Cap - Bruno Romualdo Barreto
Cap - Bruno Romualdo Barreto
Cap - Bruno Romualdo Barreto
RESUMO
O Brasil foi descoberto em 1500 por Pedro Álvares Cabral, navegador português, que
rumava às Índias atrás de especiarias no período da expansão marítima europeia. Desde que
se instalaram no país, os portugueses estabeleceram uma relação de exploração, com a
extração do pau-brasil. No final do mesmo século, iniciaram o cultivo da cana-de-açúcar em
Pernambuco, com base em mão de obra escrava negra oriunda da África. Semelhante às
comemorações do bicentenário da vinda da família Real ao Brasil, o bicentenário da
independência deve mobilizar intelectuais e escritores no lançamento de livros e obras
referentes à data. O momento merece um balanço dos 200 anos da proclamação da
independência e quais mudanças proporcionou ao país desde então. Assim, este trabalho tem
por objetivo mostrar se nesses 200 anos o país avançou em termos de ganhos na cidadania,
em indicadores econômicos e sociais. O que de fato foi conseguido, o que se alcançou, o que
ficou pelo caminho, o que resta a realizar, e, dentro disso, quais as metas prioritárias.
ABSTRACT
Brazil was discovered in 1500 by Pedro Álvares Cabral, Portuguese navigator, who was
going to the Indies for spices during the period of European maritime expansion. Since settling
in the country, the Portuguese have established a relationship of exploitation, with the extraction
of brazilwood. At the end of the same century, sugar cane was cultivated in Pernambuco, based
on black slave labor from Africa. Similar to the celebrations of the bicentenary of the arrival of
the Royal family to Brazil, the bicentenary of independence must mobilize intellectuals and
writers to launch books and works related to the date. The moment deserves a review of the
200 years since the proclamation of independence and what changes it has provided to the
country since then. Thus, this work aims to show whether in these 200 years the country has
advanced in terms of gains in citizenship, in economic and social indicators. What has actually
been achieved, what has been achieved, what has remained in the way, what remains to be
done, and, within that, what are the priority goals.
1- INTRODUÇÃO
A memória pode ser também uma releitura de vestígios. Ela também é ativa e
interativa. A memória individual também tem um aspecto coletivo que é a mediação da
linguagem, na comunicação feita.
O mesmo pode-se dizer da tradição, que não pode mais ser entendida como
tendo a função de dar continuidade aos hábitos, costumes e ideias vigentes, nem ser
concebida como algo estático. Ela pode ter um lado construtivo e dinâmico. Isto porque
“a memória e a História são instrumentos de poder e de controle do passado por
diferentes segmentos sociais de acordo com seus interesses”. Segundo Gontijo (2014),
são usos do passado por grupos diferentes. Na primeira República do Brasil, por
exemplo, o passado foi utilizado para legitimar governos que se consolidavam no
momento.
Com a proclamação da República, houve uma investida em favor da exaltação
desse regime como a verdadeira independência do Brasil e não 1822, de forma que
caísse no esquecimento. As comemorações de datas mostram que “o passado pode ser
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agentes políticos detentores do poder, quanto para os agentes que exigem novas
demandas e direitos.
Assim, este trabalho tem por objetivo mostrar se nesses 200 anos o país avançou
em termos de ganhos na cidadania, em indicadores econômicos e sociais. O que de fato
foi conseguido? O que se alcançou? O que ficou pelo caminho? O que resta a realizar, e,
dentro disso, quais as metas prioritárias?
O trabalho se justifica pelo momento propício da comemoração para um balanço
dos 200 anos da Independência. O estudo pode abrir as possibilidades para se pensar no
período seguinte e abrir o caminho das mudanças necessárias ao país, a partir de
fundamentação histórica. Analisar as respostas das obras especializadas e teorias sobre o
assunto e eventualmente apresentar hipóteses para trabalhos posteriores.
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2 – ANTECEDENTES
“Dia do Fico”, atendendo mais de 8 mil assinaturas pela sua presença. A decisão foi
mais um passo em direção à emancipação do Brasil em relação à Portugal.
Segundo Schwarcz, em fevereiro de 1822, várias províncias do Brasil já
anunciavam o apoio à total autonomia do Brasil. Os maçons, que faziam parte da elite e
tinham grande influência na política brasileira, propuseram a instalação de uma
Assembleia Constituinte, o que tornava claro o desejo de rompimento com Portugal.
Os assessores do príncipe já elaboravam documentos, projetos e deliberações
com pautas mais conservadoras como a manutenção da Monarquia no país, para se
evitar projetos mais populares. O anúncio da independência do Brasil por D. Pedro, em
7 de setembro de 1822, teria sido mera oficialização de algo já forjado dias antes com os
governos provinciais e as elites locais. Algumas províncias recusaram aderir ao
processo de independência e anunciaram sua lealdade à Portugal. Essa postura
desencadeou a chamada Guerra da Independência, contra as províncias do Pará, Bahia,
Maranhão e Cisplatina, que durou até 1824.
