esses difratogramas se

nota que em ambos os substratos os filmes apresentaram um comportamento

semelhante, onde a temperatura de deposição de 250°C foi a que mais favoreceu,

quase que exclusivamente, o crescimento do filme na orientação (002), que ocorre

em 35,9° [55].

Nas amostras depositadas a 150°C, se observa que para ambos os substratos,

além da orientação (002), também se verifica a presença da (102), e quando


109
depositado sobre Si (111) observa a (100). É muito provável que essa orientação

esteja presente no filme depositado sobre Si (100), no entanto, devido a presença de

uma reflexão do substrato justamente na posição onde essa reflexão ocorre há o

mascaramento desse pico.

O comportamento dos filmes depositados nessa temperatura é muito

semelhante ao da amostra 80/20, apresentado no item 4.2.4, pois, em ambos os

casos, se observa a orientação (102), se refere a transição entre a orientação (002)

e (100). Entretanto, na amostra 80/20 a presença dessa orientação pode ser

atribuída à excessiva presença dos íons altamente energéticos de argônio, os quais

rompem as ligações mais fracas do tipo B2, já no caso das amostras 70/30

depositadas a 150°C, a presença da orientação (102) talvez possa ser atribuída a

baixa energia do sistema, ou melhor, a baixa mobilidade dos átomos sobre a

superfície do substrato fazendo com que átomos com menor atração, como é o caso

das ligações do tipo B2, não se encontrem, impossibilitando sua ligação química.

As amostras depositadas a 350°C apresentaram uma grande amorfização,

como pode se observar pela presença de um único pico pouco intenso e largo em

35,1°, o qual, mesmo havendo uma discrepância em torno de 1° de seu valore

específico que é em 36,0°, talvez possa ser referente a orientação (002) do AlN.

Acredito que esse comportamento possa ser atribuído, assim como na amostra

30/70 analisada na 2° série de deposições, ao fato dos cristais serem pequenos. A

partir desses resultados concluo que a alta energia (temperatura) do substrato

quebre tanto as ligações B1 quanto B2, amorfizando assim o material.

110
(a) 70/30 sobre Si(100) 150 C
0
AlN
(002) 0
250 C
10000
0
350 C
Substrato
Intensidade [cps]

Si Si(100)
1000

100
AlN
(102)

10

30 33 36 39 42 45 48 51 54 57 60

(b) AlN 70/30 sobre Si(111) 0


150 C
(002) 0
250 C
0
350 C
Substrato
1000
Intensidade [cps]

Si(111)

100 AlN
(100)
AlN Si
(102)

10

30 33 36 39 42 45 48 51 54 57 60

Figura 4-17 – Difratogramas das amostras depositadas sobre (a) Si (100) e (b) Si (111) a 150°,
250° e 350°C.

111
Na Figura 4-18 são apresentados os difratogramas das amostras depositadas a

250°C sobre silício (100) e (111), onde se observa que ambos os substratos

favoreceram, quase que exclusivamente, o crescimento da orientação (002) do AlN,

sendo o difratograma do filme depositado sobre Si (100) com um pico de maior

intensidade, o que me leva a acreditar que exista uma maior quantidade de material

depositado nessa orientação sobre esse substrato, uma vez que ambas as amostras

apresentam a mesma espessura.

AlN Si (111)
(002) Si (100)
10000
Intensidade [cps]

Si
1000

100
Si

AlN
10 (100)

30 35 40 45 50 55 60

Figura 4-18 – Comparação entre os difratogramas de AlN depositado sobre Si (100) e Si (111).

Na Tabela 4.4 é apresentado o tamanho de grão cristalográfico e o grau de

texturização da orientação (002) dos filmes fabricados. Ao analisar essa tabela, se

observa que os filmes depositados a 150° e 250°C apresentaram praticamente o

mesmo tamanho de grão cristalográfico, já o grau de texturização da amostra

depositada a 150°C, devido a presença de outras orientações nesse filme, é menor


112
do que quando depositado a 250°C. Outro aspecto que se observa é que, apesar de

apresentar uma quantidade menor de material na direção (002), quando depositado

sobre Si (111), os filmes apresentaram um maior tamanho de grão cristalográfico.

Tabela 4.4 – Grau de texturização e tamanho de grão cristalográfico na direção (002) dos filmes
fabricados sobre Si (100) e Si (111).

Si (100) Si (111)
Tamanho de 150° 250° 350° 150° 250° 350°
grão
orientação 558 554 215 627 630 302
(002) [Å]

Texturização 0,92 1 1 0,88 0,99 0,84

4.4. Determinação do coeficiente piezoelétrico de carga dos Filmes de AlN

Como citado no item 2.2.8, a piezoeletricidade dos filmes de nitreto de alumínio

fabricados nesse trabalho foi obtida por um método indireto, baseando-se na

medição da capacitância de um capacitor de placas paralelas com dielétrico de AlN

que se deseja caracterizar. O coeficiente piezoelétrico de carga é extraído a partir da

aplicação de um campo elétrico externo, que faz com que a espessura do dielétrico

variando assim sua capacitância.

