Resenha de Livro
Resenha de Livro
Resenha de Livro
113-119, 2024
https://doi.org/10.33240/rba.v19i1.51702
Resenha de livro
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. 1ª ed, São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
Ailton Alves Lacerda Krenak (Ailton Krenak), autor da obra ora resenhada, nasceu em
1953 na região do vale do Rio Doce, nordeste de Minas Gerais. Jornalista, passou a se
dedicar à causa indígena a partir dos anos 1980. Teve atuação fundamental na
Constituinte de 1988, em função da qual conseguiu incluir o capítulo “Dos Índios” na
Carta Magna brasileira. Ativista socioambiental, contribuiu com a fundação da União das
Nações Indígenas (UNI) e da Aliança dos Povos da Floresta – sendo que ambos os
projetos têm preocupação com os povos indígenas e com as florestas. Participou, no ano
de 2005, da redação da proposta da Unesco que resultou na criação da Reserva da Biosfera
da Serra do Espinhaço, vindo a se tornar membro de seu Comitê Gestor. Recebeu a Ordem
do Mérito Cultural da Presidência da República por seu papel na cultura brasileira, bem
como o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Sua trajetória é tema do documentário, de 2017, dirigido por Marco Altberg, intitulado
“Ailton Krenak e o sonho de pedra”. Dentre suas obras, podem ser mencionadas: “Ideias
para adiar o fim do mundo” (2019); “O amanhã não está à venda” (2020); “A vida não é
útil” (2020); “Lugares de origem” (2021, escrita junto com Yussef Campos); e “Futuro
ancestral” (2022). Ancorado em sua significativa produção literária, Krenak se
candidatou a uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL) e foi eleito em outubro de
2023, tornando-se o primeiro indígena a obter sucesso no pleito, com posse em 2024.
A obra Futuro Ancestral, organizada por Rita Carelli e que passa a ser aqui resenhada, tem
cento e vinte e duas páginas e é dividida em cinco capítulos: “Saudações aos rios”;
Como citar: CARVALHO NETO, Gil R. Resenha: Futuro Ancestral. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 19, n. 1, p. 113-
119, 2024.
Futuro Ancestral
CARVALHO NETO, Gil R.
No primeiro capítulo, “Saudações aos rios”, Krenak traz ao leitor a aproximação mental
com os cursos d’água e a ideia de um futuro que, se vier a existir, será ancestral. A
humanidade pouco respeita os rios, embora sempre lhe seja ensinado que a espécie
humana floresceu em proximidade com eles. A urbanização retira, de uma grande parcela
dos seres humanos, possibilidades que os povos indígenas costumavam ter – a de se
banhar com frequência nos rios desde crianças, por exemplo. A retrospectiva geográfica,
apesar de sucinta, mostra a fartura de rios brasileiros. Aproxima o leitor da perspectiva de
viver junto às águas e de “montar” os rios como quem monta um cavalo. Apesar disso,
expõe os problemas ambientais pelos quais os rios podem passar, mencionando a situação
do rio Doce e as contaminações oriundas da atividade de mineração que causam a doença
da “urina preta”, no caso do rio Tapajós, além da situação do rio Tietê. Recorda-se de que
os rios são vivos, enfrentam muitas intempéries, servem como guia dos povos, mas que o
modelo de desenvolvimento atual os maltrata e até mesmo chega a deixar as pessoas sem
água, o que pode inviabilizar os cursos hídricos e prejudicar enormemente a vida.
A saudação proposta aos rios revela a busca por uma revisão do estilo de vida da
sociedade urbana capitalista atual. O fato de ser majoritária e guiada pela bússola
econômica a faz negligenciar as sociedades minoritárias – como as indígenas – e as
implicações ao ambiente e à economia que desabrocham com esse ritmo de avanço sobre
os recursos naturais, ocorrido ao mesmo tempo em que se afastam os corações e as mentes
da juventude urbana, da vivência em harmonia com a natureza, como é o caso dos rios,
mencionados por Ailton. A própria sobrevivência da humanidade, incluindo a parcela
desta que se preocupa com formas de produção mais sustentáveis – caso da Agroecologia
– passa a estar ameaçada se não for dada a devida atenção à situação dos rios.