Ainda em dezembro de 1822, D. Pedro é aclamado Imperador do Brasil e
coroado D. Pedro I. O processo de independência portanto, cria uma situação política
diferenciada ao anunciar sua independência em relação à metrópole: deixa de ser
colônia portuguesa, porém, mantém a Monarquia no país na figura de D. Pedro,
impedindo a implantação de um regime republicano, com viés mais democrático.
De acordo com Schwarcz (2010), as colônias espanholas na América Latina,
influenciados pelas teorias do Iluminismo que tinha a liberdade como bem maior,
passaram por rebeliões de independência entre 1780 e 1833. Elas inspiraram as revoltas
de emancipação no Brasil ao questionar os altos impostos cobrados pela Coroa da
Espanha, a estratificação social que alijava muitos de alguns benefícios.
Ainda segundo a autora, a proclamação da Independência teve consequências
imediatas à Nação, como o surgimento do Brasil enquanto nação independente; a
construção da nacionalidade “brasileira”; e o estabelecimento de uma monarquia após a
descolonização. Além disso, o Brasil endividou-se no processo de independência ao ter
que indenizar Portugal com a quantia de 2 milhões de libras.
Para Schwarcz, movimento pela independência do Brasil teve caráter liberal ao
romper com a dominação colonial, mas:
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ensino primário, que dependia de muitos poucos professores, mal pagos pelo estado e
sem instalações adequadas de ensino (ARANHA, 2006).
Assim, argumenta Aranha, em 1822, o país ainda se encontrava sob a
organização educacional implantada por Portugal para substituir os jesuítas. Esta
organização previa a contratação e manutenção de professores laicos, concursados e
pagos pelo governo português. Durante o período do Império (1822-1889), o avanço da
educação no país se processou de maneira excessivamente lenta, desorganizada e
desigual. E esse foi um período crítico em que em vários países do mundo já se
identificava a educação como chave para o desenvolvimento de uma nação. Foi nesse
momento que passou a se verificar um decisivo atraso educacional do país ante as
nações mais desenvolvidas, um problema que entraria para o século XX.
Já em 1824, a Primeira Constituição Brasileira dizia em seu o artigo 179: “a
instrução primária é gratuita para todos os cidadãos”. Além de não ser obrigatória, a
educação abrangia somente os cidadãos, ou seja, homens brancos livres acima dos 21
anos. Isto excluía a maior parte da população, inclusive escravos e mulheres.
(ARANHA, 2006)
Logo em seguida, a primeira lei sobre o setor de educação (Lei de 15 de outubro
de 1827) determinava que as Escolas de Primeiras Letras (hoje, ensino fundamental)
deveriam ensinar, para os meninos, a leitura, a escrita, as quatro operações de cálculo e
as noções mais gerais de geometria prática. A mesma lei estabelecia que os presidentes
de província definiriam os ordenados dos professores, que estes deveriam custear sua
formação, e que, além dos conteúdos das disciplinas, deveriam ser ensinados os
princípios da moral cristã e de doutrina da religião católica e apostólica romana.
No período regencial (1831-40), o fato mais importante na área educacional foi a
promulgação do Ato Adicional, de 6 de agosto de 1834, que atribuiu às Assembléias
Legislativas provinciais o poder de legislar com exclusividade sobre a instrução pública
nos níveis primário e médio, repassando ao poder local o direito de criar
estabelecimentos próprios. Ao governo central ficaria reservado o controle sobre o
ensino superior. (ARANHA, 2006)
Também nessa época começaram a surgir as primeiras escolas para formação de
professores (Escolas Normais), restritas entretanto às principais cidades do país. Mas
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Abolição da Escravatura
identidade cultural por terem origens étnicas comuns. Já de 1820 a 1840, continua a
autora, a Bahia presenciou rebeliões de militar es, motins e até saques exigindo a
instauração da República brasileira. Em 1837, ocorreu uma grande rebelião que ficou
conhecida como a Sabinada. Os revoltosos defendiam a separação do estado da Bahia
do resto do país. O levante foi sufocado com a morte de mais de mil rebeldes e quase
600 soldados.
A Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos se estendeu de 1835 a 1845. A
revolta pedia pelo fim do Império e a separação da província de São Pedro do Rio
Grande do Sul. Dela participaram peões de estâncias bem como proprietários de terras e
de gado. Os rebeldes venceram várias batalhas, mas ao final, o Império conseguiu
sufocar o levante já desgastado e sem homens para lutar. Porém, muitas de suas
reivindicações foram atendidas, como a dívida da guerra paga pelo Império, o ingresso
de alguns oficiais do levante no Exército Imperial e a liberdade dos escravos que
participaram das lutas (Schwarcz, 2019).
A revolta da Balaiada se iniciou em 1838 no Maranhão, e os rebeldes
protestavam contra os altos tributos do Império e, segundo Schwarcz, também contra os
grandes proprietários de terras locais. Deste modo, se uniram os trabalhadores livres, os
escravos e os profissionais liberais dos setores médios urbanos para defenderem os
ideais republicanos como forma de acabar com as injustiças e pelas condições de
miserabilidade da região. Os revoltosos chegaram a saquear fazendas e a estabelecer um
governo provisório. Ao final, os setores médios abandonaram a luta que foi debelada em
1841, deixando 12 mil sertanejos e escravos mortos.