Paralelamente aos capacitores fabricados com dielétrico piezoelétrico foram

fabricados capacitores de placas paralelas utilizando óxido de silício (SiO2) como

dielétrico, material esse que não é piezoelétrico logo sua capacitância não deveria

variar com a aplicação de um campo elétrico externo. Essa experiência foi realizada
113
de modo a verificar como efeitos secundários como, por exemplo, resistência série

dos contatos elétricos poderia afetar os resultados posteriores.

Na Figura 4-19 é apresentado a curva da capacitância em função da tensão

elétrica aplicada entre as placas do capacitor fabricado com dielétrico de SiO2. Se

verifica nessa figura que a capacitância variou somente 0,5% entre 0 e 17 volts, o

que vai de acordo com o esperado, uma vez que o SiO2 não é piezoelétrico, outra

característica interessante de se observar é que a maior parte da variação de

capacitância ocorreu entre 0 e 6 volts, estabilizando para valores maiores de tensão.

Com esses resultados pude, portanto, aferir experimentalmente qual é o erro

associado a essa medida devido a efeitos secundários, e principalmente a região

onde esses efeitos são mais pronunciados.

Na Figura 4-20 é apresentado a curva da capacitância em função da tensão

elétrica aplicada entre as placas do capacitor fabricado com dielétrico de AlN. Se

nota claramente nessa figura a variação da capacitância em função da tensão, que

entre 0 e 16 volts variou 2% e que praticamente o filme não apresenta histerese.

Outro aspecto que se nota nessa figura é que a capacitância praticamente não

variou entre 0 e 6 volts, resultado esse que não era esperado para um material

piezoelétrico, esse comportamento provavelmente está relacionado a maior

influência dos efeitos secundários nessa região como observado no capacitor

fabricado com dielétrico de SiO2.

Aplicando a teoria descrita em 2.2.8 para determinar o coeficiente piezoelétrico

d33, obtive um coeficiente piezoelétrico de carga d33 em torno de 0,5 ± 0,1 pm/V.

114
61,6
Dielétrico de SiO2
61,4

61,2
Capacitância [pF]

61,0

60,8

60,6

60,4

60,2

60,0
0 2 4 6 8 10 12 14 16
Tensão [V]
Figura 4-19 – Variação da capacitância em função da tensão aplicada entre as placas de um
capacitor de placas paralelas utilizando o SiO2 como dielétrico.

51,2
Incremento de tensão
51,0 Decremento de tensão

50,8
Capacitância [pF]

50,6

50,4

50,2

50,0

49,8

49,6
0 2 4 6 8 10 12 14 16
Tensão [V]
Figura 4-20 – Variação da capacitância em função da tensão aplicada entre as placas de um
capacitor de placas paralelas utilizando o AlN como dielétrico.
115
É reportado na literatura que o AlN bulk apresenta um d33 de 5,7 pm/V, acredito

que essa diferença de uma ordem de grandeza entre os resultados obtidos nesse

trabalho e o reportado na literatura, se deva ao fato de que os filmes de AlN

fabricados não são mono ou poli-cristalinos mas sim nano ou micro-cristalinos, com

um tamanho de grão cristalográfico de aproximadamente 55 nm, reduzindo assim a

piezoeletricidada equivalente, a qual é dependente da relação entre o material

amorfo e o cristalino. Outra característica que também pode estar afetando a

resposta piezoelétrica dos filmes fabricados é o fato deles apresentarem muitos

defeitos em sua superfície, causados pelo acúmulo de particulados provenientes do

ar atmosférico que se depositam sobre o substrato limpo durante seu manuseio,

como pode ser apreciado na fotografia do capacitor utilizado na caracterização da

piezoeletricidade do AlN, apresentada na Figura 4-21,onde é destacada a presença

de defeitos em sua superfície. Dentre os inconvenientes gerados por esses defeitos

na caracterização da piezoeletricidade do AlN, valores de polarização maiores que

18 V rompem o dielétrico.

116
Figura 4-21 – Vista superior do capacitor fabricado para o estudo da piezoeletricidado do
d AlN. Os
círculos destacam
stacam a presença de defeitos em sua superfície.
superfície

117
CAPÍTULO 5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste capitulo são apresentadas as principais conclusões desse trabalho, bem

como questões que ficaram em aberto e que poderiam ser a base para o início de

novos trabalhos de pesquisa.

5.1. Conclusões

Os resultados apresentados nesse trabalho mostram que de um modo geral ao

aumentar a concentração de argônio e, consequentemente, diminuir a de nitrogênio,

na composição gasosa da atmosfera de deposição, os filmes apresentam

características mais interessantes para as aplicações desejadas como, por exemplo,

maior taxa de deposição, aumento da quantidade relativa de ligações do tipo Al-N e

principalmente o aparecimento da orientação cristalográfica (002), a qual é a que

apresenta maior coeficiente piezoelétrico.