Por sua vez, no segundo capítulo, “Cartografias para depois do fim”, abordam-se alguns
diferentes povos e questões afetas à política. O autor expõe uma metástase do “mundo do
capitalismo” – por ele chamado, assim como por outras pessoas, de capitaloceno. Propõe-
se a imaginação de cartografias, de camadas de mundos, com narrativas plurais, como as
narrativas tradicionais dos povos ameríndios – desde a Terra do Fogo até o Alasca.
Apregoa-se a fusão entre paisagem e fonte incessante de vida (povo Guarani), enquanto se
luta contra a especulação imobiliária, a ocupação do território indígena (no exemplo, as
regiões originalmente de Mata Atlântica) e a violência, turvando a cartografia afetiva que
os ancestrais veem ali. Os Maxacali ou Tikmu’um, parentes de lá excluídos, se
reconstruíram no vale do rio Doce, precisando recriar ali um lugar para habitação. O rio
Doce (ou Watu, para o povo Krenak), embora agredido pelo desenvolvimento humano,
mergulhou na terra para refazer sua trajetória – o que não impede o alerta de que o
capitaloceno não deixará nenhum lugar na Terra que não seja, como o leito do Watu,
assolado pela lama. Os poluentes do atual estado tecnológico devem ser extirpados e a
comunhão com a natureza, com as diferentes formas de vida, incentivada. Tradições como
a das crianças Kuna, do Panamá – em ligação umbilical de um nascimento humano com a
identificação do recém-nascido com uma árvore – precisam ser reforçadas. O fim do
mundo deve ser adiado, mas só valerá a pena se o for pelas confluências – termo conforme
a lavra do pensador quilombola Nêgo Bispo, falecido no final de 2023 – entre mundos
diversos que podem se afetar. Alerta: delas deve fugir a convergência política que se
embase na lógica preponderante atual.
infiltrar a floresta na cidade, de acabar com a falsa oposição entre o que é sujo (meio
natural) e o que é limpo (meio urbano). Isso é fundamental, porque mais de 1 bilhão de
pessoas no planeta dependem de uma economia ligada à floresta e, mantidas as balizas
atuais, corre-se o risco de vermos os excertos naturais em redomas de vidro ou as cidades
separadas de florestas muradas. Isso, evidentemente, teria implicações para a
sobrevivência da humanidade (incluindo as formas de alimentação) e o autor menciona
até mesmo que a espécie humana é a única que tem medo de morrer, mas que o planeta
permaneceria existindo sem o homem.
No quarto capítulo, “Alianças afetivas”, o autor revela que a Aliança dos Povos da
Floresta – grupo por ele idealizado para articular contra a colonização no sul da Amazônia
e a fragmentação da floresta – buscava a florestania, neologismo para um novo campo de
reivindicação dos direitos de algo que ainda não era considerado como tal. A busca por
evidenciar aos seringueiros que o modo de vida dos povos da floresta era mais afável com
a natureza acabou tendo algum sucesso. Mas a ideia de florestania não pode ficar refém de
si própria. Nesse ponto, o autor abraçou o conceito de alianças afetivas, que pressupõe
afetos entre mundos não iguais. Essa troca de experiências permitiu a abertura a outras
cosmovisões e pluriversos, se mundizando – ou seja, experimentando outros mundos
nessas condições de abertura. A colonização sufocou tal possibilidade em sua época. A
democracia a permite, mas deve ser constantemente construída, já que estará sempre
sujeita a ataques. Assim, a contribuição dos povos originais aos debates de nacionalismos,
constitucionalismo e democracia é imprescindível para que a política seja mais uma
dimensão da existência e não uma atividade predatória.
Os povos tradicionais têm uma visão diferente da natureza e, assim, sua atuação em prol
desta tende a ser mais acentuada. Isso inclui a construção de conceitos novos a partir de
ideias e conhecimentos ancestrais para reivindicar direitos que afetem os seus bens mais
caros – as formas de vida em diversidade – mas sem se limitar em demasia. Por isso o
estabelecimento de alianças afetivas entre as diferentes propostas de desenvolvimento, no
âmago das mais diversas sociedades, deve acontecer. Porém, se deve considerar as
necessidades de cada forma de vida e com avaliações frequentes. Essa parceria, pelo bem
de todos os povos, deve ser uma constante em prol da existência comum e pela garantia
dos direitos sociais da humanidade.