De acordo com Schwarcz, todas essas rebeliões tiveram papel decisivo tanto na
abolição da escravidão, em 1888, quanto na proclamação da República em 1889, porque
o Império estava cada vez mais enfraquecido e amplas camadas da população exigiam o
fim do trabalho escravo. A Guerra do Paraguai (1865 – 1870) também colaborou para
pressionar o fim da escravidão, uma vez que os próprios soldados exigiam a libertação
dos negros que lutaram na guerra ao seu lado. Ademais, alguns estados até se
anteciparam como Ceará e Amazonas, que aboliram a escravatura já em 1885.
Intelectuais, jornalistas e escritores brasileiros também militaram em prol dos negros,
participando de movimentos e exigindo a abolição imediata e sem indenização para os
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povo mudanças positivas e menos injustiças sociais antes praticada pelas administrações
monárquicas (Schwarcz, 2019).
Novas formas de exploração política foram se estabelecendo em cada região do
país, como o coronelismo no Nordeste, na figura do coronel que era o proprietário de
terra e ao mesmo tempo controlava a política local na base da troca de votos por
favoritismos.
No Brasil, durante o período colonial, desde a fase das capitanias
hereditárias no século XVI, a propriedade de terras foi concedida
através de sesmarias. (...) Muitas terras foram ocupadas sem título
legal ao longo do processo de colonização do Brasil. Na realidade, na
ausência de legislação clara e abrangente, a ocupação de novas terras
deu-se através de simples posse, muitas vezes prevalecendo os mais
fortes sobre os mais fracos (Abre; Lago, 2010, p. 17).
O grupo formou uma pauta comum em 1961, que deveria se iniciar com a
reforma agrária.
Em 1964 houve um retrocesso histórico, quando os militares depuseram o
governo do então presidente João Goulart mediante golpe de Estado. O novo regime
fechou o Congresso Nacional, cassou e prendeu vários políticos e intelectuais e outros
foram obrigados a deixar o país, se exilando no Exterior, como o próprio Goulart. O
fechamento do regime teve a colaboração dos EUA em sua perseguição ideológica
contra a “ameaça” do comunismo de Cuba e da URSS.
3.5 - Redemocratização
4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS
milhões no ensino fundamental (alunos de seis a catorze anos), 7,5 milhões no ensino
médio, além de anos nos níveis de ensino técnico-profissionalizante, educação de jovens
e adultos (EJA) e educação especial.
Em 2019 havia 2,2 milhões de docentes na educação básica, incluindo 1,4
milhão no ensino fundamental, além de professores da educação infantil, ensino médio,
profissionalizante, educação de jovens e adultos e educação especial. Na mesma época,
o Brasil contava com 180,6 mil estabelecimentos de educação básica, incluindo 126,2
mil para o ensino fundamental e 28,9 mil de ensino médio, além de estabelecimentos
para educação profissional, para a educação de jovens e adultos (EJA) e educação
especial, segundo dados do Censo Educacional 2019, do INEP.
Apesar disso, o analfabetismo no Brasil ainda afeta 7,0% da população
brasileira, o que equivale a 11,3 milhões de pessoas. A taxa manteve-se praticamente
estável desde 2016. Além disso, ainda há os analfabetos funcionais, indivíduos
conseguem escrever e ler um bilhete, mas não são capazes de interpretar o que foi
escrito, e que equivalem a 29% da população brasileira, conforme dados do IBGE de
2019.
Vários outros avanços foram obtidos pelos movimentos sociais como o
casamento entre LGBTs, a aprovação da lei contra o racismo, que é inafiançável e
imprescritível, conquistada na Carta de 1988. Essas conquistas foram aprovadas após
muita discussão na Constituinte, com a participação de vários representantes da
sociedade civil, organizações feministas, movimentos negros, sindicatos de vários
setores trabalhistas, educadores, juristas, ambientalistas. Muitas propostas e emendas
populares foram apresentadas aos partidos levadas para discussão (CUNHA, 2015).
As políticas desenvolvimentistas tendo o Estado à frente dos investimentos nas
empresas estatais dos setores estratégicos iniciadas sob o governo Vargas foram
inicialmente desfeitas sob os governos Collor e FHC. Os governos Lula e Dilma
retomam o papel central do Estado no comando do desenvolvimento econômico e nas
políticas sociais. Atualmente, o governo de Bolsonaro aderiu à linha neoliberal do
Estado mínimo.
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REFERÊNCIAS
ABREU, Marcelo de Paiva; LAGO, Luiz Aranha Correa do. A economia brasileira no
Império, 1822-1889. Rio de Janeiro: PUC. 2010.
SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São
Paulo: Companhia das Letras, 2015.
TOMBOLO, Guilherme; SAMPAIO, Armando Vaz. O PIB brasileiro nos séculos XIX e
XX: duzentos anos de flutuações econômicas. Revista de Economia, v. 39, n. 3 (ano
37), p. 181-216, set./dez. 2013.