Trabalho LD Ailton Krenak
Trabalho LD Ailton Krenak
Trabalho LD Ailton Krenak
INTERDISCIPLINA(DO)R
DISCENTE: Adriana Dal Molin
O primeiro contato que tive com a obra de Ailton Krenak, foi durante a pandemia do
Coronavírus em 2020, primeiramente via redes sociais e a primeira leitura: “Ideias
para adiar o fim do mundo”. Recordo que buscava leituras para me fortalecer na
(re)existência, para encarar o medo e a insegurança diante do contexto em que
estávamos. E Krenak, foi uma parceria para adiar o fim do mundo!
Krenak, não trazia muitas novidades, mas reforçava e dialogava com a perspectiva
crítica que ao longo da minha formação na licenciatura em Geografia fui constituído,
como a visão sistêmica, de integridade e interdependência no sistema Terra.
Não por acaso, Krenak cita o próprio Milton Santos (maior referência da geografia
crítica ao sistema capitalista e consequentemente da globalização e suas
respectivas perversidades), James Lovelock, entre outros e outras que alicerçam
nossas leituras de mundo enquanto estudantes de Geografia.
Antes de ler Krenak, estava claro que os povos originários têm muito a dizer, já
disseram muito (mas pouco ouvimos), e cabe a nós brancos a humildade de ouvir,
refletir, aprender com, a (re)existir.
Se pensarmos na contribuição da leitura de Krenak para o desenvolvimento da
pesquisa na pós-graduação, considero que esteja além do desenvolvimento da
pesquisa, pois tem contribuído para minha forma de ser e estar no mundo,
atualizando as discussões, provocando a pensar por outras lentes e ampliando o
universo do pensar e do agir.
Deste modo, nas laudas seguintes vou destacar algumas ideias que me fazem ou
me fizeram pensar, refletir sobre a ousadia de ser gente a partir de leituras das
obras de Krenak. .
Uma das primeiras provocações de Krenak é o questionamento acerca da
humanidade que somos ou pensamos ser. O que tem de humano nesta sociedade
urbano-industrial, tecnificada que joga pessoas na marginalidade privada de
condições dignas de vida? E a condição digna, não se refere somente a salário e
possibilidade de consumo, mas ao direito a manter a memória ancestral, a
espiritualidade.
Sim, vivemos de forma alienada e alienante, não nos damos conta, tampouco nos
educamos para compreender que somos Terra. Uma vez agredido os subsistemas,
as florestas, campos, rios, solos é a nós mesmo que agredimos, ou seja, um
processo perverso de autodestruição!
Krenak, cita Mujica para nos lembrar que somos transformados em consumidores, e
não em cidadãos. Milton Santos, no livro “O espaço do Cidadão", publicado em
2007, se referia a uma cidadania atrofiada, “em lugar do cidadão formou-se um
consumidor, que aceita ser chamado de usuário” (p.25). Em comum, mesmo sendo
autores de contextos diferentes, temos o tensionamento para a reflexão do que seja
a cidadania: crítica/consciente ou imbecil/atrofiada?
Krenak, nos alerta para outros mundos possíveis, neste tempo especialista em criar
ausências, importa enriquecer a subjetividade, com outras visões, outras poéticas
sobre a existência que não seja a perspectiva do neoliberal, racista, sexista,
excludente, violenta…
Outro aspecto importante das obras de Krenak é a crítica a forma de fazer ciência,
serviçal da técnica, que ignora a interdependência do humano e o não humano.
Aprendemos com os povos originários o significado de nós, para alem de pessoas
humanas, mas que inclui árvores, rio, animais, rochas. Por certo, tal perspectiva
prioriza a junção entre imanência e transcendência, e ressalta a urgência de
revermos nossos valores, para quiçá adiarmos o fim do mundo.
Na obra “Futuro anscentral”, fico fascinada pela relação valorosa que Krenak
estabelece com a água e os rios. Por certo, uma forma de ser estar no mundo em
que prevalece a junção entre imanência e transcendência e que tem muito a nos
dizer sobre a relação desrespeitosa que estabelecemos com nossos rios. Retiramos
a mata ciliar (imaginemos a dor dos rios supondo que nos fosse retirados nossos
cílios), invadimos suas várzeas, seus territórios e não entendemos porque
acontecem inundações, alagamentos, enchentes de grandes proporções.
A Terra é arrasada pela ação humana, culpabiliza-se a natureza. Mas há que se ter
cuidado com o uso de “ação humana", a tendência à generalização, ofusca os
interesses, disparidades e jogos de poder em tela, seja de pessoas, corporações,
países ou afins.
A título de ilustração, em meados de janeiro de 2025, uma jornalista do Grupo RBS,
questiona o secretário da agricultura do estado do RS, sobre a região mais afetada
pela seca em nosso estado. O secretário afirma ser a região noroeste, citando o
município de Ijuí, como um dos que mais sofrem com a estiagem.
Uma análise breve do contexto e das falas revela que há uma naturalização da
estiagem como sendo atrelado a ação da natureza. Ignora-se o fato de que a região
noroeste faz parte de grandes bacias hidrográficas, ou seja, capilarizada por rios
intermitentes e no domínio vegetal de mata Atlântica, características que
coadunam para um equilíbrio hídrico ao longo do ano. Por outro lado, a região
noroeste é uma das maiores produtoras de grãos do RS, logo, para se produzir
grãos (commodities) é necessário, como diz Krenak, praticar bullying com o solo,
com os rios, arrancar a vegetação nativa e operacionalizar a paisagem, inclusive
com sistema de irrigação que demandam grande quantidade de água.
