Bentham
Bentham
Bentham
XXXIV
JEREMY BENTHAM
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UMA INTRODUÇAO AOS
,,,,..
PRINCIPIOS DA MORAL
E DA LEGISLAÇAO
,,,,..
SISTEMA DE LOGICA
DEDUTIVA E INDUTIVA
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UMA INTRODUCAO
-
,,,,,..
AOS
PRINCIPIOS DA MORAL
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E DA LEGISLACAO
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O princípio da utilidade
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Interesse é uma dessas palavras que, por não ter um gênero (genus) superior, não pode ser definida por via
ordi nária. (N. do A.)
PRINCÍPIOS DA MORAL E DA LEGISLAÇÃO II
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Ouvi esta objeção: " O princípio da utilidade é um princípio perigoso; em certas ocasiões é perigoso
consultá-lo (to consult it)". Isto equivale a dizer: não é condizente à utilidade consultar a utilidade."' (N. do
A.)
* Não logramos uma versão portuguesa que expressasse fielmente o pensamento do autor e ao mesmo
tempo salvasse o jogo de palavras que aparece no fraseado inglês com o qual o autor comenta a objeção
acima citada: This is as much as to say, what? That it is not consonant to utility, to consult utility: in short,
that it is not consulting il, to consult it. (N. do T.)
12 BENTHAM
ciência do fato. Os seus argumentvs, se algo demonstram, não provam que o prin-
cípio é errôneo, mas apenas que, segundo a aplicação que a pessoa em questão
acredita dever fazer dele, o princípio é mal aplicado. É possível a um homem
mover a terra? Sim, porém para isto é necessário antes encontrar uma outra terra
que sirva como ponto de apoio.
XIV. - Refutar a justeza do princípio da utilidade com argumentos consti-
tui tarefa impossível. Entretanto, em virtude das razões acima mencionadas, ou
por motivo de uma visão confusa e limitada que se tem do princípio, é possível
que uma pessoa não o aprecie. Se tal for o caso, e se tal pessoa acreditar que vale
a pena discutir sobre as suas opiniões acerca do assunto, façamos com que ·ela
execute os seguintes passos. É possível que, a longo prazo, a pessoa se reconcilie
com o nosso princípio.
(1) Façamos com que a pessoa reflita dentro de si mesma se deseja descartar
totalmente este princípio. Se ela optar por esta alternativa, peçamos-lhe que con-
sidere a que se reduzem todos os seus argumentos, sobretudo em matéria de
política.
(2) Se a pessoa estiver disposta a isto, façamo-la discutir consigo mesma
sobre estas perguntas: estaria ela disposta a julgar e agir sem basear-se em ne-
nhum princípio? Existiria algum outro princípio sobre o qual estaria disposta a
basear o seu julgamento e a sua ação?
(3) Se a pessoa optou por um outro princípio, levemo-la a examinar satisfa-
toriamente diante de si mesma se o princípio que acredita haver encontrado cons-
titui na realidade um princípio inteligível diferente, ou se talvez não seria apenas
um pseudoprincípio ou mero jogo de palavras, uma espécie de frase estereoti-
pada, que fundamentalmente não expressa nem mais nem menos do que um mero
reconhecimento das suas próprias opiniões infundadas - em outros termos, o
que a referida pessoa denominaria um capricho, se se tratasse de outra pessoa.
(4) Se a pessoa estiver inclinada a crer que a própria aprovação ou desapro-
vação que dá à idéia de um ato, sem qualquer consideração pelas suas conseqüên-
cias, constitui para ela um fundamento suficiente para julgar e agir, façamo-la
refletir consigo mesma sobre a seguinte questão: o seu modo de pensar deve ser
considerado como norma do reto e do errado para todos os outros homens? Ou
será que a convicção de cada um tem o mesmo privilégio de constituir uma
norma-padrão?
(5) Se responder afirmativamente à primeira questão, façamo-la perguntar-se
a si mesma se o seu princípio não é despótico e hostil a todos os outros homens.
· ( 6) Se responder afirmativamente à segunda questão, perguntemos se tal
princípio não leva ao anarquismo, e se, caso assim for, não haveria tantas normas
do reto e do errado quantos são os homens. Perguntemos-lhe também se, nesta
hipótese, não se deveria concluir que, mesmo em se tratando de uma e mesma
pessoa, o que é hoje reto amanhã poderia ser errado, sem que haja a mínima alte-
ração na própria coisa. Inquiramos também se, nesta hipótese, não aconteceria
inevitavelmente que uma e mesma coisa seria ao mesmo tempo reta e errada, no
mesmo lugar. Em ambos os casos, perguntemos se toda a argumentação não che-
PRINCÍPIOS DA MORAL E DA LEGISLAÇÃO 13
gou ao fim. Perguntemos também se, depois de duas pessoas dizerem "Eu gosto
disto", e· "Eu não gosto .disto", poderão ainda, baseada em tal princípio, ter algo
mais a dizer.