Para concentrações de argônio maiores que 80%, o filme passou a apresentar

caráter metálico com uma composição química rica em alumínio e um aspecto visual

que deixou de ser transparente, sendo essa transição entre transparente e

absorvente, ou melhor, entre estequiométrico e rico em alumínio, bastante abrupta.

Características como composição química, índice de refração e gap óptico não

variaram significativamente para a faixa de composição gasosa em que os filmes se

apresentaram visualmente transparentes.

118
O filme depositado com 70 sccm de argônio e 30 sccm de N2 foi o que

apresentou as melhores características, pois foi tanto o que apresentara a maior

quantidade de ligações do tipo Al-N quanto a maior orientação (002). O stress

residual dessa composição gasosa também se destacou, pois foi o menor dentre as

outras composições gasosas. Porém, apesar de ter apresentado o menor stress

residual, seu valor de 1GPa ainda é um valor de stress muito elevado, o que indica a

necessidade de realizar alguma mudança nos parâmetros de processo para que o

filme já seja obtido com baixo stress, pois o tratamento térmico não foi capaz de

reduzi-lo.

No estudo realizado sobre a influência da temperatura de deposição nas

características dos filmes de AlN, observei que quando depositados a 250°C os

filmes apresentam as melhores características para as aplicações desejadas.

Temperaturas de deposição menores que 250°C resultaram em filmes com menor

orientação na direção (002), além de apresentar também a orientação (100).

Temperaturas maiores que 250°C resultaram na amorfização do filme.

Foram analisadas as propriedades dos filmes quando depositado sobre Si

(100) e Si (111) e verificou-se que suas características pouco variaram, salvo o fato

de que ao crescerem sobre Si (100) os filmes apresentaram um tamanho de grão

cristalográfico da orientação (002) um pouco maior.

Os filmes apresentaram uma constante piezoelétrica de carga d33 em torno de

0,5 pm/V, a qual é uma ordem de grandeza menor que o reportado na literatura para

AlN bulk, acredito que essa menor resposta piezoelétrica seja resultado da poli ou

nano-cristalização do filmes fabricados.

119
5.2. Sugestões para trabalhos futuros

Esse trabalho mostrou que os filmes de AlN fabricados apresentaram um alto

stress residual, dificultando a obtenção das estruturas suspensas necessárias na

fabricação de sensores e atuadores, sendo assim, um estudo a ser continuado seria

variar parâmetros de processo tais como pressão de processo, potência de r.f. e

distância entre o porta amostra e o alvo de alumínio, de modo a diminuir a energia

dos íons incidentes, reduzindo assim o stress residual dos filmes fabricados.

Outro aspecto que pode ser estudado é a melhora do coeficiente piezoelétrico

de carga, o qual ficou uma ordem de grandeza menor do que o reportado na

literatura para o material bulk, para tanto, mudanças nos parâmetros de deposição e

no processo de limpeza do substrato devem ser modificadas, de modo a aumentar a

porcentagem de material cristalino e reduzir a presença de particulados provenientes

do ar atmosférico. Uma alternativa para a caracterização da piezoeletricidade é a

difração de raios-X para verificar a variação do parâmetro de rede dos cristais de

AlN na presença de um campo elétrico, experiência essa que foi vislumbrada nesse

trabalho, no entanto, inviabilizada pela presença de particulados provenientes do

manuseio do substrato nos filmes fabricados, fazendo com que os eletrodos superior

e inferior necessários à aplicação do campo elétrico no filme de AlN, as quais nesse

experimento devem ser de pelo menos 10x10 mm para que o feixe de raios-X incida

sobre a amostra, entrassem em curto circuito.

Outro aspecto que fica em aberto é utilizar esse material na fabricação de

estruturas suspensas simples como, por exemplo, pontes e cantilevers, de modo a

identificar os processos de fabricação necessários na fabricação de MEMS.

120
ARTIGOS DECORRENTES

- M.V.Pelegrini and I.Pereyra “Study of a-Si1-XCX:H Thin Films Obtained by


PECVD in Temperatures Lower than 250°C Aiming Applications in Optics, Thin
Films Devices on Polymeric Substrate and MEMS”. ECS Transactions 23 (2009)
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- M.V.Pelegrini, G.P.Rehder and I.Pereyra “A-SiC:H Films Deposited by PECVD


for MEMS Applications” Phys. Status Solidi C 7, (2010). 786.

- M.V.Pelegrini and I. Pereyra “Characterization of AlN films deposited by r.f.


reactive sputtering aiming MEMS applications” Phys. Status Solidi C 7, No. 3–4,
(2010) 840.

- M.V.Pelegrini, D.O.Carvalho, M.I.Alayo and I. Pereyra “AlN anti-resonant layer


ARROW waveguides”, Proc. of SPIE Vol. 7598 75981X-1 (2010).

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