Não por acaso, quanto mais descaracterizada, desfigurada a paisagem natural,
maiores serão as consequências do aquecimento global.
Aquecimento global? Não convém o uso do termo, por circunstâncias óbvias, melhor
utilizar estiagem ou seca. Porém tais informações são omitidas no debate, no que
vira notícia nos meios de comunicação de massa. Quanto maior a alienação, ou a
desinformação, maior o território de poder das grandes corporações e a legitimação
de que o Agro é Pop, quando de fato é elitista, perverso…
Cito o exemplo para lembrarmos, ações humanas são diferentes, são geografias
diferentes e consequentemente, os impactos não são idênticos. Uma família que
pratica a agricultura orgânica, na perspectiva agroecológica em um sítio de 5
hectares, por certo, se distingue da ação humana de um proprietário rural que
cultiva soja transgênica, irrigada em 500 hectares com uso intenso de tecnologias
químicas, físicas e biológicas. Ao generalizarem as ações humanas, literalmente
colocamos no mesmo balaio, interesses, perspectivas e poderes que pouco ou nada
têm em comum.
Impossível, ao ler Krenak, não lembrarmos das turbulentas águas de maio de 2024
no RS. Não somente as águas de maio e no RS, mas episódios e fenômenos
nomeados de naturais, mas que revelam consequências de uma invasão perversa
do modelo industrial que transforma tudo em mercadoria, a alegria, a dor, a vida.
É o avanço do que os geógrafos nomeiam de paisagens operacionais. Em outras
palavras, as paisagens, os territórios são transformados para atender as demandas
do mercado, ou seja, se apropriar do sistema Terra e dos terranos para gerar mais
energia, produzir uma infinidade de produtos, movimentar o consumo, aumentar o
lucro.
Em se tratando do sul global o sistema capitalista e sua versão neoliberal,
apresenta uma infinidade de perversidade ainda maior, lembremos que privatiza-se
os bônus e socializa os ônus. E como bem coloca Krenak, “[...] essa forma de ver o
mundo como um almoxarifado está no cerne da crise ambiental que estamos
enfrentando, (2024, p.110).
Krenak, nos inspira para outras formas de ver o mundo, romper com o que o
pensamento colonial produziu, criarmos alianças afetivas entre mundos não iguais.
E não se trata de abandonarmos nossa vida, embrenhar-se na mata, mas de
experimentarmos outros mundos (mundizar), nos abrir para outras cosmovisões
como nos sugere Krenak.
Vale ressaltar, a título de ampliarmos o debate, a perspectiva da cosmopercepção,
oriunda da filosofia africana, em que não se privilegia um único sentido, a visão,
mas uma forma de produzir mundo relacionado com todos os sentidos conforme
propõe Oyèrónke Oyěwùmí (2002).
Enquanto professora na educação básica, entendo que a contribuição de Krenak é
efetiva, pois nos provoca pensar no modelo de educação e o que privilegiamos no
currículo. Até que ponto reproduzimos a educação sanitarista, que nos fala o autor?
Ou retomando a discussão sobre cidadania e consumo, como estamos
contribuindo? Educamos consumidores? Questionamos o modelo de escola?
Nossas crianças são (des)educadas para amar ou odiar o meio ambiente Quais são
as nossas referências? Quais espaços para a pluralidade de formas de ser e estar
no mundo? Como a questão, os saberes e fazeres dos povos originários adentram
nossos espaços educativos? Uma data específica? Ou como uma possibilidade de
leitura de mundo, literatura, ciência, arte, poesia…
Questões impertinentes, que arrastam pensamento, nos tiram de modo automático.
Nos coloca de frente para a vida, um convite a observar de forma mais lenta, de nos
enlaçar com todas as formas de vida. Buscar o bem-viver, que significa o equilíbrio
com a Terra, organismo vivo.
Importa nos educar e educarmos para a vida na Terra viva e não para a pseudo
vida na Terra morta. O que está no nosso entorno tem muito a nos dizer, como nos
inspira Krenak: que nossos grandes mestres da vida sejam uma constelação de
seres - humanos e não humanos.
Finalizo, sem concluir, com um parágrafo, mas que pode ser prosa, poema ou
poesia, sobre o que entendo sobre liberdade, mas que também me faz
esperançar…
Trata-se de sentir a vida nos outros seres, numa árvore, numa montanha, num
peixe, num pássaro, e se implicar. A presença dos outros seres não apenas se
soma à paisagem do lugar que habito, como modifica o mundo. Essa potência de se
perceber pertencendo a um todo e podendo modificar o mundo poderia ser uma boa
ideia de educação. Não para um tempo e um lugar imaginários, mas para o ponto
em que estamos agora.
(Krenak, 2024, 102-103)
REFERÊNCIAS
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das
Letras, 2019.
KRENAK, Ailton. O Amanhã Não está à Venda. São Paulo: Companhia das Letras,
2020.
KRENAK, Ailton. A Vida Não é Útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. Visualizing the Body: Western Theories and African Subjects
in: COETZEE, Peter H.; ROUX, Abraham P.J. (eds). The African Philosophy Reader.
New York: Routledge, 2002, p. 391-415. Tradução para uso didático de wanderson
flor do nascimento.