(7) Caso a referida pessoa diga "Não", alegando que o princípio que propõe
como norma de pensar e de agir deve fundar-se na reflexão, perguntemos-lhe a
que pontos particulares deve voltar-se a reflexão. Se a reflexão tiver por objeto
pontos particulares relacionados com a utilidade do ato, perguntemos-lhe se isto
não significa abandonar o seu próprio princípio e recorrer àquele mesmo princí-
pio contra o qual está combatendo. Se a pessoa responder que a reflexão a ser
feita não tem por objeto pontos particulares referentes à utilidade, mas outros,
perguntemos-lhe quais seriam esses outros pontos particulares.
(8) Se a pessoa optar por um compromisso, adotando em parte o seu próprio
princípio e em parte o princípio da utilidade, façamos com que pergunte a si
mesma até que ponto adota este último.
(9) Quando a pessoa tiver determinado para si mesma o ponto até o qual
decidiu adotar o princípio da utilidade, façamos com que pergunte a si mesma
como justifica o fato de tê-lo adotado até este ponto e por que não o adota na sua
totalidade.
(10) Admitindo~se que, além do princípio da utilidade, exista algum outro
princípio válido que estabeleça o que é reto e o que é errado, e que o homem
possa seguir; admitindo-se - o que não corresponde à verdade -- que o termo
reto possa ter sentido sem referência à utilidade, perguntemos à mencionada pes-
soa se pode existir o que se denomina motivo, que uma pessoa pode ter para se-
guir os ditames do princípio; se a pessoa responder que existe tal motivo, pergun-
temos-lhe qual é, e de que maneira se pode distingui-lo daqueles que nos levam a
seguir os dítames do princípio'Cla utilidade. Se o motivo aduzido não for convin-
cente, perguntemos finalmente à pessoa: para que serve esse outro princípio?
CAPÍTULO IV
depois os números que exprimem os graus da tendencia boa inerente ao ato, com
respeito a cada um dos indivíduos em relação ao qual a tendência do ato é boa
em seu conjunto. Ao depois, faze o mesmo com respeito a cada indivíduo em rela-
ção ao qual a tendência do ato é má em seu conjunto.
Feito isto, procede ao balanço. Este, se for favorável ao prazer, assinalará a
tendência boa geral do ato, em relação ao número total ou à comunidade dos
indivíduos em questão. Se o balanço pesar para o lado da dor, teremos a tendên-
cia má geral, com respeito à mesma comunidade.
VI. - Não se pode esperar que o referido método possa ser seguido a rigor
antes de qualquer julgamento moral, ou antes de qualquer ação legislativa ou
judicial. Todavia, o método como tal pode ser sempre mantido diante dos olhos;
e, na medida em que o processo atualmente seguido nessas ocasiões se aproximar
dele, na mesma medida tal processo se aproximará da exatidão.
VII. - Analogamente pode-se aplicar o mesmo processo ao prazer e à dor,
qualquer que seja a forma sob a qual apareçam e qualquer que seja a denomina-
ção com a qual se identifiquem. O processo pode ser aplicado ao prazer, quer este
se denomine um bem (o qual constitui propriamente a causa ou o instrumento do
prazer), quer se chame proveito (o qual constitui um prazer distante, ou a causa
ou instrumento de um prazer distante), ou conveniência, ou vantagem, beneficio,
recompensa, felicidade e assim por diante. Pode o método também ser à plicado à
dor, quer esta se denomine um mal (o qual equivale ao oposto do bem), quer se
chame prejuízo, ou inconveniência, ou desvantagem, ou perda, ou infelicidade, e
assim por diante.
VIII. - Não estamos aqui diante de uma teoria nova e pouco segura, ou
inútil. Com efeito, tudo quanto acabamos de expor representa um dado com o
qual concorda plena e perfeitamente a experiência do gênero humano, onde quer
que os homens possuam uma visão clara acerca dos seus próprios interesses.
Tomemos um exemplo. Qual é a razão que faz com que tenha valor uma.
propriedade, ou um terreno? O critério de avaliação é constituído pelos prazeres
de todas as espécies que a referida propriedade capacita um homem a produzir, e
- o que significa a mesma coisa - as dores de todas as espécies que ela capa-
cita o homem a afastar. Ora, o valor de uma tal propriedade, segundo a avaliação
geral, aumenta ou decresce conforme for maior ou menor o período de tempo que
uma pessoa tem nele: a certeza ou a incerteza do fato de adquirir a sua posse, e
a proximidade ou a longinqüidade do momento em que chegará a possuí-la, caso
tal aconteça. No que concerne à intensidade dos prazeres que uma pessoa pode
haurir da propriedade, nunca se pensa nisto, visto depender ela do uso que cada
pessoa particular pode vir a fazer dela; ora, isto não pode ser estimado antes que
a pessoa tenha diante de si os prazeres específicos que poderá haurir dela, ou as
dores concretas que poderá afastar através dela. A mesma razão faz com que a:
pessoa não pense nafecundidade ou na pureza desses prazeres. ( ... ) 8
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Os capítulos quinto e sexto - aqui omitidos - tratam, respectivamente, dos "Prazeres e Dores, Suas
Espécies" e "Das Circunstâncias que Influenciam a Sensibilidade". (N. do E.)